Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Internacional
O fim do açougueiro do Iraque

O futuro da guerra no Iraque depois
da morte do terrorista Abu al-Zarqawi


José Eduardo Barella

 

Khalid Mohammed/AP
Troca de guarda: Zarqawi morto e, à esquerda, como aparece em imagem de propaganda

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Em Profundidade: Terror Internacional

Na sina ingrata da guerra no Iraque, o governo e o Exército americano merecem aplausos pelas bombas que mataram Abu Musab al-Zarqawi. Guerrilheiro e líder terrorista, ele foi o responsável por alguns dos mais terríveis atentados desse conflito brutal. Foi o mentor do caminhão-bomba que pôs abaixo a sede das Nações Unidas em Bagdá e matou o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, representante da organização no Iraque. Decapitou pessoalmente o refém americano Nicholas Berg e distribuiu as imagens do crime pela internet. Numa tentativa de expandir a guerra aos países vizinhos, orquestrou os atentados em três hotéis na Jordânia, incluindo aquele que trucidou os convidados numa festa de casamento. Maior advogado da violência extrema contra civis, hoje uma peculiaridade do conflito iraquiano, promoveu a matança indiscriminada de xiitas, ramo do islamismo que considerava apóstata e odiava mais que aos americanos. Em adição a tantas atrocidades, Zarqawi representava a Al Qaeda no Iraque. Osama bin Laden o chamou de "o príncipe". Não há números precisos de quantos milhares de iraquianos indefesos, surpreendidos em mercados e mesquitas, foram mortos pela Al Qaeda na Mesopotâmia. Mas se estima que Zarqawi tenha encarregado da matança pelo menos uma centena de homens-bomba.

Ao matarem Zarqawi, os americanos e seus aliados iraquianos eliminaram o homem que dava rosto ao terrorismo no Iraque. Os sunitas que combatem a ocupação americana e o governo do Iraque perderam sua figura mais visível, um líder com capacidade de atrair doações e voluntários no estrangeiro. O impacto a longo prazo, por outro lado, não é tão promissor. A insurreição no Iraque sustenta-se numa variedade de grupos e milícias, algumas vezes organizados em torno de um clã ou de um lugarejo, e, dessa forma, pode abrir mão de um líder carismático. A Al Qaeda na Mesopotâmia é formada por fanáticos recrutados em países vizinhos e tem como principal objetivo a guerra santa para o estabelecimento de um Estado islâmico na região. É um apelo que diz pouco para a maioria dos sunitas. Esses têm motivos mais pragmáticos pelos quais lutar: nacionalismo, autodefesa contra o governo dominado pelos xiitas ou recuperação dos privilégios que tinham no regime de Saddam Hussein. "A insurgência deve ficar mais dispersa e, paradoxalmente, ainda mais violenta porque a morte de Zarqawi abriu um vácuo de liderança que deve ser disputado por esses grupos", disse a VEJA o escocês Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo do Centro de Estudos de Ameaças Assimétricas de Estocolmo, na Suécia.

 

Samir Mezban/AP

Evan Schneider/AP
Sede da ONU em Bagdá, destruída pelo atentado que matou Vieira de Mello (ao lado)

Muitos sunitas iraquianos, inclusive aqueles mais furiosos com os Estados Unidos, não reconheciam Zarqawi como líder. Primeiro, porque ele era jordaniano, um estrangeiro. Segundo, porque lhe faltavam as credenciais necessárias para se apresentar como líder religioso na guerra santa. Faltava-lhe também pedigree social, item essencial no mundo árabe. Um batedor de carteira semi-analfabeto criado num bairro pobre de Amã, Zarqawi chegou a ser preso por estupro na juventude. Mais tarde, aderiu à jihad e foi treinar terrorismo no Afeganistão. Até os sunitas criticavam sua opção por incitar a guerra civil, em vez de atacar as forças americanas. Atribui-se a Zarqawi a implosão de um grande santuário xiita em Samarra, em fevereiro, atentado que terminou por converter o conflito iraquiano num confronto armado entre as duas seitas islâmicas. "Ele tentou passar uma imagem de Rambo islâmico, mas morreu isolado", disse a VEJA o israelense Ely Karmon, do Instituto de Contraterrorismo de Herzlia, em Israel. A morte do terrorista só foi possível com a colaboração de um membro de seu círculo íntimo. O vira-casaca, insinuam os americanos, seria um iraquiano enojado com a matança de civis orquestrada por Zarqawi.

O último esconderijo foi uma casa de dois andares em meio a uma plantação de palmeiras nos arredores de um vilarejo chamado Baquba, a 80 quilômetros de Bagdá. O ataque foi realizado por dois caças F-16 Falcon, que obliteraram o prédio com um par de bombas de 250 quilos cada uma. Quando a polícia iraquiana chegou ao local, logo após o ataque aéreo, na manhã da quarta-feira passada, poucos minutos à frente dos soldados americanos da 101ª Divisão de Assalto Aerotransportada, o terrorista agonizava. Nos escombros foram encontrados outros corpos: o de uma mulher e o de uma criança, os de dois homens não identificados e o xeque Abdul al-Rahman, que os americanos disseram ser o "guia espiritual" de Zarqawi. A vigilância sobre Abdul al-Rahman foi o último elo no trabalho de inteligência que levou ao esconderijo do terrorista.

 
Al-Jazzera/AP
Bin Laden e seu braço-direito: para ele, Zarqawi era um "príncipe"

A história recente recomenda prudência antes de declarar como decisiva a morte de um líder terrorista. Os israelenses, que adotaram a estratégia de matar chefes terroristas palestinos uns depois dos outros, já aprenderam que o morto é, com freqüência, substituído por alguém igualmente determinado. Morto por Israel, o xeque Ahmed Yassin, fundador do Hamas, foi sucedido por uma geração de líderes mais eficientes e modernos, que hoje dominam o governo palestino. Quando capturaram Saddam Hussein, em 2003, os americanos afirmaram ter aplicado um golpe decisivo na insurreição sunita. Ocorreu o contrário. Os insurgentes livraram-se do estigma de defender um ditador brutal e ficaram à vontade para levantar a bandeira, bem mais nobre, da luta pela libertação do Iraque da ocupação estrangeira. Por isso mesmo, o presidente George W. Bush comemorou com moderação a morte do terrorista. Ainda assim, foi a melhor notícia recebida em Washington em meses. A falta de vitórias militares significativas e as revelações sobre abusos cometidos por tropas americanas – sobretudo o massacre de 24 civis iraquianos na cidade de Haditha, ocorrido em novembro, mas cujos detalhes só surgiram agora – começam a formar na opinião pública uma imagem do conflito no Iraque dolorosamente próxima à da Guerra do Vietnã.

 
 
 
 
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