|
Ponto
de vista: Lya Luft
Por um pouco de limites
"Um pouco de ordem na infância
e na
adolescência em casa, na escola e
na sociedade em geral ajudaria a aliviar
a perplexidade e a angústia dessa fase
da vida"
Sempre que devo falar em educação
procuro não parecer cética, mas me lembro do que dizia
um velho e experiente professor: "Se numa turma de quarenta alunos
faço um aprender a pensar, me dou por satisfeito".
Não sou modelo de vida
escolar. Não fui boa aluna, passei a gostar de estudar quase
na faculdade, em geral fui medíocre. Das coisas boas que
me marcaram, uma foram os limites sensatos, outra, a autoridade
bondosa. Nada a ver com autoritarismo, desrespeito ou controle abusivo.
Fui uma criança rebelde,
numa época em que criança dormia cedo, nunca discutia
com os adultos, menina deixava seu quarto impecável, bordava
com mãos de fada e aprendia a ser uma moça tranqüila,
obedecendo ao futuro marido com a mesma graça com que obedecia
a pais, avós e professores.
Ilustração Atômica
Studio
 |
Eu não era nada disso: meu problema era a indisciplina. Coisas
inocentes da perspectiva atual, como rir em aula, dificuldade em
ficar quieta, achar graça onde ninguém via graça
nenhuma e me entediar mortalmente na maioria das vezes. Sonhar olhando
pela janela com vontade de estar em casa, lendo debaixo das árvores
ou aconchegada no meu quarto. Ah, aquela cama embutida em prateleiras!
Mesmo assim, havia algo de reconfortante
em existir um tipo de ordem e algumas exigências, evitando
que, montada na vassoura da fantasia e do precoce desejo de independência,
eu sumisse no ar ou nas páginas de algum livro.
O colégio era severo,
não cruel. Estudava-se muito. Aos 11 anos comecei a aprender
latim, que me ajudaria a compreender melhor meu próprio idioma,
entre outras coisas, e aos 12 decorávamos poemas em francês,
alguns dos quais até hoje recordo (mal).
Na matemática e nas ciências
exatas meu fracasso era espetacular. Meu bom professor de matemática,
que me deu intermináveis séries de aulas particulares,
lamentava-se com meu pai: "Essa menina não é burra,
mas não aprende nada, só fica me olhando com olhar
meio desamparado".
Décadas depois, interrogada
por jornalistas a respeito de meu desempenho escolar, minha mãe
respondeu com bom humor e muito realismo: "Ah, ela era uma aluna
nota vírgula".
E explicou: eu estava sempre
precisando de nota para ser aprovada em matemática e ciências
exatas e, achava ela, por compaixão os professores me davam
o décimo faltante. Eu precisava de nota 5, me davam 5 vírgula
1; precisava de 3, vinha um 3 vírgula 4. A vírgula
me salvava da reprovação (segundo minha mãe).
Repetir o ano era o horror dos
horrores. Para a meninada de hoje isso deve soar quase irreal. A
gente recebia nota, sim, não conceitos vagos. Era reprovado,
sim, com certa facilidade, o que significava um exame de segunda
época no período das esperadas férias de verão
e uma enorme possibilidade de repetir o ano o máximo
opróbrio. Hoje, é preciso esforçar-se para
conseguir uma reprovação. Repetir o ano? Quase impossível.
Muito de psicologia mal interpretada
nos mostrou pelos anos 60 que não dá para traumatizar
crianças e jovens: eles têm de aprender brincando.
Esqueceu-se que a vida não é brincadeira e que o colégio
como a família deveria nos preparar para ela.
Transformou-se a escola num reduto familiar: professoras são
tias, e muitas vezes a bagunça é generalizada, porque
na família talvez seja assim.
Um pouco de ordem na infância
e na adolescência em casa, na escola e na sociedade
em geral ajudaria a aliviar a perplexidade e a angústia
dos jovens. Respeito deveria ser algo natural e geral, começando
em casa, onde freqüentemente as crianças comandam o
espetáculo.
O exemplo vem de cima, e nisso
estamos mal. Corrupção e impunidade são o modelo
que se nos oferece publicamente. Se os pais pudessem instaurar uma
ordem em casa amorosa, mas firme , dando aos filhos
limites e sentido, respeitando o fato de eles estarem em formação,
estariam sendo melhores do que agindo de forma servil ou eternamente
condescendente.
Aliás, em casa começaria
o melhor currículo, a melhor ferramenta para a vida: respeitar,
enxergar e questionar. Nem calar a boca, como antigamente, nem gritar,
bagunçar ou ofender: dialogar, comunicar-se numa boa, com
irmãos, pais e outros. Isso estimularia a melhor arma para
enfrentar o tsunami de informações, das mais positivas
às mais loucas, que enfrentamos todos os dias: discernimento.
O resto, meus caros, pode vir
depois: com todas as teorias, nomenclaturas, "modernidades" e instrumentação.
É ornamento, é detalhe, pouco serve para quem não
aprendeu a analisar, ler, concentrar-se, argumentar e ser um cidadão
integrado e firme no caótico e admirável mundo nosso.
Lya Luft é escritora
|