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Espetáculo
Saltimbancos de luxo Como
são os bastidores dos shows do inovador Cirque du Soleil, que chega
em breve ao Brasil 
Jerônimo Teixeira, de Buenos Aires
Fotos Steban Mac Allister Stock Press
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palhaços acrobáticos de Saltimbanco: trupe internacional
e hotéis cinco-estrelas |
Quando surgiu, em 1984, o Cirque
du Soleil era uma trupe mambembe capitaneada por Guy Laliberté, um artista
canadense que andava sobre pernas de pau e engolia fogo. Hoje, passados pouco
mais de vinte anos, é uma das maiores companhias de espetáculo do
mundo e Laliberté, seu criador e proprietário, acumulou um
patrimônio de 1,4 bilhão de dólares. A partir de agosto, o
Cirque cumpre temporada em São Paulo e, em novembro, no Rio de Janeiro,
com o espetáculo Saltimbanco. Na estrada desde 1992, esse é
o mais antigo show da companhia ainda em atividade e o primeiro que será
apresentado no Brasil. VEJA esteve em Buenos Aires, onde Saltimbanco encerrou
sua temporada na semana passada, para acompanhar a rotina dos artistas, técnicos
e demais funcionários do circo. Como seu nome sugere, o show é todo
calcado sobre o universo tradicional do circo, com palhaços que se revezam
entre brincadeiras no meio do público e estonteantes números de
acrobacia no picadeiro. A companhia, porém, já abandonou há
muito a vida humilde e improvisada dos saltimbancos tradicionais. "No início,
o Cirque tinha uma atmosfera boêmia e espontânea. Hoje, é tudo
muito profissional", conta a dançarina italiana Elisabetta La Commare,
que participou das primeiras apresentações da companhia, nos anos
80, e hoje trabalha em Saltimbanco.
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SERVIÇO
DE MANUTENÇÃO O circo conta com um ateliê de costura
(à esq.) que faz ajustes diários nas roupas dos artistas (à
dir.) | A fama internacional
do Cirque du Soleil foi conquistada pela renovação que ele trouxe
ao gênero, com um cuidado cênico que não era costumeiro sob
a lona. "Não somos mais apenas uma companhia de circo. Nosso negócio
são as artes performáticas em geral dança, música,
acrobacia, cabaré", diz Lyn Heward, que por cinco anos foi presidente da
divisão de conteúdo criativo do Cirque e hoje trabalha em projetos
especiais da companhia (ela é também co-autora, com o jornalista
John Bacon, de Cirque du Soleil A Reinvenção do Espetáculo,
livro recém-lançado no Brasil pela Campus/Elsevier). O Cirque contabiliza
hoje treze espetáculos. Sete são itinerantes, como Saltimbanco.
Cinco são atrações permanentes em Las Vegas (entre eles,
Love, baseado nas músicas dos Beatles, que estreou no início
do mês) e outro está sediado no Walt Disney Resort, em Orlando. Nos
primeiros tempos, Guy Laliberté contou com subvenções do
governo canadense, mas desde 1992 o Cirque du Soleil vem caminhando sobre as próprias
pernas de pau, sem nenhuma ajuda estatal (no Brasil, em compensação,
a Corporação Interamericana de Entretenimento, promotora local de
Saltimbanco, foi autorizada a captar 9 milhões de reais em incentivos
por meio da Lei Rouanet). Saltimbanco
viaja com uma equipe de quase 120 pessoas, vindas de 21 países. No
palco, são 51 artistas de dezesseis nacionalidades, entre músicos,
acrobatas, malabaristas, equilibristas, mímicos e palhaços. Em torno
das cinco tendas do circo a maior delas, onde acontece o espetáculo,
abriga um público de 2.500 pessoas ergue-se uma pequena vila auto-suficiente,
com geradores de energia, oficinas, cozinha, salas de treinamento e fisioterapia
e um ateliê de costura. Há até uma escola, para educar os
filhos dos artistas. Quatro alunos estudam ali entre eles, Maxsim Vintilov,
o elástico garoto de 10 anos que se apresenta em Saltimbanco. Nascido
no Canadá, Maxsim vem de uma família ucraniana com tradição
circense. No número Adagio, ele divide o picadeiro com os pais,
Andrey e Oxana, em deslumbrantes evoluções acrobáticas.
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TALENTOS REVELADOS
As gêmeas Bazaliy no aquecimento (à esq.) e no espetáculo:
vindas de uma pequena aldeia ucraniana, as duas ginastas nunca haviam tocado em
um trapézio quando começaram sua carreira no circo | No
Cirque du Soleil, o espírito circense tradicional se preserva no nomadismo
dos artistas e profissionais. Ninguém quer saber de endereço fixo.
"Sou um cigano", diz o gerente da turnê de Saltimbanco, o inglês
Rob Mackenzie. "Mas um cigano de alta classe. Só durmo em hotéis
cinco-estrelas." O show já passou por mais de sessenta cidades. Em cada
uma delas, repete-se a mesma rotina puxada de espetáculos quase diários,
com folga apenas na segunda-feira. Dois fisioterapeutas acompanham o circo para
cuidar do bom preparo físico dos artistas. O pessoal do Cirque é
selecionado entre ginastas e artistas circenses do mundo todo (há 31 brasileiros
na companhia, mas nenhum trabalha em Saltimbanco). Todos passam por um
período de treinamento em Montreal. Aprendem, por exemplo, a interagir
com o público (aqueles que vêm da ginástica esportiva não
costumam ter traquejo dramático) e a se maquiar (os artistas de Saltimbanco
gastam de uma a duas horas por dia colorindo o rosto).
Ethan Miller/Reuters  |
O CRIADOR Guy
Laliberté foi engolidor de fogo e hoje é bilionário |
As gêmeas trapezistas Ruslana
e Taisiya Bazaliy são um bom exemplo de como o circo identifica e recruta
talentos. Hoje com 19 anos, estão desde os 14 na companhia. Começaram
praticando ginástica artística na pequena aldeia onde nasceram,
perto de Odessa, na Ucrânia. Seu treinador mandou uma fita com apresentações
das gêmeas para Montreal, e os recrutadores do Cirque constataram o potencial
das meninas que nunca haviam tocado em um trapézio. Elas passaram
um ano treinando o novo número e aprendendo inglês e francês
em Montreal. Com a experiência internacional da turnê de Saltimbanco,
as duas irmãs já não cogitam voltar à Ucrânia
mas também não desejam passar a vida toda no circo. "Por
ora está ótimo. Somos jovens e estamos conhecendo o mundo", afirma
Taisiya. "Mas daqui a alguns anos queremos fazer uma universidade", diz Ruslana,
completando a frase da irmã (as duas falam com a mesma sincronia atordoante
que demonstram no trapézio). Como muitas garotas de sua idade, as irmãs
Bazaliy adoram uma balada. Mas, com apresentações todas as noites
e treinos contínuos, o pessoal do circo é bem menos festeiro do
que se imagina: só sai no domingo, aproveitando a folga de segunda-feira.
Taisiya, no entanto, achou outros modos de se divertir no circo mesmo. Está
namorando o guitarrista da banda de Saltimbanco.
Em uma tarde de treinos em Buenos Aires, as irmãs Bazaliy erraram várias
vezes o seu número no trapézio. Na mesma noite, no espetáculo,
conseguiram realizá-lo à perfeição. No trapézio,
na corda bamba, na gangorra russa, Saltimbanco inclui números difíceis
e precisos, que nem sempre saem sem falhas. Mas a sucessão de acrobacias
é assombrosa. Da música meio new age ao estranho dialeto que os
personagens falam em cena uma mistura aleatória de palavras e fonemas
de idiomas como o árabe, o sueco e o alemão , Saltimbanco
traz aquela lufada de modernidade com que o Cirque refrescou os picadeiros.
É um tipo de espetáculo que diverte até quem não gosta
de circo.
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