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Entrevista: Kenneth
Rogoff
"É a chance do Brasil"
Um dos economistas mais brilhantes de
sua geração, o professor de Harvard diz
que o Brasil está em situação favorável
para entrar numa fase de crescimento alto

Eduardo Salgado
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Divulgação

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"O aumento dos juros
americanos deixa o Brasil mais vulnerável, mas não tem
o poder de tirar a economia do rumo da recuperação" |
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O professor de economia
Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, tem o dom de lançar
idéias que causam polêmica em um primeiro momento e
anos depois passam a ser aceitas como quase unanimidades. Foi assim
quando defendeu a importância de bancos centrais independentes
e o sistema de metas de inflação, há cerca
de vinte anos. Além de um preparo acadêmico invejável,
Rogoff tem a coragem de falar o que pensa. Não mudou nem
quando ocupou o cargo de economista-chefe e diretor do departamento
de pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI), entre
2001 e 2003. A discussão que teve com o nobel de Economia
Joseph Stiglitz, um ácido crítico da globalização,
em junho de 2002, na sede do Banco Mundial, foi um dos embates mais
contundentes registrados nos últimos anos entre economistas.
Rogoff, de 51 anos, falou a VEJA de sua casa em Washington antes
de embarcar para o Brasil, onde participa nesta quinta-feira do
seminário "A economia internacional e os mercados emergentes",
em São Paulo.
Veja
O que o senhor faria se um dia acordasse como presidente do Banco
Central do Brasil?
Rogoff Primeiro, tomaria
um copo grande de café para me certificar de que tinha de
fato acordado. Brincadeiras à parte, os funcionários
do Banco Central brasileiro são de altíssimo nível.
A primeira coisa que faria seria conversar com eles para saber o
que pensam. O desafio, claro, é continuar baixando os juros
e, ao mesmo tempo, manter a confiança no real. Não
faria nada radicalmente diferente do que está sendo feito.
O juro real (que é a diferença entre a taxa de
juro definida pelo Banco Central e a inflação)
está entre os mais altos do mundo. Isso é um grande
problema, mas, à medida que o Banco Central ganhar mais credibilidade,
isso mudará.
Veja Por
que ainda é preciso uma taxa de juro real tão alta
para manter a economia sob controle?
Rogoff
Não há a menor dúvida de que a situação
no Brasil está melhorando. O país fez um trabalho
admirável para controlar a dívida pública,
evitando que continuasse crescendo como antes. Houve redução
significativa da dívida indexada ao dólar. Tudo isso
deveria ter sido reconhecido mais rapidamente não apenas
pelos capitais internacionais, mas também por investidores
nacionais. Para azar do Brasil, os investidores têm boa memória.
O país já deu sete calotes. Por longos anos, a política
macroeconômica foi bastante fraca. Nos últimos vinte
anos, por duas vezes o Brasil teve dois períodos de quase
hiperinflação. Apesar disso, concordo que os juros
pagos pela dívida interna são muito altos. A transição
suave do governo de FHC para o de Lula foi bastante positiva. Tenho
certeza de que dará frutos. À medida que a confiança
aumentar, haverá bastante espaço para reduções.
Obviamente, o Banco Central não pode baixar os juros antes
que a confiança tenha sido restaurada. Se o fizer, a inflação
dispara.
Veja
A política fiscal do governo tem sido consistente desde
1999. Até que ponto é justificado o temor de que o
governo dará um calote na dívida ou apelará
à inflação para reduzi-la?
Rogoff Não existe
nenhum risco imediato de que alguma dessas alternativas ocorra.
Quando assumiu, o governo Lula deu um sinal muito claro de que não
seguiria por esses caminhos. A maior vulnerabilidade vivida pelo
país hoje é o baixo crescimento da economia. A estimativa
é que cresça algo em torno de 3,5% neste ano e em
2005. É um porcentual muito bom, mas o Brasil pode ir mais
longe. As condições internacionais são extremamente
favoráveis. O comércio com a China está aumentando,
e o preço dos produtos exportados pelo Brasil encontra-se
em um bom patamar. Além disso, a economia mundial vem crescendo
fortemente. Nessas condições, eu gostaria de ver o
Brasil crescer 5% ao ano, talvez 7%. Quando o país chegar
a esse estágio, acho que todos darão aquele suspiro
de alívio. As incertezas em relação à
dívida diminuirão e o governo terá o dinheiro
de que necessita para atacar os problemas sociais. Para crescer
a 7% ao ano no futuro próximo, o governo precisa agir agora.
Se nos próximos dez anos o Brasil não conseguir atingir
esse patamar, é possível, então, que a situação
saia do controle, entre numa espiral inflacionária, e se
volte a especular sobre calote da dívida.
Veja
E como se atinge esse patamar?
Rogoff A política
macroeconômica, que dá ênfase a questões
como dívida pública, tipos de câmbio e estratégias
de controle da inflação, é muito, muito boa.
Mas há muito que fazer na área da microeconomia, que
está relacionada a fatores como a vida de empregados, patrões,
fornecedores e consumidores, bem como a regras legais. Uma das razões
que explicam o juro altíssimo do Brasil é a desconfiança
que os bancos têm dos tribunais. Nesse quesito, o Brasil perde
até mesmo para outros países latino-americanos. No
Brasil, os bancos demoram anos para reaver um bem de um inadimplente.
Qual é o resultado? A população como um todo
perde. Os bancos cobram taxas altíssimas de todo mundo para
cobrir os riscos que correm com a minoria que não paga e
é beneficiada pelos juízes. Na área comercial,
também há muito que fazer. O Brasil precisa se abrir
e exportar mais. O mesmo vale para as leis trabalhistas, que têm
de ser mudadas.
Veja
O nível de investimento no Brasil ainda é baixo.
Como outros países resolveram esse problema?
Rogoff Investimento é
realmente muito importante para o crescimento. Mas nossas pesquisas
demonstram que há outros fatores ainda mais cruciais: melhorias
na educação, na infra-estrutura, no sistema legal,
o aumento da confiança das pessoas no governo e nas instituições,
a obediência às leis... Sinceramente, acho que o Brasil
está numa posição privilegiada para fazer as
reformas e entrar num período de alto crescimento. Isso não
é fácil, mas a situação raras vezes
foi tão favorável.
Veja
No começo dos anos 90, os brasileiros ouviram que precisavam
privatizar e abrir a economia para crescer. Os resultados foram
aquém das expectativas. Agora a promessa é outra.
Primeiro as reformas microeconômicas...
Rogoff O crescimento
da economia abaixo do que alguns esperavam não tira o brilho
de algumas reformas que deram certo. A questão foi a seguinte:
apesar dos acertos, a questão fiscal continuou sendo um problema
na América Latina. Com uma agravante estamos falando
de países altamente endividados. Sobre o futuro, ninguém
pode fazer promessas. O que posso dizer com base no que já
ocorreu em outros lugares é que um país que promove
reformas colhe os frutos de forma gradual no começo, mas
depois o processo de crescimento ganha ritmo. O que, sim, sabemos
com 100% de certeza é o que não dá certo. Sabemos
que o planejamento centralizado e um Estado intervencionista não
dão certo.
Veja
Como não dão certo se a China tem taxa média
anual de crescimento de 9% há 25 anos?
Rogoff O PIB per capita
da China é de apenas 1 100 dólares. No começo
dos anos 70 do século XX, a maioria dos chineses vivia em
condições semelhantes às do século XVII
em outros lugares. O Brasil é um país muito mais rico
que a China. Uma coisa é dar um salto de 250 dólares
para 1 100 dólares, como fez a China. Outra bem diferente
é sair do patamar em que está o Brasil para o dos
países ricos. A China e a Índia estão percorrendo
um caminho que a América Latina trilhou há um século.
O sistema financeiro chinês é um desastre. De agora
em diante, o planejamento centralizado causará todos os tipos
de problema. Veremos nos próximos cinco, dez anos como a
China vai diminuir o ritmo e como terá crises financeiras.
Mesmo com todos os seus problemas, o Brasil tem uma das economias
mais poderosas do mundo.
Veja Em
que medida o Brasil está vulnerável ao aumento da
taxa de juros nos EUA?
Rogoff
Pelos meus cálculos, a taxa de juros dos Estados Unidos e
do restante dos países da OCDE, o grupo dos mais desenvolvidos,
crescerá, no mínimo, 1 ponto porcentual nos próximos
seis ou doze meses, na média. Poderia até crescer
1,5 ponto porcentual, talvez 2. Certamente, esse aumento será
doloroso para o Brasil, pois, como se sabe, quando a taxa americana
sobe, os investidores estrangeiros tendem a privilegiar os papéis
dos EUA em detrimento dos emergentes. Entretanto, não acho
que isso criará uma crise. Se os juros americanos aumentassem
dramaticamente de uma hora para outra e, ao mesmo tempo, o governo
brasileiro perdesse o rumo na política econômica, aí,
sim, poderia ficar difícil. Em poucas palavras: o aumento
dos juros americanos deixa o Brasil mais vulnerável, mas
não tem o poder de tirar a economia do rumo da recuperação.
Veja Um
dos pilares da política econômica brasileira é
o sistema de metas inflacionárias. O BC anuncia o patamar
de inflação que tentará obter no futuro e,
com isso, tenta guiar as expectativas. Existe outra saída
para um país emergente e endividado?
Rogoff
Escrevi o primeiro estudo defendendo o sistema de metas inflacionárias
há mais de vinte anos e continuo achando que é uma
boa política. Por outro lado, sou contra a transformação
desse sistema em uma religião. É importante ter flexibilidade.
Se o país está enfrentando um choque muito grande,
algumas vezes é melhor mudar a meta. No caso específico
do Brasil, a aplicação do sistema é uma das
melhores que conheço. É um modelo para os países
em desenvolvimento. Tenho dúvidas sobre o nível de
inflação que deve ser buscado. Não deve ser
2%, ou talvez nem mesmo 3%. É baixo demais para os choques
que o Brasil enfrenta. Sem contar as dificuldades que se tem de
controlar o aumento de preços. Talvez o mais apropriado seja
algo como 4% ou 5%. Mas o mais importante de tudo é ter um
Banco Central independente.
Veja O
Banco Central não deve ser influenciado pelo presidente,
que foi eleito para dirigir o país?
Rogoff
Hoje em todo o mundo não há nem três
países com altas taxas de inflação, acima de
40%. Em 1992, eram 44 países, muitos deles na América
Latina. Vimos um enorme declínio da inflação.
Isso ocorreu de várias formas, com metas de inflação,
com mudanças no câmbio, só para citar dois exemplos.
O fator comum à maioria foi um Banco Central forte e independente.
Essa foi a grande inovação dos últimos vinte
anos. A experiência mostra que, nos países com bancos
centrais fracos, a taxa de juros pode até baixar com um canetaço,
mas depois volta a crescer como nunca antes. A falta de independência
amedronta os investidores e as empresas. O tiro sai pela culatra.
O que dá certo é o governo eleito decidir a meta e
deixar o Banco Central trabalhar. Talvez daqui a vinte anos descubram
uma fórmula melhor. Por enquanto, é o que temos.
Veja
Dois anos atrás, o senhor criticou duramente as idéias
do prêmio Nobel Joseph Stiglitz sobre a globalização.
O senhor mudou de idéia?
Rogoff De forma alguma.
No livro A Globalização e Seus Malefícios,
ele juntou todas as críticas possíveis contra o FMI.
As de centro, esquerda, direita e as do espaço sideral também.
A obra é um compêndio de quase tudo o que outras pessoas
já disseram. Obviamente que algumas colocações
estão corretas, mas há outras de que discordo totalmente.
A análise de Stiglitz que considero a mais equivocada é
a que diz que o objetivo do FMI é criar a austeridade, fazer
os pobres sofrer para que o país pague a dívida. A
verdade é que os países recorrem ao FMI quando mais
ninguém quer socorrê-los. Quando investidores nacionais
e estrangeiros os abandonaram, quando a população
perdeu a confiança na moeda. Isso ocorre geralmente em países
que tiveram grandes déficits por anos. No primeiro momento
não há outra saída mesmo a não ser apertar
o cinto. Mas o objetivo do FMI é resgatar a confiança
e voltar à normalidade. Stiglitz também errou ao fazer
ataques contra funcionários do Fundo, pessoas da mais alta
honestidade. Isso é revoltante. Não tenho nada contra
quem escreve com paixão. Mas esses escritores deveriam dizer
claramente aos leitores que deixaram a objetividade de lado.
Veja
O senhor concorda que o mundo precisa de um sistema melhor para
lidar com as moratórias?
Rogoff Com certeza. O
caso da Argentina não precisava ter sido tão caótico.
Durante o tempo em que fiquei no FMI, vi várias situações
que poderiam ter resultado em um final menos doloroso se já
tivéssemos um sistema diferente. No futuro, precisamos de
algo que permita, em situações extremas, aceitar calotes
parciais em vez de insistir em grandes superávits fiscais.
Hoje isso não é possível. Mudar as leis internacionais
nesse sentido é de extrema importância. Estou preparando
um artigo sobre o assunto, portanto não tenho conclusões
ainda. A minha impressão é que teremos melhorias no
sistema, mas isso não ocorrerá a partir de um grande
plano que resolva tudo de uma hora para outra. Acredito que será
algo mais descentralizado e gradual. Em vez de decidir tudo em Nova
York, Londres e Tóquio, talvez os contratos sejam julgados
em outras jurisdições, como a América Latina.
Veremos soluções mais criativas.
Veja
O déficit em conta corrente (a diferença entre
o que o país gasta e o que arrecada em divisas com comércio,
serviços e transferência de renda ao exterior) dos
Estados Unidos é de 5%. Essa situação é
sustentável?
Rogoff
De forma alguma. Os EUA são, de longe, o país
que mais absorve a poupança mundial. Acredito que quando
a crise chegar, num futuro não tão distante, veremos
o dólar perder, no mínimo, 15% de seu valor, podendo
chegar a uma queda de 40%. O impacto será mundial. Depois
do terrorismo, acho que esse é o maior problema macroeconômico
do mundo. Infelizmente, Alan Greenspan, o presidente do Fed, o banco
central americano, não pensa como eu.
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