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Cultura
Ministro em causa própria
A gestão de Gilberto Gil é
fraca. Mas
deu um belo impulso à sua carreira

Sérgio Martins
Tiago Queiroz/AE
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| Gil: tentativa de emplacar o "sambinha da
Copa" |
Nesta segunda-feira, véspera
da estréia brasileira na Copa do Mundo, Gilberto Gil mais
uma vez vai se aproveitar de um momento de destaque do país
no exterior para sacar seu violão. Um show dele na Alemanha
vai "coroar" um evento patrocinado pelo Ministério da Cultura
que ele próprio comanda. Gil vai apresentar Balé
de Berlim, samba que adoraria emplacar como o tema da Copa.
"O Carnaval não mata a fome / Nem mata a sede o São
João / Nem só de pão vive o homem / Por isso
viva a seleção", diz a letra débil (como era
de esperar de uma parceria dele com Zeca Pagodinho). Desde a ascensão
de Gilberto Gil ao primeiro escalão da política tem
sido assim. É impossível separar as missões
oficiais do ministro daquilo que é puro marketing pessoal
do cantor. Gil já cantou e dançou diante do presidente
de Moçambique e engatou um batuque ao lado do secretário-geral
da ONU, Kofi Annan. "Gil é a Xuxa do governo Lula: é
só dar uma deixa que ele põe a platéia para
dançar o Ilariê", diz um empresário musical.
A chegada de Gil ao Ministério
da Cultura, em 2003, reanimou uma carreira que andava estagnada.
Lá se vão dez anos desde que ele lançou seu
último álbum inédito, Quanta. Para se
manter à tona no período, Gil gravou discos de baião
e um de versões de reggae de Bob Marley. Para um artista
que sempre viveu mais da imagem que das grandes vendagens, a convocação
de Lula abriu uma nova janela de oportunidades. Gil ganhou visibilidade
e reverte isso em lucros. Seu cachê quase triplicou:
passou de 70.000 para 200.000 reais. Ele costuma "amarrar" os compromissos
oficiais no exterior com shows. Tome-se o Ano do Brasil na França,
série de atividades para promover a cultura brasileira naquele
país, no ano passado. Gil não só foi uma das
principais atrações do evento, que custou 61 milhões
de reais a seu ministério, como também emendou shows
pela Europa. Na Copa do Mundo, não deverá ser diferente.
O ministério fez muito
por Gil mas a recíproca não é verdadeira.
Sua gestão é pobre em resultados. Gil tomou medidas
populistas, como priorizar projetos no interior do país na
distribuição dos incentivos, em detrimento das grandes
produções de teatro e cinema. Devotou-se ainda a empreitadas
fátuas como uma campanha para transformar o samba-de-roda
do Recôncavo Baiano em patrimônio da humanidade. A "promoção
da cultura brasileira no exterior" mereceu sua atenção
especial. Somente dois eventos, o Ano do Brasil na França
e a Copa da Cultura, que se realiza agora na Alemanha, consumiram
73 milhões de reais.
Enquanto se empenha nessa política
de "viajismo", Gil dá liberdade de ação ao
segundo escalão de seu ministério, formado por gente
do PT e do PCdoB com idéias para lá de stalinistas.
Foi dali que saiu o famigerado projeto da Ancinav, a agência
que regularia as atividades audiovisuais mas que, na prática,
daria ao governo controle sobre os meios de comunicação.
A idéia não vingou, mas na semana passada Gil ressuscitou
parte dela sob o disfarce de um pacote de incentivos para o cinema
e a TV. Nas entrelinhas, escondem-se novamente mecanismos autoritários.
Um dos artigos prevê que os "exploradores de atividades audiovisuais"
o que pode incluir das companhias de celulares aos canais
de TV teriam de fornecer dados estratégicos e informações
de contratos ao governo. "Essa bisbilhotice é um ataque sem
precedentes ao direito privado", diz o advogado e especialista no
ramo Marcos Bitelli. Mesmo na área mais efetiva de sua gestão
os museus há problemas. Gil criou uma diretoria
nacional de museus, nos moldes das de países como a França.
Só que a medida os colocou à mercê da sanha
petista por cargos e poder. Em janeiro passado, isso provocou a
demissão do crítico Paulo Herkenhoff da direção
do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. "Os museus
federais viraram instrumento de vassalagem ideológica e eu
não compactuaria com isso", afirma ele.
A nomeação de Gil
levantou problemas. Sua mulher, Flora, é empresária
cultural e o marido já reconheceu que ela dá
palpites no ministério. Flora chegou a dizer que não
mais pleitearia incentivos fiscais. Isso não ocorreu. Há
três anos, por exemplo, obteve 600.000 reais para um projeto
numa favela carioca. Outra questão foi apontada pelo próprio
Gil. Antes de assumir, ele perguntou à comissão de
ética do governo se poderia manter suas atividades artísticas,
já que considerava "pouco" o salário de 8.000 reais.
Recebeu sinal verde. Não haveria nada de errado se ele tocasse
sua carreira em paralelo ao cargo. O problema é que se criou
uma zona cinzenta em que ministro e cantor se misturam sem parar,
e de maneira deplorável. No mês passado, na abertura
da Copa da Cultura, Gil entoou o tango Cambalache: "El que
no llora no mama / y el que no afana es un gil". Traduzindo: "Quem
não chora não mama / E quem não afana é
um otário". Ressaltou a última palavra, dando a entender
que não compactua com a corrupção. Pode até
ser. Mas ele achou seu jeitinho de se locupletar.
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O QUE GILBERTO
GIL FEZ PELO
MINISTÉRIO DA CULTURA...
Tentou criar a Ancinav, agência que daria ao governo
um controle ditatorial sobre o cinema e a TV. Parte
do projeto foi ressuscitada na semana passada, disfarçada
sob um pacote de incentivos para as atividades audiovisuais
Foi um dos mentores do Ano do Brasil na França,
que promoveu a cultura brasileira naquele país.
Os franceses não gostaram muito da programação,
que consumiu 61 milhões de reais o que
sustentaria a principal orquestra brasileira, a Osesp,
por dois anos
Criou uma diretoria que centraliza as gestões
dos museus. A idéia era copiar a experiência
de países como a França. Na prática,
porém, deixou as instituições à
mercê do aparelhamento ideológico pelo
governo petista
Ao distribuir incentivos fiscais, priorizou pequenos
projetos pulverizados pelo país, em detrimento
das grandes produções. Não conseguiu,
contudo, fazer uma revisão mais ampla das leis
de incentivo
Convenceu a Unesco a transformar o samba-de-roda do
Recôncavo Baiano em patrimônio da humanidade
...E O QUE
O MINISTÉRIO DA
CULTURA FEZ POR GILBERTO GIL
Nesta semana, ele aproveitará sua participação
num evento oficial na Alemanha para divulgar a canção
Balé de Berlim, que pretende emplacar
como tema da Copa do Mundo
Mary Altaffer/AP
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Ganhou uma visibilidade sem precedentes
com o cargo. Já fez até batucada com o
secretário-geral da ONU, Kofi Annan. E
costuma "amarrar" suas missões com apresentações
no exterior
Seu cachê quase triplicou: passou de 70 000 para
200 000 reais
Divulgação
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Sua mulher, a empresária cultural Flora Gil,
chegou a dizer que não mais pleitearia verbas
de incentivo, cuja aprovação cabe ao Ministério
da Cultura. Isso não se cumpriu. Já obteve
600 000 reais, por exemplo, para um projeto numa favela
carioca
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