Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Bruno e Francielli

Eles estavam no mesmo barco,
mas as origens são opostas e as
perspectivas de futuro, mais ainda

Num dia é Marcos Valério, no outro é Delúbio, no outro, Marcola... Vão se sucedendo os nomes que abruptamente deixam os bastidores para ocupar em cheio a cena nacional. Agora é Bruno Maranhão. Maranhão, como todo mundo a esta altura sabe, é o chefe do MLST, que, como todo mundo a esta altura sabe, é a dissidência do MST que invadiu o Congresso com ímpetos de Átila, o Huno. Poucos saberão quem é Francielli Denizia Asêncio. Mas, ao se darem conta de que é a moça que atacou com fúria um par de terminais de computador durante a alucinada jornada do MLST, muitos ligarão o nome à pessoa. Bruno Maranhão, de 66 anos, é um veterano da militância política, inclusive a militância baderneira. Francielli, de 21 anos, é uma caloura. Na última terça-feira estavam no mesmo barco. Mas entre os dois há grandes diferenças – para sorte de Maranhão e azar de Francielli.

Bruno Maranhão nasceu de família rica de Pernambuco, dona de usina de cana-de-açúcar. Em vez de ir cuidar da usina, porém, desde cedo se viu enfeitiçado pela política, ou, mais propriamente, por essa entidade religiosa a que seus crentes dão o nome de "revolução". A "revolução", como se sabe, é o momento em que o povo tomará o poder e instalará o socialismo. A partir de então reinarão a justiça e a igualdade no mundo, e o ser humano será reformado, de modo a dar lugar a um homem novo. Os revolucionários se dizem ateus, mas é preciso muita religiosidade para criar ateus como esses. Jogam com conceitos como culpa (dos agentes do capitalismo) e redenção (que proporcionarão ao mundo). Bruno Maranhão, despojando-se, como São Francisco, da fortuna familiar, cumpriu uma trajetória de engajamento que foi das Ligas Camponesas de Francisco Julião, no pré-1964, ao PT, passando pelo exílio durante o regime militar.

Francielli nasceu pobre. Na verdade isso nem precisaria ser dito, basta atentar para seu nome. Só pobre se chama Francielli, e ainda por cima Denizia, e ainda por cima Asêncio. O primeiro nome é exótico como é voga entre os pobres. Os outros dois parecem resultar de erros de ortografia. Mas, assim como Maranhão, nascido rico, optou por estilo de pobre, Francielli... Bem, Francielli, ao abaixar-se para depredar os terminais, deixou entrever uma tatuagem nas costas, na altura da cintura. Depois, ao virar-se de frente, revelou um piercing na sobrancelha. Ela nasceu pobre, mas aspira ao estilo das meninas de lares mais bem aquinhoados.

Bruno Maranhão galgou altos postos no PT. Foi presidente do partido em Pernambuco e, até os acontecimentos de terça-feira, quando os constrangidos correligionários foram forçados a destituí-lo, era membro da Executiva Nacional. Ele encarna à perfeição a ambivalência que volta e meia vem à tona entre militantes petistas. O partido está no poder. Chegou lá dentro das regras do sistema. Ele é dirigente do partido. Como tal, presume-se que deveria zelar pelo sistema. Em vez disso, trabalha para destruí-lo.

Francielli encarna outro tipo de ambivalência. Faz só três meses que deixou sua casa na zona urbana de Uberaba, onde morava com a mãe, e integrou-se ao acampamento do MLST nos arredores da cidade. Tem uma filha de 5 anos. Foi, portanto, como é comum no Brasil dos desassistidos, uma mãe adolescente. Do MLST, segundo declarou à Folha de S.Paulo, não esperava senão uma área para cultivar. O emprego na cidade estava difícil. As aspirações são limitadas, mas, vista a malhar os terminais, como que tomada pela sagrada chama da revolução, parecia uma bolchevique a avançar contra os salões acintosos do Palácio de Inverno.

Bruno Maranhão despojado como São Francisco? Engano. Ele mora num prédio de um apartamento por andar em bairro rico do Recife. Já viveu no exterior. Entre as pessoas de suas relações conta-se o próprio presidente da República, que por duas vezes o recebeu no Palácio. Sua autoconfiança e seu aprendizado nas artes da dissimulação permitiam-lhe considerar-se, na semana passada, um "prisioneiro político". Suas origens e sua história fazem prever que de uma forma ou de outra se recuperará do mau momento. Tudo tende a acabar bem quando a vida começa bem.

Já Francielli... "Não sei como explicar, foi uma coisa errada", disse ela à Folha, sobre a agressão aos terminais. Baixou nela uma corrente de fúria que veio de cima, dos chefes do movimento, e em última instância do chefe supremo, Bruno Maranhão, nela que no fundo o que quer é uma situação na vida que lhe permita portar sua tatuagem e seu piercing como as meninas de melhor sorte. Saiu do Congresso algemada e vai ser processada. A cena de que foi protagonista, vista por milhões de brasileiros, fez dela o símbolo da maior selvageria dos últimos tempos contra um prédio público no país. Não há final feliz à vista para ela, e isso deveria ir para a conta de Bruno Maranhão – mas, para ele, o que é uma Francielli? O que é uma Francielli diante do objetivo supremo, a revolução que salvará o país, o continente, a humanidade?

 
 
 
 
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