Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Economia e Negócios
Vai arremeter?

O futuro da Varig poderá ser decidido nesta
semana, sem que o governo pague a conta


Ronaldo França

Gustavo Miranda/Ag. O Globo

O Brasil que pode dar certo mostrou sua face na semana passada. Apesar de toda a comoção que cercou o leilão de venda da Varig, o governo manteve prudente distância da confusão. Durante o pregão, somente um grupo de funcionários se habilitou a comprar a companhia – e, ainda assim, por apenas metade do lance mínimo. Há dúvidas sobre de onde viria o dinheiro para pagar a primeira parte dos 450 milhões de dólares oferecidos. Os funcionários não revelaram quem seriam seus financiadores e havia desconfiança se estes de fato existiriam. Coube então ao juiz Luiz Roberto Ayoub, da 8ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, julgar se a proposta era viável. Reside aí o maior ganho para o país, independentemente de qual for o seu julgamento, adiado para esta semana. O destino da maior empresa aérea brasileira está entregue à Lei de Recuperação Judicial, o mecanismo institucional adequado. Longe, portanto, do discurso nacionalista que durante muito tempo premiou a incompetência local com favores desmedidos.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) avisou que, caso venha a financiar parte da aquisição, não abrirá mão de suas normas. Não se poderá, como aconteceu no passado, lançar mão do dinheiro público para fazer mais largo o sorriso privado. É um avanço e tanto. Durante muito tempo a empresa trocou favores com o governo e tinha uma flagrante sensação de que, mesmo ineficiente, jamais ficaria ao relento. A crise no setor aéreo, agravada com o baque econômico provocado pelo atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, só tornou mais difícil um ambiente já há muito prejudicado. Os sucessivos planos econômicos causaram prejuízos a todo o setor, devido principalmente ao congelamento de tarifas, que ainda está sendo discutido na Justiça. Mas uma boa parte dos problemas da Varig se deve à forma como a própria empresa vem sendo gerida, com atávica resistência a adotar práticas empresariais mais saudáveis. Para continuar operando, a companhia precisa saldar imediatamente dívidas de 110 milhões de dólares. Terá ainda pela frente outros 8 bilhões de dólares a quitar com seus credores. Existem mais dúvidas do que certezas sobre as chances de sucesso do empreendimento, caso a Justiça referende o resultado do leilão. Uma das principais é se o grupo de funcionários que pretende comprar a Varig será capaz de modernizar uma estrutura que seus representantes, no comando da empresa, mantiveram arcaica. Nada disso significa que a operação esteja condenada a inevitável fracasso. Dividir o risco da salvação com todos os brasileiros é que seria um fracasso.

 

A última chance

Com a falência batendo à porta da Varig, seus funcionários tentam a última cartada para manter a companhia no ar. Os números mostram a dificuldade da tarefa

A empresa precisa, imediatamente, de 110 milhões de dólares para continuar operando

As dívidas somam 8 bilhões de reais

A oferta no leilão foi de 450 milhões de dólares. O lance mínimo estipulado era de 860 milhões de dólares

Sua participação no mercado doméstico reduziu-se de 38% para 16,5% nos últimos três anos

A participação nas linhas internacionais, que já foi de 100%, hoje é de 66%

Tem 60 aeronaves, 14 delas em manutenção. Tinha 82 em 2002

 
 
 
 
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