Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Música
Entre Israel e a Jamaica

O novo fenômeno pop é um jovem
judeu ortodoxo que adora reggae


Sérgio Martins


Scott Gries/Getty Images
Mario Tama/Getty Images
Matisyahu durante um show e no camarim, orando: nunca no sabbath

Se o diretor de uma gravadora dissesse que um judeu ortodoxo que canta reggae nos moldes de Bob Marley tomaria as paradas, possivelmente o despachariam para uma instituição psiquiátrica. Mas é assim que acontece. O maior fenômeno pop da atualidade chama-se Matisyahu, tem 26 anos e é um judeu hassídico que canta como se viesse da Jamaica – mas com letras adaptadas à sua fé. No lugar da devoção a Hailé Selassié, o ditador etíope morto em 1975 que os jamaicanos acreditavam ser a reencarnação de Jesus Cristo, entram versos inspirados no Velho Testamento. Mais surpreendente ainda é a receptividade a esse artista tão singular. Seu primeiro álbum, Live at Stubb's, encabeçou a parada de reggae da Billboard – a bíblia da indústria fonográfica – durante oito semanas. Youth, seu novo disco – que chega nesta semana às lojas brasileiras –, já alcançou o quarto lugar no listão americano e vendeu respeitáveis 500.000 cópias. Até Madonna pegou carona no sucesso do reggaeman, promovendo-o a "guru".

Nascido Matthew Miller, Matisyahu é filho de judeus não-praticantes e chegou à idade adulta sem sequer pensar em religião. Fumava maconha, usava dreadlocks – aquelas trancinhas que enfeitam o cocuruto dos astros do reggae – e era fã do Phish, um grupo de rock psicodélico. Sua descoberta religiosa se deu há cerca de seis anos, quando conheceu um rabino adepto do hassidismo, corrente do judaísmo surgida no século XVIII. "O efeito na minha vida foi avassalador", diz. Transformado em Matisyahu – termo que se pode traduzir como "presente de Deus" –, o cantor escolheu o reggae por causa de seu conhecimento anterior do gênero e, igualmente importante, por causa da suposta afinidade dos astros do reggae com a fé judaica – o rastafarianismo jamaicano incorpora alguns princípios dela. Matisyahu estuda o Talmude e respeita ao rigor da lei o dia de descanso judeu, entre o poente de sexta-feira e o de sábado. "Durante o sabbath, não troco nem lâmpada", declarou ao jornal inglês The Independent. Nesse dia, ele também não faz shows. Recentemente, Matisyahu declinou do convite para ser garoto-propaganda de uma rede de fast-food. "Queriam que eu anunciasse hambúrgueres kosher", diz.

O CD de estréia de Matisyahu saiu por um pequeno selo ligado à comunidade judaica. Seu sucesso chamou a atenção de uma grande gravadora, que bancou a produção de Youth e relançou o cantor com estardalhaço para além das fronteiras da comunidade religiosa. Deu certo. A canção King without a Crown é uma das mais executadas nas rádios americanas, e rendeu a seu autor turnês pelos Estados Unidos e Europa. Mas o fato é que a popularidade de Matisyahu tem mais a ver com o inusitado do que com qualquer qualidade musical. Quando ele canta "I Want Moshiach Now" ("Eu quero o Messias já"), não é preciso ser judeu para querer se ajoelhar em frente ao Muro das Lamentações.

 
 
 
 
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