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Carta ao leitor
O que vale é funcionar
Wania Corredo/Ag. O Globo
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| Os bons programas sociais não precisam
ser originais, mas sim eficientes |
Ainda está para se ver no Brasil um
candidato a cargo executivo com coragem suficiente para dizer que
não vai mexer em nada nos bons projetos que já estão
em funcionamento no país, no Estado ou na cidade que deseja
governar. Insuflados por seus gurus de campanha, os candidatos sentem-se
impelidos a dizer que vão mudar tudo, trazendo consigo soluções
originais para todos os problemas que assolam os eleitores. Pura
demagogia. Nos países de democracia mais madura, a originalidade
administrativa é uma característica pouco apreciada
nos governantes. Eles são mais valorizados por sua sabedoria
em manter em funcionamento os programas de comprovada eficiência
mesmo quando colocados de pé por seus adversários
políticos. No Brasil, a tendência é substituir
milhares de ocupantes de cargos públicos por simpatizantes
do partido que acaba de chegar ao poder, como o PT vem fazendo.
Isso em si já é desastroso. Mas nos processos de alternância
de poder brasileiros, com a troca de cabeças, raramente se
escapa da tentação de enterrar todos os projetos dos
antecessores os ruins e os bons.
Para surpresa geral, até dos próprios
integrantes, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem escapado
dessa maldição. Manteve a austeridade na condução
da política econômica e muitos de seus melhores programas
sociais são meras continuidades de iniciativas do governo
anterior. O programa de erradicação do trabalho infantil,
por exemplo, é um deles. Funcionava bem no governo tucano
e continuou funcionando agora, com o pagamento mensal de até
40 reais a crianças de 7 a 15 anos que não freqüentavam
a escola porque precisavam trabalhar. Mesmo o Bolsa-Família,
grande bandeira do governo petista na área social, não
deixa de ser um processo de continuidade. O programa reúne
quatro projetos três do governo anterior e um criado
pelo governo petista. Está indo bem. Não há
nada de errado nisso. Ao contrário, é um sinal de
fortalecimento institucional de uma sociedade que desconfia do improviso
e das utopias, ao mesmo tempo que descrê das rupturas revolucionárias.
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