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Economia e Negócios
Arcaico, ineficiente e caro
Crise no maior terminal exportador
de produtos siderúrgicos expõe o
incrível atraso dos portos do Brasil

Ronaldo Soares
André Valentin
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| Praia Mole: prejuízo de 22 milhões de dólares
em 2005 |
Responsável por mais da metade das exportações
de produtos siderúrgicos do país, o Terminal de Praia
Mole, no Espírito Santo, tem um horizonte invejável
no comércio exterior. O consórcio que o administra
prevê aumento no volume de exportações neste
ano (dos atuais 6,5 milhões de toneladas para 7,1 milhões)
e um salto para o patamar de 9,1 milhões de toneladas já
a partir de 2007. Seria motivo mais do que suficiente para comemorar.
Mas não é. Em Praia Mole, nos últimos dois
anos, a euforia deu lugar à apreensão. Neste período,
três gigantes da siderurgia do país CST, Usiminas
e Gerdau Açominas viram-se crescentemente reféns
dos sindicatos que controlam a mão-de-obra do Porto de Vitória
e vêm criando dificuldades para atender à demanda.
Em 2004, foram executados 83% dos serviços solicitados, e
no último trimestre do ano passado esse índice havia
despencado para 60%. Os prejuízos em 2005 chegaram a 22 milhões
de dólares, relativos a pagamento de sobreestadia de navios,
custos adicionais para embarcar em outros terminais e renegociação
de preços com clientes devido à perda do prazo de
entrega. As empresas que integram o consórcio decidiram recorrer
à Justiça para garantir o atendimento total de sua
demanda.
O
impasse trabalhista em Praia Mole não é um caso isolado,
e sim a ponta de um iceberg que emperra a modernização
dos portos brasileiros, formado por resquícios de monopólio
sindical na gestão de mão-de-obra e interferência
político-partidária na administração
portuária. O mais inusitado, no caso, é que há
mão-de-obra mais do que suficiente para realizar o serviço.
No terminal capixaba, cada terno de estiva (como é chamada
a equipe que trabalha na carga e descarga dos navios) é composto
de catorze portuários. Estudo feito por consultoria internacional
apontou que ali bastariam de cinco a sete homens por equipe, o que
no mínimo dobraria a capacidade de atendimento no terminal.
A situação de Praia Mole é a mesma em todo
o Brasil. Há mão-de-obra portuária em excesso,
e uma simples revisão na composição das equipes
atenderia a toda a demanda. Isso não é feito porque
a Lei de Modernização dos Portos, de 1993, que até
promoveu o enxugamento do quadro de portuários (passaram
de 60.000 para 34.000), previa outra mudança que ficou apenas
no papel: transferir dos sindicatos para os Ogmos (órgãos
gestores de mão-de-obra, com representantes de trabalhadores,
empresas e do gestor do porto) a tarefa de alocação
de trabalhadores para movimentar cargas. A idéia, correta,
era compensar a forte sazonalidade típica do trabalho nos
portos por intermédio de um órgão que distribuísse
a mão-de-obra de acordo com a necessidade das empresas. Na
prática, o que se vê é que a forte influência
dos sindicatos apenas mudou de endereço. Como resultado,
os portos brasileiros ainda têm contingente de mão-de-obra
bem acima da média internacional e resultados pífios
(veja
quadros).
Outro avanço trazido pela
nova legislação que acabou não funcionando
porque a lei não foi totalmente implementada diz respeito
à privatização dos terminais. A medida melhorou
muito a produtividade. Para se ter uma idéia, em 1993 os
terminais movimentaram 346 milhões de toneladas. No ano passado,
o volume havia praticamente dobrado. A operação portuária
passou de dez ou onze contêineres por hora para 36. Os custos
caíram gastavam-se de 400 a 600 dólares por
contêiner, e hoje a média é de 150 a 200 dólares.
Mas foi um equívoco transferir os terminais à iniciativa
privada e deixar a gestão dos portos em poder do Estado.
Foi o equivalente a colocar uma Ferrari nas mãos de um silvícola.
Os terminais que se modernizaram tornaram-se ilhas de eficiência
cercadas por um atoleiro de burocracia e caos administrativo estatal.
O contraste fica evidente nas longas filas na entrada de terminais,
tanto de caminhões como as do Porto de Paranaguá
em época de escoamento da safra de soja quanto de
navios, que, por falta de dragagem nos canais de acesso aos portos,
têm de esperar a maré subir para poder atracar.
Se forem levados em conta os
outros gargalos que atravancam o comércio exterior, como
os problemas de infra-estrutura e logística, o cenário
é ainda mais desolador. O Brasil gasta hoje o equivalente
a quase 13% do PIB com transporte, armazenagem e estoque de produtos
nos Estados Unidos, a proporção é bem
menor (8,2%). Estimam-se em 10 bilhões de dólares
anuais as perdas das companhias brasileiras que atuam no comércio
exterior com gargalos de infra-estrutura e logística no percurso
feito pelas mercadorias das áreas de produção
até os navios, o que reduz exponencialmente seus ganhos de
produtividade. "Com tantos custos logísticos adicionais,
só no ano passado mais de 200 empresas brasileiras saíram
do comércio exterior", diz Paulo Fernando Fleury, diretor
do Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Com rodovias esburacadas, ferrovias malconservadas
e portos burocráticos e ineficientes pelo caminho, nossas
exportações correm o risco de ficar a ver navios.
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