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Auto-retrato
Gustavo Kuerten
João Pires
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Aos 27 anos, o melhor tenista brasileiro sabe que são raros
casos como o do americano Andre Agassi, que chegou ao topo do ranking
depois dos 30. Não ajuda o fato de sentir dores no quadril,
dois anos depois de uma cirurgia para corrigir esse problema. Foi
depois de uma sessão com a fisioterapeuta que Guga falou
ao editor André Fontenelle, em Florianópolis.
VOCÊ TEM RECLAMADO
DO EXCESSO DE TORNEIOS. POR QUE, ENTÃO, JOGAR AS OLIMPÍADAS,
QUE NÃO DÃO PRÊMIOS AOS TENISTAS PROFISSIONAIS?
O ranking hoje é uma preocupação secundária.
Vivo em função da recuperação, dois
anos depois da cirurgia. Não sou mais aquele cara de 20 anos
que corre atrás de todos os pontos. É difícil
esquecer o ranking, outros caras me passam. Claro que as Olimpíadas
me motivam muito. Uma medalha consagraria minha carreira por completo.
A CIRURGIA NÃO
DEU CERTO?
Deu, só que ela arruma, mas não resolve. Deram uma
lapidada, mas vou ter um quadril imperfeito pelo resto da vida.
Ele é bom para jogar futebol, surfar, até brincar
de tênis. Mas em nível competitivo você precisa
de 120%. Aí faz diferença se meu quadril está
70%.
VOCÊ SENTE DOR
QUANDO JOGA?
Sinto mais facilidade para me movimentar desde a cirurgia. Mas depois
de uns trinta, quarenta minutos começo a sentir uma dor que
vai sugando minha energia. Foi o que aconteceu no jogo que perdi
em Roland Garros, no mês passado. Nas Olimpíadas é
diferente, pois se jogam apenas três sets.
HAVIA ALTERNATIVA À
CIRURGIA?
Não penso: "Pô, podia ter feito outra coisa". Tomei
as decisões que sentia que eram as melhores. Tendo passado
pelo que passei nesses dois anos, se pudesse voltar atrás
teria dúvidas. Mas, se a cirurgia não fosse naquele
momento, a coisa iria se agravar.
A LESÃO O OBRIGOU
A MUDAR O JEITO DE BATER NA BOLA?
Até tentei, mas não me adaptei. Minha lesão
foi muito em função da maneira como eu jogo. E, depois
de ter sido número 1 do mundo, ganhar três Roland Garros,
ter de aprender a bater de uma maneira diferente... eu não
queria isso. Continuo jogando da mesma forma. Isso me desgasta mais.
Mas é como me sinto bem.
É VERDADE QUE
VOCÊ PRETENDE PARAR DE JOGAR NO ANO QUE VEM?
O pessoal quer pendurar minha raquete, né? Acho que ainda
tem tempo. Para disputar o circuito inteiro, não tenho a
motivação de antes. Gosto de jogar tênis. O
que acontece é que hoje jogar muito me prejudica. Foi difícil
me conscientizar disso. Agora está bem claro na minha cabeça.
Quanto menos tempo ficar na quadra, mais vou jogar feliz. A motivação
para treinar, que é a principal, eu tenho. Isso significa
que devo continuar por bastante tempo.
QUANTO TEMPO?
Pelo menos uns três anos, se melhorar meu quadro físico.
A partir dos 30, a coisa vai mudar um pouco.
O QUE VOCÊ SENTE
QUANDO JOGA?
A gente vai do céu ao inferno no mesmo jogo. Tem momentos
em que tu te sentes até envergonhado. E depois vêm
sensações muito boas também, partidas em que
tu começas a ver o jogo todo como uma coisa só. Como
na vitória contra o Roger Federer (atual número
1 do mundo) em Roland Garros. O público, eu, juiz, vento,
sol, tudo era uma coisa só. Nada interferia. Só o
que eu pensava acontecia. É muito difícil chegar a
esse estado, é como se fosse um nirvana.
VOCE JA ACHOU A MULHER
PARA SE CASAR?
Ah... Achei, mas não sei se vou casar... Estou namorando
a Letícia (Böttcher, modelo e publicitária),
com quem me sinto muito bem. Sempre busquei alguém que me
deixe ser o Gustavo, e ela me dá muita força, como
nesse momento da minha recuperação. Uma relação
de dois anos desenvolve uma confiança grande. Não
sei se ela vai chegar a ser minha esposa, a mãe dos meus
filhos, mas hoje é perfeita para estar do meu lado.
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