Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Copa
A bolha assassina

Numa infeliz conjunção astral
do marketing, a Nike vê seu
jogador-símbolo machucar-se
com um produto top na
véspera do evento mais
assistido do planeta


André Fontenelle, de Königstein


Albari Rosa/AE
Antonio Galdério/Folha Imagem
O calcanhar ferido de Ronaldo e a chuteira polêmica: crise de imagem

Desde que passou a patrocinar a seleção brasileira, em 1996, a Nike associou seu nome ao time mais famoso do mundo, para o bem e para o mal. A cada Copa do Mundo, parece ter de pagar o preço dessa associação. Em 1998, a derrota do Brasil na decisão contra a França deu origem a uma teoria conspiratória alimentada pela internet, envolvendo a empresa e uma fantasiosa venda do resultado da partida, e a uma comissão parlamentar de inquérito para investigar o contrato com a CBF. O tempo passou, e a conquista do penta acabou apagando o episódio. Em 2002, o estrago foi outro: em pleno segundo tempo da final entre Brasil e Alemanha, o jogador Edmílson levou cinqüenta intermináveis segundos para trocar sua camisa Nike. Diante de telespectadores dos cinco continentes, atrapalhou-se com o forro – justamente o forro para eliminação do suor que era o trunfo de marketing daquele modelo. As camisas posteriores da Nike aboliram a novidade.

Desta vez, o assunto são as bolhas. Dez dos 23 jogadores da seleção calçam Nike em campo, mas o problema foi acometer justamente um dos mais badalados, Ronaldo, e sua chuteira Mercurial Vapor III, que custa 700 reais nas lojas de material esportivo. No amistoso preparatório contra a Nova Zelândia, no domingo 4, em Genebra, o atacante saiu duas vezes de campo, durante o primeiro tempo, para adaptar uma palmilha à chuteira esquerda, que o incomodava. No intervalo, o técnico Carlos Alberto Parreira decidiu tirá-lo do jogo, por precaução. Não era um caso que ameaçasse sua participação na Copa. "Se fosse uma partida de Mundial, Ronaldo nem precisaria ter saído. Faria um curativo e pronto", explica o ex-médico da seleção Joaquim Grava, que presta consultoria a times de futebol. Bolhas são uma defesa do corpo contra uma agressão à pele provocadas por atrito ou queimadura e preenchidas por um líquido protetor, a linfa. Podem surgir no início de um período de treinamentos, quando o pé está menos adaptado à chuteira. Com pomada e curativos, desaparecem em questão de dias. Incorretamente tratadas, há o risco de infecção, mas essa é uma complicação rara.

Dois dias depois do jogo, Ronaldo já estava treinando normalmente. O ferimento na imagem da Nike, porém, vai levar mais tempo para sarar. Afinal – e é disso que se trata –, uma de suas principais estrelas se machucou não ao levar uma canelada do adversário ou ao bater o Audi Q7 zero-quilômetro, mas ao usar um produto top da empresa. Para ela, o prejuízo teria sido menor se o Fenômeno resolvesse literalmente pendurar as chuteiras ou ir jogar futebol americano. A Nike recusou-se a revelar qual o erro exato na chuteira que estava incomodando o craque, admitindo apenas que o calcanhar do calçado foi ligeiramente alargado depois do incidente. O médico da seleção, José Luiz Runco, disse que uma costura saliente causou a bolha. Entre os protagonistas desta Copa, é a segunda vez que uma chuteira Nike se torna alvo da acusação de ferir um craque. Quando o inglês Wayne Rooney fraturou o pé direito, há um mês e meio, a imprensa britânica levantou dúvidas sobre o design da chuteira Air Zoom Total 90 Supremacy, que o atacante estreava justamente naquele dia. Alguns especialistas consideram os modelos atuais leves demais e sem proteção suficiente para a planta do pé, justamente o local em que Rooney sofreu a fratura.

Os maiores jogadores internacionais costumam participar do desenvolvimento das chuteiras que calçam, um importante instrumento do marketing das empresas que competem nesse setor (veja reportagem). Em dias de jogos, dificilmente usam modelos novos em folha. Preferem as "amaciadas", ou seja, gastas e já mais adaptadas ao formato do pé. Como aquelas pré-históricas chuteiras de estimação, feitas de couro, que o craque Didi, nas Copas de 1958 e 1962, limpava pessoalmente e amarrava com um único laço. Pequenas imperfeições acontecem. Horrível é quando aparecem às vésperas do evento mais assistido do planeta.

 

 
 
 
 
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