Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Copa
O time de 1 bilhão de
reais entra em campo

Esse é o preço para quem
quiser reunir os craques da
seleção. Parreira os tem de
graça – mas sabe que precisa
voltar com o hexa


Carlos Maranhão e André Fontenelle, da Alemanha


Alaor Filho/AE
Os jogadores da seleção comemoram mais um gol: o favoritismo pode atrapalhar


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Quanto valem os 23 convocados

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Especial: Copa 2006

Quando deixa o hotel em Königstein, perto de Frankfurt, na Alemanha, o ônibus verde-amarelo placa WM 2006 (de Weltmeisterschaft, "campeonato mundial", em alemão) transporta um patrimônio de mais de 1 bilhão de reais. Eis aí quanto teria de desembolsar um magnata interessado em reunir num só time todos os craques da seleção brasileira. Dependendo de como eles se saírem a partir desta terça-feira 13, dia da estréia na Copa do Mundo contra a Croácia – em Berlim, o mesmo palco da sonhada decisão –, esse valor pode ser ainda maior dentro de algumas semanas. Ou sofrer um abatimento.

Hoje, o time titular do Brasil vale 856 milhões de reais. Somados os reservas, o total chega a 1,24 bilhão de reais (veja quadro). A valiosa carga do ônibus da seleção por enquanto é escoltada por um esquema de segurança surpreendentemente discreto. Em torno do hotel não há a vigilância quase paranóica que cercou a Vila Olímpica dos atletas nos Jogos de Atenas, em 2004, ou as concentrações da Coréia do Sul e do Japão, em 2002. Até aqui, a maior ameaça à integridade física dos jogadores têm sido mesmo os fãs afoitos que invadem os campos de treino para abraçar seus ídolos. Mesmo na edição anterior da Copa na Alemanha, em 1974, o policiamento era mais ostensivo. Havia, porém, um bom motivo: o atentado terrorista que matara onze atletas israelenses dois anos antes nas Olimpíadas de Munique ainda estava fresco na memória.

Eduardo Nicolau/AE
O ônibus verde-e-amarelo chega ao estádio para o treino: carga bilionária


A estimativa bilionária da seleção atual foi calculada com base em uma consulta de VEJA a cinco dos principais empresários de jogadores do futebol brasileiro, que fizeram suas avaliações sob a condição de anonimato. Determinar o valor de um atleta é uma ciência inexata. "Jogador de futebol é como um quadro, não tem preço fixo", diz o empresário Giuliano Bertolucci. Não há uma tabela de preços, e as negociações se dão caso a caso. Ainda assim, é possível chegar a um valor razoavelmente preciso, considerando fatores como a idade do jogador, a posição em que atua (zagueiros e goleiros têm cotação mais baixa), o histórico de lesões e o tempo que lhe resta de contrato – sem contar, claro, a qualidade de seu futebol.

Isso explica, por exemplo, por que o superastro Ronaldinho Gaúcho, a mais preciosa estrela em atividade no planeta, está avaliado em 290 milhões de reais. É jovem (26 anos), está no auge da carreira (foi eleito o melhor jogador do mundo nos últimos dois anos), marca gols, dá espetáculo, construiu uma excelente imagem pessoal e tem a proteção de um contrato até 2010 com o Barcelona, da Espanha. O clube que quiser romper esse compromisso precisará, portanto, pagar uma soma altíssima. No outro extremo, o lateral-direito Cafu, apesar dos 138 jogos pela seleção e das três finais de Copa do Mundo, encontra-se em fim de carreira, aos 36 anos, o que reduz muito seu valor de mercado. Pelo mesmo motivo, com toda a sua fama, Ronaldo Fenômeno vale, aos 29 anos, bem menos do que na Copa passada, quando foi vendido pelo Internazionale, da Itália, ao Real Madrid, da Espanha, por 130 milhões de reais, em valores atualizados. Hoje, teoricamente, seria possível tirar Ronaldo de lá por pouco mais da metade disso.

Tais avaliações serão naturalmente afetadas pelo que os jogadores vierem a fazer agora na Alemanha. Como a Copa sempre é disputada no intervalo dos campeonatos da Europa, eles costumam tratar de transferências em plena competição. Para evitar confusão, os que estão em negociações têm evitado falar do futuro. O lateral-esquerdo Roberto Carlos, colega de Ronaldo no Real Madrid, reconheceu que anda em conversas com o Chelsea, da Inglaterra, mas decidiu não dar mais declarações durante a Copa. "Depois as pessoas começam a criar polêmica", acredita ele. "Agora é o momento de só pensar na seleção. Quem está cuidando disso é meu empresário, Jorge Mendes." Kaká desmentiu uma suposta oferta de 200 milhões de reais para defender o Real Madrid depois da Copa. Comenta-se que Cafu tem proposta de um time do Catar, pequeno país do Golfo Pérsico. Em Copas passadas, tratativas semelhantes criaram saias-justas durante os treinamentos da seleção, com um entra-e-sai de empresários no hotel que perturbava a concentração do elenco. Na Alemanha, o técnico Carlos Alberto Parreira decidiu adotar um meio-termo. "A gente não tem aberto o hotel para ninguém de fora, mas você não pode impedir que alguém faça contato nas horas vagas", afirma. "O que não pode é o nosso trabalho ser afetado."


Wander Roberto/Gazeta Press/AE
Kaká marca contra a Nova Zelândia: doze segundos de uma área à outra

Até agora, pelo menos, Parreira tem conseguido. Na comparação com outras Copas, esta seleção vem sendo uma das mais imunes a polêmicas. Mas esse clima foi quebrado de forma constrangedora com uma observação infeliz do presidente Lula na videoconferência com a delegação, na quinta-feira passada. "Eu sei que ele está magro", começou Lula, referindo-se a Ronaldo. "Mas vira e mexe a gente lê na imprensa brasileira que ele está gordo, está gordo, está gordo, está gordo. Ele está gordo ou não está gordo?", perguntou Lula ao treinador. "Ele está muito forte, presidente", respondeu um constrangido Parreira. "O biotipo dele não é mais fininho." No dia seguinte, Ronaldo, ausente da videoconferência em razão de uma febre, chutou de bico: "Assim como ele falou que eu estou gordo, todo mundo diz que ele bebe para caramba. Tanto é mentira que estou gordo quanto deve ser mentira que ele bebe para caramba".

Nos amistosos, embora com adversários propositadamente fracos, as atuações foram convincentes. Contra a Nova Zelândia, Kaká fez um gol ao dar uma arrancada impressionante, de apenas doze segundos, entre a área brasileira e a do goleiro adversário. O ambiente parece ainda mais tranqüilo desde que a seleção se instalou na pequena cidade turística de Königstein. Ao contrário do que aconteceu em Weggis, na Suíça, os treinos já não são abertos ao público, salvo na sessão da quinta-feira passada, por determinação da Fifa. Embora faça questão de dizer que o oba-oba da torcida na primeira escala não chegou a atrapalhar, Parreira prefere o relativo silêncio do novo refúgio. "As condições estão excelentes", explica. "Não que não tivessem sido em Weggis. Mas aqui, sem a presença do público, é melhor para a gente ficar bem focado."

Antonio Scorza/AFP
Mil jornalistas em um único treino: a maior cobertura da mídia na Copa


Para manter o foco, a seleção terá de ignorar a enorme atenção que sua presença desperta na Alemanha, como aliás em qualquer lugar a que vá. Cerca de 1.000 jornalistas – há 15.000 credenciados na Copa, incluindo técnicos de TV – assistiram ao primeiro treino do Brasil em Königstein. Foi um público de mídia maior que o de qualquer outra seleção. Cada malabarismo de Ronaldinho Gaúcho ou cada saída de Ronaldo na folga é assunto para os tablóides alemães. Os holofotes sobre o Brasil acabam tirando a pressão dos ombros de outras seleções. A Argentina, que em 2002 foi prejudicada por um certo clima de pintou-o-campeão, tem apreciado o relativo desinteresse com que o time deste ano foi recebido. "O único favorito para ganhar o Mundial é o Brasil", gosta de dizer o técnico José Pekerman.

Na verdade, entre os 32 participantes, o favoritismo se concentra em seis das sete únicas equipes que conquistaram as dezessete Copas disputadas (uma delas, a do Uruguai, que há muito tempo deixou de ser uma força de primeiro nível, não se classificou). São elas, depois do Brasil, a Alemanha (sobretudo por jogar em casa), a Argentina (pela alta qualidade de seus talentos individuais, como Lionel Messi, de apenas 18 anos, companheiro de Ronaldinho Gaúcho no Barcelona), a Inglaterra (que depende da recuperação do astro Wayne Rooney, ainda mal refeito de uma fratura no pé direito), a Itália (embora abalada pelo escândalo da máfia do apito local, que teria manipulado resultados do campeonato nacional) e, correndo por fora, a França (se superar a idade avançada de seus bleus e a crise de relacionamento entre alguns deles, o treinador e a imprensa). Pode-se acrescentar à lista a instável mas envolvente Holanda, talvez a seleção mais forte que nunca venceu uma Copa do Mundo. Outros três times respeitáveis – Portugal, do brasileiro Luiz Felipe Scolari, a República Checa, segunda colocada no controverso ranking da Fifa, e a Espanha, eterna azarada em Mundiais – têm contra si um problema: a falta de experiência em finais. Apenas os checos atingiram uma decisão de Copa – e isso foi nos distantes anos de 1934 e 1962, quando formavam com os eslovacos a extinta Checoslováquia.


Stuart Franklin/Getty Images
Treino para 20 000 torcedores na Alemanha: sessão aberta ao público é exigência da Fifa para todas as seleções

Em Copa do Mundo, a tradição tem um peso provado pela história. Há dez anos, depois dos bons desempenhos de Camarões e Nigéria na Copa e nas Olimpíadas, técnicos como Zagallo vaticinavam que, no primeiro ou segundo Mundial do século XXI, um selecionado africano evoluiria a ponto de disputar uma finalíssima. Isso não aconteceu – o máximo que o continente alcançou foram as quartas-de-final, com Camarões em 1990 e Senegal em 2002 –, e é pouco provável que aconteça na Alemanha. Dos cinco classificados, por uma série de resultados surpreendentes nos grupos eliminatórios, quatro são estreantes: Angola, Costa do Marfim, Gana e Togo. O quinto, Tunísia, tem um retrospecto magro em Mundiais.


Manu Fernandez/AP, Adrian Dennis/AFP, Jose Manuel Ribeiro/Reuters
Messi, Rooney e Scolari: candidatos ao título com times fortes

A numerosa presença africana deve-se mais à sua força política (afinal, reúne 53 dos 207 votos na eleição para a presidência da Fifa) do que futebolística. Pela mesma razão, a Concacaf, a confederação da América do Norte, América Central e Caribe, tem quatro representantes, o mesmo número que a Ásia. Com a classificação da Austrália, o segundo adversário do Brasil, ficam reunidos os cinco continentes, o que só aconteceu em 1982, na Espanha (naquela ocasião, a Nova Zelândia representou a Oceania). Mas, como vem ocorrendo desde 1930, tão certo como que a próxima Copa do Mundo se realizará daqui a quatro anos na África do Sul, tudo indica que a taça será erguida no dia 9 de julho, em Berlim, por um sul-americano ou um europeu.

 

O QUE OS CRAQUES VÃO CALÇAR

As bolhas no pé esquerdo de Ronaldo, que o tiraram de campo no amistoso preparatório contra a Nova Zelândia, chamaram atenção para o instrumento de trabalho do jogador de futebol, a chuteira. Os pés das estrelas da Copa são as vitrines dos maiores fabricantes. No passado, a Adidas foi a primeira a perceber a importância do torneio para as vendas. Durante os anos 60, distribuía pares gratuitamente aos jogadores em troca da exposição em campo. Hoje é preciso pagar-lhes muito dinheiro para que pisem no gramado com uma determinada marca, e a empresa alemã enfrenta a concorrência da Nike, da Puma e da Lotto, entre outras. Há uma grande competição na seleção brasileira entre a Nike (Adriano, Cicinho, Emerson, Gilberto Silva, Juan, Luisão, Roberto Carlos, Robinho, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho) e a Adidas (Juninho Pernambucano, Kaká, Lúcio e Zé Roberto). Na estréia contra a Croácia, os craques do Brasil exibirão alguns dos novos modelos. Eles impressionam pelo preço, pelo design e pelas novas tecnologias, que os tornam mais leves – pouco mais de 200 gramas, no caso de Ronaldo –, confortáveis e precisos nos passes e chutes.

Cada atleta costuma receber de três a cinco pares para a Copa. Nem sempre atletas patrocinados pela mesma empresa usam chuteiras do mesmo modelo. Na terça-feira, por exemplo, Zé Roberto calçará a recém-lançada +F50 Tunit, enquanto Kaká terá nos pés a +Predator Absolute, ambas da Adidas. O mesmo acontece com Ronaldo e Ronaldinho, patrocinados pela Nike.


Fotos divulgação
ulgação
RONALDO
Nike Mercurial Vapor III
700 reais
Fabricada artesanalmente na Itália, tem um encaixe especial para o calcanhar, que firma melhor o pé nas arrancadas
RONALDINHO GAÚCHO
Nike Tiempo Legend
600 reais
A base da chuteira é de fibra de carbono, o que a torna mais leve. Um dos pares do jogador tem detalhes de ouro 24 quilates


CAFU
Lotto Zhero Gravity
1 380 reais
Adere ao pé sem deixar espaço para o ar. Não tem cadarço, o que melhora o controle da bola
KAKÁ
+Predator Absolute
600 reais
Segundo o fabricante, o design reposiciona o centro de gravidade na frente da chuteira, aumentando a potência dos chutes. Um dos pares de Kaká tem inscrita a frase "I belong to Jesus"

 

Com reportagem de Letícia Sorg

 
 
 
 
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