Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Espetáculo
Saltimbancos de luxo

Como são os bastidores dos shows
do inovador Cirque du Soleil, que
chega em breve ao Brasil


Jerônimo Teixeira, de Buenos Aires


Fotos Steban Mac Allister Stock Press
Os palhaços acrobáticos de Saltimbanco: trupe internacional e hotéis cinco-estrelas

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Outras imagens
Clipe do espetáculo
Kumbalawe, música da trilha sonora

Quando surgiu, em 1984, o Cirque du Soleil era uma trupe mambembe capitaneada por Guy Laliberté, um artista canadense que andava sobre pernas de pau e engolia fogo. Hoje, passados pouco mais de vinte anos, é uma das maiores companhias de espetáculo do mundo – e Laliberté, seu criador e proprietário, acumulou um patrimônio de 1,4 bilhão de dólares. A partir de agosto, o Cirque cumpre temporada em São Paulo e, em novembro, no Rio de Janeiro, com o espetáculo Saltimbanco. Na estrada desde 1992, esse é o mais antigo show da companhia ainda em atividade – e o primeiro que será apresentado no Brasil. VEJA esteve em Buenos Aires, onde Saltimbanco encerrou sua temporada na semana passada, para acompanhar a rotina dos artistas, técnicos e demais funcionários do circo. Como seu nome sugere, o show é todo calcado sobre o universo tradicional do circo, com palhaços que se revezam entre brincadeiras no meio do público e estonteantes números de acrobacia no picadeiro. A companhia, porém, já abandonou há muito a vida humilde e improvisada dos saltimbancos tradicionais. "No início, o Cirque tinha uma atmosfera boêmia e espontânea. Hoje, é tudo muito profissional", conta a dançarina italiana Elisabetta La Commare, que participou das primeiras apresentações da companhia, nos anos 80, e hoje trabalha em Saltimbanco.


SERVIÇO DE MANUTENÇÃO
O circo conta com um ateliê de costura (à esq.) que faz ajustes diários nas roupas dos artistas (à dir.)

A fama internacional do Cirque du Soleil foi conquistada pela renovação que ele trouxe ao gênero, com um cuidado cênico que não era costumeiro sob a lona. "Não somos mais apenas uma companhia de circo. Nosso negócio são as artes performáticas em geral – dança, música, acrobacia, cabaré", diz Lyn Heward, que por cinco anos foi presidente da divisão de conteúdo criativo do Cirque e hoje trabalha em projetos especiais da companhia (ela é também co-autora, com o jornalista John Bacon, de Cirque du Soleil – A Reinvenção do Espetáculo, livro recém-lançado no Brasil pela Campus/Elsevier). O Cirque contabiliza hoje treze espetáculos. Sete são itinerantes, como Saltimbanco. Cinco são atrações permanentes em Las Vegas (entre eles, Love, baseado nas músicas dos Beatles, que estreou no início do mês) e outro está sediado no Walt Disney Resort, em Orlando. Nos primeiros tempos, Guy Laliberté contou com subvenções do governo canadense, mas desde 1992 o Cirque du Soleil vem caminhando sobre as próprias pernas de pau, sem nenhuma ajuda estatal (no Brasil, em compensação, a Corporação Interamericana de Entretenimento, promotora local de Saltimbanco, foi autorizada a captar 9 milhões de reais em incentivos por meio da Lei Rouanet).

Saltimbanco viaja com uma equipe de quase 120 pessoas, vindas de 21 países. No palco, são 51 artistas de dezesseis nacionalidades, entre músicos, acrobatas, malabaristas, equilibristas, mímicos e palhaços. Em torno das cinco tendas do circo – a maior delas, onde acontece o espetáculo, abriga um público de 2.500 pessoas – ergue-se uma pequena vila auto-suficiente, com geradores de energia, oficinas, cozinha, salas de treinamento e fisioterapia e um ateliê de costura. Há até uma escola, para educar os filhos dos artistas. Quatro alunos estudam ali – entre eles, Maxsim Vintilov, o elástico garoto de 10 anos que se apresenta em Saltimbanco. Nascido no Canadá, Maxsim vem de uma família ucraniana com tradição circense. No número Adagio, ele divide o picadeiro com os pais, Andrey e Oxana, em deslumbrantes evoluções acrobáticas.


TALENTOS REVELADOS
As gêmeas Bazaliy no aquecimento (à esq.) e no espetáculo: vindas de uma pequena aldeia ucraniana, as duas ginastas nunca haviam tocado em um trapézio quando começaram sua carreira no circo

No Cirque du Soleil, o espírito circense tradicional se preserva no nomadismo dos artistas e profissionais. Ninguém quer saber de endereço fixo. "Sou um cigano", diz o gerente da turnê de Saltimbanco, o inglês Rob Mackenzie. "Mas um cigano de alta classe. Só durmo em hotéis cinco-estrelas." O show já passou por mais de sessenta cidades. Em cada uma delas, repete-se a mesma rotina puxada de espetáculos quase diários, com folga apenas na segunda-feira. Dois fisioterapeutas acompanham o circo para cuidar do bom preparo físico dos artistas. O pessoal do Cirque é selecionado entre ginastas e artistas circenses do mundo todo (há 31 brasileiros na companhia, mas nenhum trabalha em Saltimbanco). Todos passam por um período de treinamento em Montreal. Aprendem, por exemplo, a interagir com o público (aqueles que vêm da ginástica esportiva não costumam ter traquejo dramático) e a se maquiar (os artistas de Saltimbanco gastam de uma a duas horas por dia colorindo o rosto).

Ethan Miller/Reuters
O CRIADOR
Guy Laliberté foi engolidor de fogo e hoje é bilionário


As gêmeas trapezistas Ruslana e Taisiya Bazaliy são um bom exemplo de como o circo identifica e recruta talentos. Hoje com 19 anos, estão desde os 14 na companhia. Começaram praticando ginástica artística na pequena aldeia onde nasceram, perto de Odessa, na Ucrânia. Seu treinador mandou uma fita com apresentações das gêmeas para Montreal, e os recrutadores do Cirque constataram o potencial das meninas – que nunca haviam tocado em um trapézio. Elas passaram um ano treinando o novo número e aprendendo inglês e francês em Montreal. Com a experiência internacional da turnê de Saltimbanco, as duas irmãs já não cogitam voltar à Ucrânia – mas também não desejam passar a vida toda no circo. "Por ora está ótimo. Somos jovens e estamos conhecendo o mundo", afirma Taisiya. "Mas daqui a alguns anos queremos fazer uma universidade", diz Ruslana, completando a frase da irmã (as duas falam com a mesma sincronia atordoante que demonstram no trapézio). Como muitas garotas de sua idade, as irmãs Bazaliy adoram uma balada. Mas, com apresentações todas as noites e treinos contínuos, o pessoal do circo é bem menos festeiro do que se imagina: só sai no domingo, aproveitando a folga de segunda-feira. Taisiya, no entanto, achou outros modos de se divertir no circo mesmo. Está namorando o guitarrista da banda de Saltimbanco.

Em uma tarde de treinos em Buenos Aires, as irmãs Bazaliy erraram várias vezes o seu número no trapézio. Na mesma noite, no espetáculo, conseguiram realizá-lo à perfeição. No trapézio, na corda bamba, na gangorra russa, Saltimbanco inclui números difíceis e precisos, que nem sempre saem sem falhas. Mas a sucessão de acrobacias é assombrosa. Da música meio new age ao estranho dialeto que os personagens falam em cena – uma mistura aleatória de palavras e fonemas de idiomas como o árabe, o sueco e o alemão –, Saltimbanco traz aquela lufada de modernidade com que o Cirque refrescou os picadeiros. É um tipo de espetáculo que diverte até quem não gosta de circo.

 
 
 
 
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