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Copa
A bolha assassina
Numa infeliz conjunção astral
do marketing, a Nike vê seu
jogador-símbolo machucar-se
com um produto top na
véspera do evento mais
assistido do planeta

André Fontenelle, de Königstein
Albari Rosa/AE
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Antonio Galdério/Folha Imagem
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| O calcanhar ferido de Ronaldo
e a chuteira polêmica: crise de imagem |
Desde que passou a patrocinar
a seleção brasileira, em 1996, a Nike associou seu
nome ao time mais famoso do mundo, para o bem e para o mal. A cada
Copa do Mundo, parece ter de pagar o preço dessa associação.
Em 1998, a derrota do Brasil na decisão contra a França
deu origem a uma teoria conspiratória alimentada pela internet,
envolvendo a empresa e uma fantasiosa venda do resultado da partida,
e a uma comissão parlamentar de inquérito para investigar
o contrato com a CBF. O tempo passou, e a conquista do penta acabou
apagando o episódio. Em 2002, o estrago foi outro: em pleno
segundo tempo da final entre Brasil e Alemanha, o jogador Edmílson
levou cinqüenta intermináveis segundos para trocar sua
camisa Nike. Diante de telespectadores dos cinco continentes, atrapalhou-se
com o forro justamente o forro para eliminação
do suor que era o trunfo de marketing daquele modelo. As camisas
posteriores da Nike aboliram a novidade.
Desta vez, o assunto são
as bolhas. Dez dos 23 jogadores da seleção calçam
Nike em campo, mas o problema foi acometer justamente um dos mais
badalados, Ronaldo, e sua chuteira Mercurial Vapor III, que custa
700 reais nas lojas de material esportivo. No amistoso preparatório
contra a Nova Zelândia, no domingo 4, em Genebra, o atacante
saiu duas vezes de campo, durante o primeiro tempo, para adaptar
uma palmilha à chuteira esquerda, que o incomodava. No intervalo,
o técnico Carlos Alberto Parreira decidiu tirá-lo
do jogo, por precaução. Não era um caso que
ameaçasse sua participação na Copa. "Se fosse
uma partida de Mundial, Ronaldo nem precisaria ter saído.
Faria um curativo e pronto", explica o ex-médico da seleção
Joaquim Grava, que presta consultoria a times de futebol. Bolhas
são uma defesa do corpo contra uma agressão à
pele provocadas por atrito ou queimadura e preenchidas por um líquido
protetor, a linfa. Podem surgir no início de um período
de treinamentos, quando o pé está menos adaptado à
chuteira. Com pomada e curativos, desaparecem em questão
de dias. Incorretamente tratadas, há o risco de infecção,
mas essa é uma complicação rara.
Dois dias depois do jogo, Ronaldo
já estava treinando normalmente. O ferimento na imagem da
Nike, porém, vai levar mais tempo para sarar. Afinal
e é disso que se trata , uma de suas principais estrelas
se machucou não ao levar uma canelada do adversário
ou ao bater o Audi Q7 zero-quilômetro, mas ao usar um produto
top da empresa. Para ela, o prejuízo teria sido menor se
o Fenômeno resolvesse literalmente pendurar as chuteiras ou
ir jogar futebol americano. A Nike recusou-se a revelar qual o erro
exato na chuteira que estava incomodando o craque, admitindo apenas
que o calcanhar do calçado foi ligeiramente alargado depois
do incidente. O médico da seleção, José
Luiz Runco, disse que uma costura saliente causou a bolha. Entre
os protagonistas desta Copa, é a segunda vez que uma chuteira
Nike se torna alvo da acusação de ferir um craque.
Quando o inglês Wayne Rooney fraturou o pé direito,
há um mês e meio, a imprensa britânica levantou
dúvidas sobre o design da chuteira Air Zoom Total 90 Supremacy,
que o atacante estreava justamente naquele dia. Alguns especialistas
consideram os modelos atuais leves demais e sem proteção
suficiente para a planta do pé, justamente o local em que
Rooney sofreu a fratura.
Os maiores jogadores internacionais
costumam participar do desenvolvimento das chuteiras que calçam,
um importante instrumento do marketing das empresas que competem
nesse setor (veja
reportagem). Em dias de jogos, dificilmente usam
modelos novos em folha. Preferem as "amaciadas", ou seja, gastas
e já mais adaptadas ao formato do pé. Como aquelas
pré-históricas chuteiras de estimação,
feitas de couro, que o craque Didi, nas Copas de 1958 e 1962, limpava
pessoalmente e amarrava com um único laço. Pequenas
imperfeições acontecem. Horrível é quando
aparecem às vésperas do evento mais assistido do planeta.
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