|
|
Copa
As marcas que jogam em casa
Pioneiras
na fabricação de artigos esportivos, as alemãs Adidas
e Puma tentam usar a Copa para cutucar a liderança mundial da
Nike 
Cíntia Borsato
Montagem sobre fotos de Franck Fife/AFP, Patrick
Hertzog/AFP, Salimata/Getty Images  |
Calcula-se
que 1,2 bilhão de pessoas, ou 17% da população mundial, acompanharão
pela TV a final da Copa do Mundo no estádio olímpico de Berlim,
no dia 9 de julho. Já a audiência acumulada nos 64 jogos do torneio
será de 28 bilhões de telespectadores, segundo a empresa de pesquisa
britânica Football Economics. São números capazes de dar impulso
planetário a boas estratégias de marketing. Essa lógica vale
para todas as companhias com atuação global. Para as fabricantes
de material esportivo Puma e Adidas, no entanto, usar a Copa como alavanca publicitária
não é uma simples estratégia: é uma questão
de honra. Depois de inventarem e dominarem por décadas a moderna indústria
de artigos esportivos, as duas empresas alemãs precisam de um empurrão
de sua torcida para recuperar a hegemonia que lhes foi tomada na década
de 90 pela americana Nike. Puma e
Adidas nasceram em Herzogenaurach, pequena cidade de 23.000 habitantes localizada
na Baviera, sul da Alemanha. Na década de 20 do século passado,
Adolf Dassler, conhecido por "Adi", começou a produzir chuteiras nessa
cidade com a ajuda de familiares. Fundou junto com o irmão Rudolf ("Rudi")
a primeira empresa da família. Em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim,
os irmãos Dassler também inauguraram a idéia de patrocínio
em grandes eventos ao fornecer calçados especiais ao lendário Jesse
Owens, que ganhou quatro medalhas de ouro. Em 1948, devido a um desentendimento
até hoje nebuloso, Adi e Rudi separaram os negócios. Rudolf fundou
a Puma; Adi fundiu seu apelido à primeira sílaba do sobrenome e
criou a marca Adidas. As duas empresas passaram a funcionar na mesma rua de Herzogenaurach,
a poucos metros uma da outra. Dali em diante, viraram concorrentes ferozes em
vários esportes, mas principalmente no futebol. Na Copa de 54, na Alemanha,
a Adidas inovou ao introduzir travas de rosca às chuteiras. Na ocasião,
tirou da Puma o patrocínio oficial da seleção alemã,
que acabaria conquistando o título. O troco veio na Copa do México,
em 1970, e teve Pelé como protagonista. A Adidas tinha um acordo informal
com o camisa 10 brasileiro, quebrado por um acerto ousado entre a Puma e o craque,
fechado pouco antes da competição. Seguindo à risca o trato,
Pelé pediu ao juiz da partida contra o Peru que adiasse o início
do jogo por alguns instantes. Agachou-se, desamarrou suas chuteiras e as amarrou
novamente. A operação durou trinta segundos e foi focada pelas câmeras
de TV, que inauguravam a primeira transmissão ao vivo de uma Copa. O logo
da Puma foi projetado mundialmente, e a façanha rendeu a Pelé 100.000
dólares com um contrato de quatro anos.
Fotos divulgação  |
| Visão de jogo: campanhas da Adidas (acima),
com seleção de craques, e da Nike, com Ronaldinho, focam em crianças
|  |
No início dos anos 90, Puma
e Adidas flertaram com a falência quando demoraram para transferir a produção
para a Ásia. Os custos subiram, seus produtos caducaram. As duas empresas
só saíram da crise financeira recentemente, ao reestruturar conceitos.
A Puma criou a idéia de que o tênis pode ser moda e não precisa
ser usado apenas para o esporte. A companhia tem linhas exclusivas de produtos
desenvolvidos por designers e estilistas badalados, como Philippe Starck e Alexander
McQueen. Já a Adidas ampliou seu leque de modalidades e fez produtos diferenciados
para moda, esporte e acessórios de uso cotidiano como mochilas e óculos.
Recuperadas, Puma e Adidas agora vêem na Copa da Alemanha uma maneira de
cutucar a liderança da Nike ou pelo menos impedir que a fabricante
americana consolide ainda mais sua hegemonia. A Puma saiu na frente no número
de seleções patrocinadas: doze times, contra oito da Nike e seis
da Adidas. Das doze equipes patrocinadas pela empresa, apenas a seleção
da Itália é considerada favorita. Já a Nike tem no currículo
a seleção brasileira, a Croácia e a Holanda. E a Adidas patrocina
a Argentina e a França, além da Alemanha. A Puma diz ter feito uma
aposta estratégica em seleções menores. E contou com a sorte.
Ela patrocina todas as cinco equipes africanas que foram classificadas para a
Copa da Alemanha. Para Andrew Schmitt, presidente da empresa no Brasil, esses
times podem não ser os favoritos, mas vieram do continente que receberá
o Mundial de 2010. Para a Adidas,
que adquiriu recentemente a marca Reebok, o Mundial pode ser mais uma possibilidade
de encostar na liderança da Nike. "A Copa é uma chance única
de divulgar a marca, e futebol é tudo para a Adidas", diz o diretor-presidente
da empresa, Herbert Hainer. A multinacional alemã planeja superar a venda
de artigos para futebol em 1 bilhão de euros neste ano. A marca fornecerá
os uniformes dos juízes, bandeirinhas e gandulas. A bola oficial também
será da Adidas, como vem sendo desde a Copa de 70, no México
antes as bolas não eram patrocinadas. A empresa também investiu
pesado numa campanha publicitária que traz um personagem latino como protagonista:
o menino "Jose". O nome foi escolhido a dedo, pois não há como dissociar
o futebol da América Latina. A Nike sabe disso. Acabou de renovar por mais
doze anos seu contrato com a seleção brasileira. Charlie Denson,
co-presidente mundial da companhia americana, afirmou recentemente: "Futebol é
o esporte número 1 no mundo, e se nós quisermos nos manter como
a empresa número 1 teremos de ser a número 1 em futebol". Originária
dos Estados Unidos, a Nike só percebeu isso no começo da década
passada. A empresa não dava muita atenção ao futebol, um
esporte ainda hoje pouco popular entre os americanos. Associar sua marca à
seleção brasileira foi uma das estratégias do grupo. Em 1994,
as vendas de produtos futebolísticos da Nike giravam em torno de 40 milhões
de dólares. Doze anos depois, a companhia fatura perto de 1,5 bilhão
de dólares anuais com o esporte uma fatia importante do total de
13,7 bilhões de dólares que comercializou em 2005. Esse resultado
foi possível com muito investimento em marketing e publicidade. Só
no acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a Nike
desembolsa anualmente 12 milhões de dólares. Adidas e Nike ainda
travam uma disputa pesada pelo "passe" das maiores estrelas do futebol. A Nike
tem contrato com os astros brasileiros Ronaldo e Ronaldinho considerado
o melhor jogador do mundo. Já a Adidas conta com um time que vai de Ballack
(o craque alemão), Beckham (o melhor da Inglaterra), Zidane (França)
ao brasileiro Kaká. Fabricantes
menores também buscam seu lugar ao sol no Mundial da Alemanha e torcem
para que suas seleções façam boas campanhas. É o caso
da italiana Lotto, que veste Sérvia e Montenegro e Ucrânia, da inglesa
Umbro, patrocinadora da Inglaterra e da Suécia, e da espanhola Joma, que
veste a Costa Rica. A seleção do Equador utiliza uma marca local
desconhecida internacionalmente. Nike, Adidas e Puma esperam que uma de suas equipes
levante a taça no estádio olímpico de Berlim. Será
uma grande ironia se der zebra no Mundial paralelo das fabricantes. |