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Em
foco: Sérgio Abranches
Uma nova aberração
"As OQUANGOs infestaram o setor público
brasileiro. São organizações 'quase
não-governamentais' e vivem atreladas
ao orçamento oficial. Não conheço nenhuma
que seja criativa, ousada ou crítica"
Ilustração Ale Setti
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A primeira vez que soube das OQUANGOs foi lendo uma crítica
à reforma do Estado de Margaret Thatcher. Como se chamaria
uma suposta organização não-governamental instalada
em prédio do governo e tendo como única fonte de financiamento
o orçamento oficial, não raro de uma única
agência governamental? Certamente não ofenderíamos
as ONGs autênticas chamando aquelas organizações
de não-governamentais. Isso elas não são. O
correto seria, para sermos justos, chamá-las de "organizações
quase governamentais", mas, aí, beiraríamos o chulo.
Vamos, então, chamá-las de organizações
"quase não-governamentais". OQUANGOs. Essas aberrações
infestaram o setor público brasileiro nos anos recentes.
As organizações não-governamentais
constituem relativa novidade, pelo menos na expressão quantitativa
e qualitativa que têm hoje. Constituem espaço de ação
pública, nem estatal nem privada. São importante componente
da democracia, desde que criadas e sustentadas de acordo com certas
regras. A primeira, de independência em relação
aos governos. Ora, nenhuma organização da sociedade
pode ter autonomia política e ideológica se não
for financeiramente independente. Outra é a separação
da estrutura partidária. Nenhuma organização
pode ser autônoma e isenta se for braço operacional
de partido político.
Não conheço fundação
privada séria que não imponha três condições
para financiar uma ONG: busca da sustentabilidade por meio da criação
de receita própria e da diversificação das
fontes de financiamento; transparência em relação
a suas ações e sua gestão financeira; e avaliação
permanente de desempenho. Não conheço ONG séria
que não observe essas condições. Não
é que, para ser auto-suficientes, as ONGs devam se transformar
em empresas. Seria desvirtuá-las. Mas a sustentabilidade
será tanto maior quanto maiores forem a parcela de recursos
autogerados e a contribuição de financiadores independentes
eles mesmos fundações privadas ou ONGs
em seu custeamento, em relação aos recursos governamentais.
ONGs que vivem atreladas ao orçamento governamental são
esse outro animal, são OQUANGOs.
Não existe OQUANGO que obedeça
às condições acima: não buscam a sustentabilidade
por meio da diversificação das fontes de financiamento
nem pela criação de receitas próprias. Tentam
perenizar seus vínculos com o orçamento oficial. Não
conheço OQUANGO criativa, ousada ou crítica. São
adeptas do básico. Respondem às demandas governamentais.
No máximo, tratam de criar novas demandas, para se manter
eternas fornecedoras.
Na Inglaterra thatcherista e no Brasil, as
OQUANGOs servem para elidir as restrições inerentes
às agências governamentais. Uma parte do gasto público
é transferida para essa área "quase não-governamental".
Esse gasto se torna menos transparente e se fecha ao escrutínio
da sociedade. Muitas OQUANGOs conseguem escapar aos órgãos
fiscalizadores. O Brasil burocratiza para controlar, quando deveria
estabelecer marcos regulatórios que assegurassem transparência
e lisura sem burocracia e sem excesso de controles. Esses excessos
estimulam truques como as OQUANGOs.
Toda ONG verdadeira deveria se opor a essa
apropriação da designação de "não-governamental"
pelas "quase-governamentais". Organização não-governamental
deveria ser apelação de origem controlada, como se
faz com os bons vinhos: só deveriam merecê-la aquelas
entidades que, efetiva e comprovadamente, obedecessem às
condições de qualidade, transparência e sustentabilidade
que legitimam e justificam esse território de ação
pública não-estatal e não-privado. O uso dessa
denominação por organizações que não
a merecem põe em risco a credibilidade das verdadeiras ONGs.
Especialmente quando a falta de rigor e as irregularidades nas transferências
de recursos para OQUANGOs criam a possibilidade de escândalos.
Manuel Castells, em artigo recente, fala das
ONGs como uma resposta à crise de transparência, legitimidade
e eficiência do Estado. Misturadas às OQUANGOs, porém,
podem se tornar parte dessa crise, e não sua solução.
Sérgio Abranches é
cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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