Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Cultura
Ministro em causa própria

A gestão de Gilberto Gil é fraca. Mas
deu um belo impulso à sua carreira


Sérgio Martins


Tiago Queiroz/AE
Gil: tentativa de emplacar o "sambinha da Copa"

Nesta segunda-feira, véspera da estréia brasileira na Copa do Mundo, Gilberto Gil mais uma vez vai se aproveitar de um momento de destaque do país no exterior para sacar seu violão. Um show dele na Alemanha vai "coroar" um evento patrocinado pelo Ministério da Cultura – que ele próprio comanda. Gil vai apresentar Balé de Berlim, samba que adoraria emplacar como o tema da Copa. "O Carnaval não mata a fome / Nem mata a sede o São João / Nem só de pão vive o homem / Por isso viva a seleção", diz a letra débil (como era de esperar de uma parceria dele com Zeca Pagodinho). Desde a ascensão de Gilberto Gil ao primeiro escalão da política tem sido assim. É impossível separar as missões oficiais do ministro daquilo que é puro marketing pessoal do cantor. Gil já cantou e dançou diante do presidente de Moçambique e engatou um batuque ao lado do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. "Gil é a Xuxa do governo Lula: é só dar uma deixa que ele põe a platéia para dançar o Ilariê", diz um empresário musical.

A chegada de Gil ao Ministério da Cultura, em 2003, reanimou uma carreira que andava estagnada. Lá se vão dez anos desde que ele lançou seu último álbum inédito, Quanta. Para se manter à tona no período, Gil gravou discos de baião e um de versões de reggae de Bob Marley. Para um artista que sempre viveu mais da imagem que das grandes vendagens, a convocação de Lula abriu uma nova janela de oportunidades. Gil ganhou visibilidade – e reverte isso em lucros. Seu cachê quase triplicou: passou de 70.000 para 200.000 reais. Ele costuma "amarrar" os compromissos oficiais no exterior com shows. Tome-se o Ano do Brasil na França, série de atividades para promover a cultura brasileira naquele país, no ano passado. Gil não só foi uma das principais atrações do evento, que custou 61 milhões de reais a seu ministério, como também emendou shows pela Europa. Na Copa do Mundo, não deverá ser diferente.

O ministério fez muito por Gil – mas a recíproca não é verdadeira. Sua gestão é pobre em resultados. Gil tomou medidas populistas, como priorizar projetos no interior do país na distribuição dos incentivos, em detrimento das grandes produções de teatro e cinema. Devotou-se ainda a empreitadas fátuas como uma campanha para transformar o samba-de-roda do Recôncavo Baiano em patrimônio da humanidade. A "promoção da cultura brasileira no exterior" mereceu sua atenção especial. Somente dois eventos, o Ano do Brasil na França e a Copa da Cultura, que se realiza agora na Alemanha, consumiram 73 milhões de reais.

Enquanto se empenha nessa política de "viajismo", Gil dá liberdade de ação ao segundo escalão de seu ministério, formado por gente do PT e do PCdoB com idéias para lá de stalinistas. Foi dali que saiu o famigerado projeto da Ancinav, a agência que regularia as atividades audiovisuais – mas que, na prática, daria ao governo controle sobre os meios de comunicação. A idéia não vingou, mas na semana passada Gil ressuscitou parte dela sob o disfarce de um pacote de incentivos para o cinema e a TV. Nas entrelinhas, escondem-se novamente mecanismos autoritários. Um dos artigos prevê que os "exploradores de atividades audiovisuais" – o que pode incluir das companhias de celulares aos canais de TV – teriam de fornecer dados estratégicos e informações de contratos ao governo. "Essa bisbilhotice é um ataque sem precedentes ao direito privado", diz o advogado e especialista no ramo Marcos Bitelli. Mesmo na área mais efetiva de sua gestão – os museus – há problemas. Gil criou uma diretoria nacional de museus, nos moldes das de países como a França. Só que a medida os colocou à mercê da sanha petista por cargos e poder. Em janeiro passado, isso provocou a demissão do crítico Paulo Herkenhoff da direção do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. "Os museus federais viraram instrumento de vassalagem ideológica e eu não compactuaria com isso", afirma ele.

A nomeação de Gil levantou problemas. Sua mulher, Flora, é empresária cultural – e o marido já reconheceu que ela dá palpites no ministério. Flora chegou a dizer que não mais pleitearia incentivos fiscais. Isso não ocorreu. Há três anos, por exemplo, obteve 600.000 reais para um projeto numa favela carioca. Outra questão foi apontada pelo próprio Gil. Antes de assumir, ele perguntou à comissão de ética do governo se poderia manter suas atividades artísticas, já que considerava "pouco" o salário de 8.000 reais. Recebeu sinal verde. Não haveria nada de errado se ele tocasse sua carreira em paralelo ao cargo. O problema é que se criou uma zona cinzenta em que ministro e cantor se misturam sem parar, e de maneira deplorável. No mês passado, na abertura da Copa da Cultura, Gil entoou o tango Cambalache: "El que no llora no mama / y el que no afana es un gil". Traduzindo: "Quem não chora não mama / E quem não afana é um otário". Ressaltou a última palavra, dando a entender que não compactua com a corrupção. Pode até ser. Mas ele achou seu jeitinho de se locupletar.

 

O QUE GILBERTO GIL FEZ PELO
MINISTÉRIO DA CULTURA...

Tentou criar a Ancinav, agência que daria ao governo um controle ditatorial sobre o cinema e a TV. Parte do projeto foi ressuscitada na semana passada, disfarçada sob um pacote de incentivos para as atividades audiovisuais

Foi um dos mentores do Ano do Brasil na França, que promoveu a cultura brasileira naquele país. Os franceses não gostaram muito da programação, que consumiu 61 milhões de reais – o que sustentaria a principal orquestra brasileira, a Osesp, por dois anos

Criou uma diretoria que centraliza as gestões dos museus. A idéia era copiar a experiência de países como a França. Na prática, porém, deixou as instituições à mercê do aparelhamento ideológico pelo governo petista

Ao distribuir incentivos fiscais, priorizou pequenos projetos pulverizados pelo país, em detrimento das grandes produções. Não conseguiu, contudo, fazer uma revisão mais ampla das leis de incentivo

Convenceu a Unesco a transformar o samba-de-roda do Recôncavo Baiano em patrimônio da humanidade

 

...E O QUE O MINISTÉRIO DA
CULTURA FEZ POR GILBERTO GIL

Nesta semana, ele aproveitará sua participação num evento oficial na Alemanha para divulgar a canção Balé de Berlim, que pretende emplacar como tema da Copa do Mundo

Mary Altaffer/AP

Ganhou uma visibilidade sem precedentes com o cargo. Já fez até batucada com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. E costuma "amarrar" suas missões com apresentações no exterior

Seu cachê quase triplicou: passou de 70 000 para 200 000 reais

Divulgação

Sua mulher, a empresária cultural Flora Gil, chegou a dizer que não mais pleitearia verbas de incentivo, cuja aprovação cabe ao Ministério da Cultura. Isso não se cumpriu. Já obteve 600 000 reais, por exemplo, para um projeto numa favela carioca

 

 
 
 
 
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