|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Bruno
e Francielli Eles estavam no
mesmo barco, mas as origens são
opostas e as perspectivas de futuro, mais ainda
Num dia é Marcos Valério, no outro é Delúbio, no outro,
Marcola... Vão se sucedendo os nomes que abruptamente deixam os bastidores
para ocupar em cheio a cena nacional. Agora é Bruno Maranhão. Maranhão,
como todo mundo a esta altura sabe, é o chefe do MLST, que, como todo mundo
a esta altura sabe, é a dissidência do MST que invadiu o Congresso
com ímpetos de Átila, o Huno. Poucos saberão quem é
Francielli Denizia Asêncio. Mas, ao se darem conta de que é a moça
que atacou com fúria um par de terminais de computador durante a alucinada
jornada do MLST, muitos ligarão o nome à pessoa. Bruno Maranhão,
de 66 anos, é um veterano da militância política, inclusive
a militância baderneira. Francielli, de 21 anos, é uma caloura. Na
última terça-feira estavam no mesmo barco. Mas entre os dois há
grandes diferenças para sorte de Maranhão e azar de Francielli.
Bruno Maranhão nasceu de família
rica de Pernambuco, dona de usina de cana-de-açúcar. Em vez de ir
cuidar da usina, porém, desde cedo se viu enfeitiçado pela política,
ou, mais propriamente, por essa entidade religiosa a que seus crentes dão
o nome de "revolução". A "revolução", como se sabe,
é o momento em que o povo tomará o poder e instalará o socialismo.
A partir de então reinarão a justiça e a igualdade no mundo,
e o ser humano será reformado, de modo a dar lugar a um homem novo. Os
revolucionários se dizem ateus, mas é preciso muita religiosidade
para criar ateus como esses. Jogam com conceitos como culpa (dos agentes do capitalismo)
e redenção (que proporcionarão ao mundo). Bruno Maranhão,
despojando-se, como São Francisco, da fortuna familiar, cumpriu uma trajetória
de engajamento que foi das Ligas Camponesas de Francisco Julião, no pré-1964,
ao PT, passando pelo exílio durante o regime militar.
Francielli nasceu pobre. Na verdade isso nem precisaria ser dito, basta atentar
para seu nome. Só pobre se chama Francielli, e ainda por cima Denizia,
e ainda por cima Asêncio. O primeiro nome é exótico como é
voga entre os pobres. Os outros dois parecem resultar de erros de ortografia.
Mas, assim como Maranhão, nascido rico, optou por estilo de pobre, Francielli...
Bem, Francielli, ao abaixar-se para depredar os terminais, deixou entrever uma
tatuagem nas costas, na altura da cintura. Depois, ao virar-se de frente, revelou
um piercing na sobrancelha. Ela nasceu pobre, mas aspira ao estilo das meninas
de lares mais bem aquinhoados. Bruno Maranhão
galgou altos postos no PT. Foi presidente do partido em Pernambuco e, até
os acontecimentos de terça-feira, quando os constrangidos correligionários
foram forçados a destituí-lo, era membro da Executiva Nacional.
Ele encarna à perfeição a ambivalência que volta e
meia vem à tona entre militantes petistas. O partido está no poder.
Chegou lá dentro das regras do sistema. Ele é dirigente do partido.
Como tal, presume-se que deveria zelar pelo sistema. Em vez disso, trabalha para
destruí-lo. Francielli encarna outro tipo
de ambivalência. Faz só três meses que deixou sua casa na zona
urbana de Uberaba, onde morava com a mãe, e integrou-se ao acampamento
do MLST nos arredores da cidade. Tem uma filha de 5 anos. Foi, portanto, como
é comum no Brasil dos desassistidos, uma mãe adolescente. Do MLST,
segundo declarou à Folha de S.Paulo, não esperava senão
uma área para cultivar. O emprego na cidade estava difícil. As aspirações
são limitadas, mas, vista a malhar os terminais, como que tomada pela sagrada
chama da revolução, parecia uma bolchevique a avançar contra
os salões acintosos do Palácio de Inverno.
Bruno Maranhão despojado como São Francisco? Engano. Ele mora num
prédio de um apartamento por andar em bairro rico do Recife. Já
viveu no exterior. Entre as pessoas de suas relações conta-se o
próprio presidente da República, que por duas vezes o recebeu no
Palácio. Sua autoconfiança e seu aprendizado nas artes da dissimulação
permitiam-lhe considerar-se, na semana passada, um "prisioneiro político".
Suas origens e sua história fazem prever que de uma forma ou de outra se
recuperará do mau momento. Tudo tende a acabar bem quando a vida começa
bem. Já Francielli... "Não sei como
explicar, foi uma coisa errada", disse ela à Folha, sobre a agressão
aos terminais. Baixou nela uma corrente de fúria que veio de cima, dos
chefes do movimento, e em última instância do chefe supremo, Bruno
Maranhão, nela que no fundo o que quer é uma situação
na vida que lhe permita portar sua tatuagem e seu piercing como as meninas de
melhor sorte. Saiu do Congresso algemada e vai ser processada. A cena de que foi
protagonista, vista por milhões de brasileiros, fez dela o símbolo
da maior selvageria dos últimos tempos contra um prédio público
no país. Não há final feliz à vista para ela, e isso
deveria ir para a conta de Bruno Maranhão mas, para ele, o que é
uma Francielli? O que é uma Francielli diante do objetivo supremo, a revolução
que salvará o país, o continente, a humanidade?
|