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Internacional
O fim do açougueiro do Iraque
O futuro da guerra no Iraque depois da morte do terrorista Abu al-Zarqawi
 José
Eduardo Barella Khalid
Mohammed/AP
 | | Troca
de guarda: Zarqawi morto e, à esquerda, como aparece em imagem de propaganda
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Na sina ingrata
da guerra no Iraque, o governo e o Exército americano merecem aplausos
pelas bombas que mataram Abu Musab al-Zarqawi. Guerrilheiro e líder terrorista,
ele foi o responsável por alguns dos mais terríveis atentados desse
conflito brutal. Foi o mentor do caminhão-bomba que pôs abaixo a
sede das Nações Unidas em Bagdá e matou o brasileiro Sérgio
Vieira de Mello, representante da organização no Iraque. Decapitou
pessoalmente o refém americano Nicholas Berg e distribuiu as imagens do
crime pela internet. Numa tentativa de expandir a guerra aos países vizinhos,
orquestrou os atentados em três hotéis na Jordânia, incluindo
aquele que trucidou os convidados numa festa de casamento. Maior advogado da violência
extrema contra civis, hoje uma peculiaridade do conflito iraquiano, promoveu a
matança indiscriminada de xiitas, ramo do islamismo que considerava apóstata
e odiava mais que aos americanos. Em adição a tantas atrocidades,
Zarqawi representava a Al Qaeda no Iraque. Osama bin Laden o chamou de "o príncipe".
Não há números precisos de quantos milhares de iraquianos
indefesos, surpreendidos em mercados e mesquitas, foram mortos pela Al Qaeda na
Mesopotâmia. Mas se estima que Zarqawi tenha encarregado da matança
pelo menos uma centena de homens-bomba.
Ao matarem Zarqawi, os americanos e seus aliados iraquianos eliminaram o homem
que dava rosto ao terrorismo no Iraque. Os sunitas que combatem a ocupação
americana e o governo do Iraque perderam sua figura mais visível, um líder
com capacidade de atrair doações e voluntários no estrangeiro.
O impacto a longo prazo, por outro lado, não é tão promissor.
A insurreição no Iraque sustenta-se numa variedade de grupos e milícias,
algumas vezes organizados em torno de um clã ou de um lugarejo, e, dessa
forma, pode abrir mão de um líder carismático. A Al Qaeda
na Mesopotâmia é formada por fanáticos recrutados em países
vizinhos e tem como principal objetivo a guerra santa para o estabelecimento de
um Estado islâmico na região. É um apelo que diz pouco para
a maioria dos sunitas. Esses têm motivos mais pragmáticos pelos quais
lutar: nacionalismo, autodefesa contra o governo dominado pelos xiitas ou recuperação
dos privilégios que tinham no regime de Saddam Hussein. "A insurgência
deve ficar mais dispersa e, paradoxalmente, ainda mais violenta porque a morte
de Zarqawi abriu um vácuo de liderança que deve ser disputado por
esses grupos", disse a VEJA o escocês Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo
do Centro de Estudos de Ameaças Assimétricas de Estocolmo, na Suécia.
Samir
Mezban/AP
 | Evan
Schneider/AP
 | | Sede
da ONU em Bagdá, destruída pelo atentado que matou Vieira de Mello
(ao lado) |
Muitos sunitas
iraquianos, inclusive aqueles mais furiosos com os Estados Unidos, não
reconheciam Zarqawi como líder. Primeiro, porque ele era jordaniano, um
estrangeiro. Segundo, porque lhe faltavam as credenciais necessárias para
se apresentar como líder religioso na guerra santa. Faltava-lhe também
pedigree social, item essencial no mundo árabe. Um batedor de carteira
semi-analfabeto criado num bairro pobre de Amã, Zarqawi chegou a ser preso
por estupro na juventude. Mais tarde, aderiu à jihad e foi treinar terrorismo
no Afeganistão. Até os sunitas criticavam sua opção
por incitar a guerra civil, em vez de atacar as forças americanas. Atribui-se
a Zarqawi a implosão de um grande santuário xiita em Samarra, em
fevereiro, atentado que terminou por converter o conflito iraquiano num confronto
armado entre as duas seitas islâmicas. "Ele tentou passar uma imagem de
Rambo islâmico, mas morreu isolado", disse a VEJA o israelense Ely Karmon,
do Instituto de Contraterrorismo de Herzlia, em Israel. A morte do terrorista
só foi possível com a colaboração de um membro de
seu círculo íntimo. O vira-casaca, insinuam os americanos, seria
um iraquiano enojado com a matança de civis orquestrada por Zarqawi.
O último esconderijo foi uma casa de dois andares em meio a uma plantação
de palmeiras nos arredores de um vilarejo chamado Baquba, a 80 quilômetros
de Bagdá. O ataque foi realizado por dois caças F-16 Falcon, que
obliteraram o prédio com um par de bombas de 250 quilos cada uma. Quando
a polícia iraquiana chegou ao local, logo após o ataque aéreo,
na manhã da quarta-feira passada, poucos minutos à frente dos soldados
americanos da 101ª Divisão de Assalto Aerotransportada, o terrorista
agonizava. Nos escombros foram encontrados outros corpos: o de uma mulher e o
de uma criança, os de dois homens não identificados e o xeque Abdul
al-Rahman, que os americanos disseram ser o "guia espiritual" de Zarqawi. A vigilância
sobre Abdul al-Rahman foi o último elo no trabalho de inteligência
que levou ao esconderijo do terrorista. Al-Jazzera/AP
 | | Bin
Laden e seu braço-direito: para ele, Zarqawi era um "príncipe" |
A história recente recomenda prudência antes de declarar como decisiva
a morte de um líder terrorista. Os israelenses, que adotaram a estratégia
de matar chefes terroristas palestinos uns depois dos outros, já aprenderam
que o morto é, com freqüência, substituído por alguém
igualmente determinado. Morto por Israel, o xeque Ahmed Yassin, fundador do Hamas,
foi sucedido por uma geração de líderes mais eficientes e
modernos, que hoje dominam o governo palestino. Quando capturaram Saddam Hussein,
em 2003, os americanos afirmaram ter aplicado um golpe decisivo na insurreição
sunita. Ocorreu o contrário. Os insurgentes livraram-se do estigma de defender
um ditador brutal e ficaram à vontade para levantar a bandeira, bem mais
nobre, da luta pela libertação do Iraque da ocupação
estrangeira. Por isso mesmo, o presidente George W. Bush comemorou com moderação
a morte do terrorista. Ainda assim, foi a melhor notícia recebida em Washington
em meses. A falta de vitórias militares significativas e as revelações
sobre abusos cometidos por tropas americanas sobretudo o massacre de 24
civis iraquianos na cidade de Haditha, ocorrido em novembro, mas cujos detalhes
só surgiram agora começam a formar na opinião pública
uma imagem do conflito no Iraque dolorosamente próxima à da Guerra
do Vietnã. |