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Música
Entre Israel e a Jamaica
O novo fenômeno pop é um jovem
judeu ortodoxo que adora reggae

Sérgio Martins
Scott Gries/Getty Images
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Mario Tama/Getty Images
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| Matisyahu durante um show e no
camarim, orando: nunca no sabbath |
Se o diretor de uma gravadora
dissesse que um judeu ortodoxo que canta reggae nos moldes de Bob
Marley tomaria as paradas, possivelmente o despachariam para uma
instituição psiquiátrica. Mas é assim
que acontece. O maior fenômeno pop da atualidade chama-se
Matisyahu, tem 26 anos e é um judeu hassídico que
canta como se viesse da Jamaica mas com letras adaptadas
à sua fé. No lugar da devoção a Hailé
Selassié, o ditador etíope morto em 1975 que os jamaicanos
acreditavam ser a reencarnação de Jesus Cristo, entram
versos inspirados no Velho Testamento. Mais surpreendente ainda
é a receptividade a esse artista tão singular. Seu
primeiro álbum, Live at Stubb's, encabeçou
a parada de reggae da Billboard a bíblia da
indústria fonográfica durante oito semanas.
Youth, seu novo disco que chega nesta semana às
lojas brasileiras , já alcançou o quarto lugar
no listão americano e vendeu respeitáveis 500.000
cópias. Até Madonna pegou carona no sucesso do reggaeman,
promovendo-o a "guru".
Nascido Matthew Miller, Matisyahu
é filho de judeus não-praticantes e chegou à
idade adulta sem sequer pensar em religião. Fumava maconha,
usava dreadlocks aquelas trancinhas que enfeitam o cocuruto
dos astros do reggae e era fã do Phish, um grupo de
rock psicodélico. Sua descoberta religiosa se deu há
cerca de seis anos, quando conheceu um rabino adepto do hassidismo,
corrente do judaísmo surgida no século XVIII. "O efeito
na minha vida foi avassalador", diz. Transformado em Matisyahu
termo que se pode traduzir como "presente de Deus" , o cantor
escolheu o reggae por causa de seu conhecimento anterior do gênero
e, igualmente importante, por causa da suposta afinidade dos astros
do reggae com a fé judaica o rastafarianismo jamaicano
incorpora alguns princípios dela. Matisyahu estuda o Talmude
e respeita ao rigor da lei o dia de descanso judeu, entre o poente
de sexta-feira e o de sábado. "Durante o sabbath, não
troco nem lâmpada", declarou ao jornal inglês The
Independent. Nesse dia, ele também não faz shows.
Recentemente, Matisyahu declinou do convite para ser garoto-propaganda
de uma rede de fast-food. "Queriam que eu anunciasse hambúrgueres
kosher", diz.
O CD de estréia de Matisyahu
saiu por um pequeno selo ligado à comunidade judaica. Seu
sucesso chamou a atenção de uma grande gravadora,
que bancou a produção de Youth e relançou
o cantor com estardalhaço para além das fronteiras
da comunidade religiosa. Deu certo. A canção King
without a Crown é uma das mais executadas nas rádios
americanas, e rendeu a seu autor turnês pelos Estados Unidos
e Europa. Mas o fato é que a popularidade de Matisyahu tem
mais a ver com o inusitado do que com qualquer qualidade musical.
Quando ele canta "I Want Moshiach Now" ("Eu quero o Messias
já"), não é preciso ser judeu para querer se
ajoelhar em frente ao Muro das Lamentações.
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