Edição 1960 . 14 de junho de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja.com
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
O beijo da morte de Chávez

A eleição de Alan García, no Peru,
mostra que o apoio do presidente
da Venezuela nem sempre ajuda
e pode até atrapalhar um candidato


Diogo Schelp

 
Rodrigo Buendia/AFP
García: ele se elegeu com a promessa de um governo bem diferente do de Chávez

O psiquiatra venezuelano Edmundo Chirinos analisou da seguinte maneira a personalidade de seu amigo Hugo Chávez, presidente da Venezuela: "Chávez prefere abraçar sonhos que pareçam impossíveis a se confrontar com a dura realidade da vida". Em política externa, a ambição de Chávez é colocar clones no maior número possível de países latino-americanos. A dura realidade é que o presidente venezuelano se tornou, em alguns casos, um apoio inconveniente. Na Bolívia, o dinheiro e a torcida efusiva de Chávez ajudaram a eleger Evo Morales. Em alguns lugares, ao contrário, a ligação com o venezuelano tem feito mais mal do que bem a seus amigos. Isso se tornou evidente na semana passada, com a eleição em segundo turno de Alan García no Peru. Os peruanos não votaram em García por convicção de estar escolhendo um bom governante – uniram-se em torno de seu nome para escapar ao populista Ollanta Humala, o candidato de Chávez. O empenho era de tal ordem que o coronel ameaçou romper relações diplomáticas caso Humala perdesse.

Alan García admite que deve sua vitória à oposição que lhe fez o venezuelano. Como presidente, entre 1985 e 1990, ele foi um desastre. A bordo de uma plataforma populista, García nacionalizou os bancos, deu calote na dívida externa, empurrou a economia para a hiperinflação e perdeu o controle do interior para os ensandecidos guerrilheiros do Sendero Luminoso. Tão fartos estavam os peruanos do discurso populista de esquerda que elegeram Alberto Fujimori, um empresário que prometia fazer tudo ao contrário e acabou fugindo do país para não ser preso por corrupção. Durante a campanha eleitoral, García garantiu governar desta vez com responsabilidade fiscal e sem medidas populistas. O que disse, sobretudo, foi que não seria um novo Chávez.

Uma pesquisa de opinião divulgada um mês antes da votação mostrou que 61% dos peruanos têm uma imagem negativa de Chávez. "O país deu uma mensagem de soberania e independência nacional e derrotou a tentativa do senhor Chávez de nos incorporar à sua estratégia expansionista", afirmou o vitorioso García. Foi a segunda derrota de Chávez em poucas semanas. A primeira foi a reeleição de Álvaro Uribe, na Colômbia. Nesse caso, os eleitores endossaram uma política antichavista por excelência: o primeiro mandato de Uribe foi marcado pela aproximação com os Estados Unidos, pela atração de investimentos externos e por atritos diretos com o vizinho venezuelano.

A maldição eleitoral de Chávez agora ameaça Andrés Manuel López Obrador, no México. Obrador, político com vocação populista, liderou durante seis meses as pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais que acontecem em 2 de julho. Nesse período, teve a sorte de Chávez ter se mantido relativamente alheio à disputa mexicana. Em abril, a campanha do adversário, Felipe Calderón, colocou um anúncio na televisão que mostrava duas imagens parecidas: Obrador e Chávez surgem, em momentos diferentes, mandando o presidente mexicano Vicente Fox calar a boca. A semelhança entre os dois políticos foi o suficiente para assustar os mexicanos. Obrador desabou nas pesquisas e empatou com Calderón.

Na Nicarágua, o apoio de Chávez ao sandinista Daniel Ortega, o preferido nas pesquisas para as eleições presidenciais de 5 de novembro, inclui a entrega de combustível venezuelano, a preços camaradas, para as prefeituras dominadas pelos sandinistas. Os adversários de Ortega consideram isso um financiamento disfarçado da campanha eleitoral – o que é a pura verdade. Trata-se de estratégia recorrente de Chávez. Desde 1999, quando assumiu o poder, ele já gastou 25 bilhões de dólares provenientes da renda do petróleo (a Venezuela é o quinto maior exportador mundial do produto) para comprar influência em países vizinhos. Um dos perigos da petrodiplomacia de Chávez é não reconhecer derrotas eleitorais. Onde o presidente venezuelano não consegue influir nas decisões governamentais – como vem fazendo na Bolívia, inspirando mudanças na Constituição e definindo a política de expropriação do gás natural –, ele investe numa diplomacia paralela, financiando desordeiros e golpistas. Antes de ser eleito presidente da Bolívia, Evo Morales, com apoio financeiro de Chávez, liderou protestos que derrubaram dois presidentes. O governo do Equador já acusou Chávez de incentivar, por baixo dos panos, manifestações violentas contra o acordo de livre-comércio que o país negociava com os Estados Unidos. Esses antecedentes representam uma má notícia para Alan García: é bem provável que o presidente venezuelano não desista de influir na política interna do Peru. Por bom motivo: o partido do pupilo Humala elegeu para o Congresso nove deputados a mais que o Apra de García.

 

UM APOIO QUE ATRAPALHA

Tudo ia bem para Humala até Chávez trocar ofensas com García, do Peru. A associação com Chávez também é ruim para as campanhas de Ortega, da Nicarágua, e Obrador, do México.

PERU
OLLANTA HUMALA

NICARÁGUA
DANIEL ORTEGA

MÉXICO
ANDRÉS OBRADOR

 
 
 
 
topovoltar