Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Auto-retrato
Gustavo Kuerten

João Pires


Aos 27 anos, o melhor tenista brasileiro sabe que são raros casos como o do americano Andre Agassi, que chegou ao topo do ranking depois dos 30. Não ajuda o fato de sentir dores no quadril, dois anos depois de uma cirurgia para corrigir esse problema. Foi depois de uma sessão com a fisioterapeuta que Guga falou ao editor André Fontenelle, em Florianópolis.

VOCÊ TEM RECLAMADO DO EXCESSO DE TORNEIOS. POR QUE, ENTÃO, JOGAR AS OLIMPÍADAS, QUE NÃO DÃO PRÊMIOS AOS TENISTAS PROFISSIONAIS?
O ranking hoje é uma preocupação secundária. Vivo em função da recuperação, dois anos depois da cirurgia. Não sou mais aquele cara de 20 anos que corre atrás de todos os pontos. É difícil esquecer o ranking, outros caras me passam. Claro que as Olimpíadas me motivam muito. Uma medalha consagraria minha carreira por completo.

A CIRURGIA NÃO DEU CERTO?
Deu, só que ela arruma, mas não resolve. Deram uma lapidada, mas vou ter um quadril imperfeito pelo resto da vida. Ele é bom para jogar futebol, surfar, até brincar de tênis. Mas em nível competitivo você precisa de 120%. Aí faz diferença se meu quadril está 70%.

VOCÊ SENTE DOR QUANDO JOGA?
Sinto mais facilidade para me movimentar desde a cirurgia. Mas depois de uns trinta, quarenta minutos começo a sentir uma dor que vai sugando minha energia. Foi o que aconteceu no jogo que perdi em Roland Garros, no mês passado. Nas Olimpíadas é diferente, pois se jogam apenas três sets.

HAVIA ALTERNATIVA À CIRURGIA?
Não penso: "Pô, podia ter feito outra coisa". Tomei as decisões que sentia que eram as melhores. Tendo passado pelo que passei nesses dois anos, se pudesse voltar atrás teria dúvidas. Mas, se a cirurgia não fosse naquele momento, a coisa iria se agravar.

A LESÃO O OBRIGOU A MUDAR O JEITO DE BATER NA BOLA?
Até tentei, mas não me adaptei. Minha lesão foi muito em função da maneira como eu jogo. E, depois de ter sido número 1 do mundo, ganhar três Roland Garros, ter de aprender a bater de uma maneira diferente... eu não queria isso. Continuo jogando da mesma forma. Isso me desgasta mais. Mas é como me sinto bem.

É VERDADE QUE VOCÊ PRETENDE PARAR DE JOGAR NO ANO QUE VEM?
O pessoal quer pendurar minha raquete, né? Acho que ainda tem tempo. Para disputar o circuito inteiro, não tenho a motivação de antes. Gosto de jogar tênis. O que acontece é que hoje jogar muito me prejudica. Foi difícil me conscientizar disso. Agora está bem claro na minha cabeça. Quanto menos tempo ficar na quadra, mais vou jogar feliz. A motivação para treinar, que é a principal, eu tenho. Isso significa que devo continuar por bastante tempo.

QUANTO TEMPO?
Pelo menos uns três anos, se melhorar meu quadro físico. A partir dos 30, a coisa vai mudar um pouco.

O QUE VOCÊ SENTE QUANDO JOGA?
A gente vai do céu ao inferno no mesmo jogo. Tem momentos em que tu te sentes até envergonhado. E depois vêm sensações muito boas também, partidas em que tu começas a ver o jogo todo como uma coisa só. Como na vitória contra o Roger Federer (atual número 1 do mundo) em Roland Garros. O público, eu, juiz, vento, sol, tudo era uma coisa só. Nada interferia. Só o que eu pensava acontecia. É muito difícil chegar a esse estado, é como se fosse um nirvana.

VOCE JA ACHOU A MULHER PARA SE CASAR?
Ah... Achei, mas não sei se vou casar... Estou namorando a Letícia (Böttcher, modelo e publicitária), com quem me sinto muito bem. Sempre busquei alguém que me deixe ser o Gustavo, e ela me dá muita força, como nesse momento da minha recuperação. Uma relação de dois anos desenvolve uma confiança grande. Não sei se ela vai chegar a ser minha esposa, a mãe dos meus filhos, mas hoje é perfeita para estar do meu lado.

 
 
 
 
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