Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Carta ao leitor
O que vale é funcionar


Wania Corredo/Ag. O Globo
Os bons programas sociais não precisam ser originais, mas sim eficientes

Ainda está para se ver no Brasil um candidato a cargo executivo com coragem suficiente para dizer que não vai mexer em nada nos bons projetos que já estão em funcionamento no país, no Estado ou na cidade que deseja governar. Insuflados por seus gurus de campanha, os candidatos sentem-se impelidos a dizer que vão mudar tudo, trazendo consigo soluções originais para todos os problemas que assolam os eleitores. Pura demagogia. Nos países de democracia mais madura, a originalidade administrativa é uma característica pouco apreciada nos governantes. Eles são mais valorizados por sua sabedoria em manter em funcionamento os programas de comprovada eficiência – mesmo quando colocados de pé por seus adversários políticos. No Brasil, a tendência é substituir milhares de ocupantes de cargos públicos por simpatizantes do partido que acaba de chegar ao poder, como o PT vem fazendo. Isso em si já é desastroso. Mas nos processos de alternância de poder brasileiros, com a troca de cabeças, raramente se escapa da tentação de enterrar todos os projetos dos antecessores – os ruins e os bons.

Para surpresa geral, até dos próprios integrantes, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem escapado dessa maldição. Manteve a austeridade na condução da política econômica e muitos de seus melhores programas sociais são meras continuidades de iniciativas do governo anterior. O programa de erradicação do trabalho infantil, por exemplo, é um deles. Funcionava bem no governo tucano e continuou funcionando agora, com o pagamento mensal de até 40 reais a crianças de 7 a 15 anos que não freqüentavam a escola porque precisavam trabalhar. Mesmo o Bolsa-Família, grande bandeira do governo petista na área social, não deixa de ser um processo de continuidade. O programa reúne quatro projetos – três do governo anterior e um criado pelo governo petista. Está indo bem. Não há nada de errado nisso. Ao contrário, é um sinal de fortalecimento institucional de uma sociedade que desconfia do improviso e das utopias, ao mesmo tempo que descrê das rupturas revolucionárias.

 
 
 
 
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