Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Turismo
Pousada de autor

Nestes hotéis pequenos e requintados,
tudo é simpático e fácil, menos chegar
e agüentar a lentidão do serviço


Sandra Brasil

 
Fotos divulgação
Fazenda da Lagoa, em Una, sul da Bahia: catorze chalés, móveis de madeira, tapetes de fibras locais e tecidos pintados pela artista plástica Mucki Skowronski, que administra o hotel na beira da praia

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Hotéis de luxo existem muitos, grandes, imponentes, com apartamentos primorosos, restaurante requintado e pessoal bem treinado. São uma espécie de mundo exclusivo que tem de tudo – menos xodó e aconchego. Pois justamente esses dois ingredientes, dispensados com naturalidade, simpatia e refinamento, fazem toda a diferença em outro tipo de hotel, ao qual chamaremos de "pousada de autor", pequenos albergues finos, instalados em locais de difícil acesso e com diárias caras, mas não impossíveis. Em geral, essas pousadas ficam em espaços de natureza privilegiada. Têm dez a quinze suítes e chega – ampliação não consta no dicionário dos donos, que cuidam pessoalmente do negócio e fazem divulgação apenas discreta, quando fazem. Nas suítes, muitas vezes chalés bem afastados uns dos outros, o espaço é amplo e a decoração, caprichada, com peças de artesanato, antiguidades, móveis de design e uma ou outra obra de arte, tudo escolhido a dedo pelo proprietário. Podem até aceitar crianças, mas não lhes oferecem um único tio ou tia, muito menos "programação de atividades". Animais de estimação, em alguns casos, são bem-vindos. Nesses hotéis de tratamento individualizado, o dono, ou no mínimo o gerente, recebe os hóspedes, circula pelas áreas comuns e está sempre acessível. "Nos últimos cinco anos, mais ou menos, percebemos o surgimento de um público que foge daquela coisa de cinqüenta quartos, corredor comprido, de ser 'o hóspede do 407'", diz o decorador paulistano Fuad Murad, sócio em dois empreendimentos "de autor". "Antes, só quem não tinha dinheiro ia para pousada. Agora, é um negócio muito mais rentável", conclui.

Gastronomia é ponto alto nas pousadas de autor: o cardápio costuma ser elaborado por chefs experientes e os pratos levam ingredientes finos da alta gastronomia, muitas vezes cultivados no local. Nem sempre a carta de vinhos corresponde, mas a maioria das pousadas permite que o hóspede leve sua bebida de casa. Há quem, inclusive, se preocupe em acomodá-la adequadamente. Apesar da bela adega de taipa com mais de 1.500 garrafas de vinho de rótulos variados, a Pousada do Toque (diárias de 380 a 970 reais), em São Miguel dos Milagres, no litoral norte de Alagoas, a 100 quilômetros de Maceió, instalou miniadegas para até quinze garrafas em sete dos seus treze chalés, em que o hóspede mantém refrigerados os próprios vinhos. "Quando resolvi abrir a pousada, a primeira coisa em que pensei foi onde eu gostaria de me hospedar, como queria ser tratado e o que me agradaria comer", diz Nilo Burgarelli, que fechou o restaurante francês que tinha em Maceió para montar o hotel junto com a mulher, Gilda Peixoto, responsável pela decoração. Inaugurada com cinco quartos, a Pousada do Toque hoje soma treze (o mais caro tem 160 metros quadrados, TV de plasma de 42 polegadas, ofurô com vista para o mar, sauna e piscina particulares). "E não vai passar disso, para que a gente possa manter a qualidade com nossos 25 funcionários fixos – mais de um por quarto", diz o capixaba Burgarelli, que vive há dezessete anos em Alagoas.

 
Pousada do Toque, em São Miguel dos Milagres, Alagoas: nos chalés, adega para os vinhos que o hóspede quiser levar

Nesse tipo de hospedagem, o café-da-manhã é uma atração à parte. Oferecido praticamente o dia inteiro, à la carte, evidentemente, o serviço completo pode consumir até uma hora e meia de degustação de sucos, frutas, queijos, geléias, bolos e variados tipos de pão feitos na própria pousada. "Antes, perguntamos o que cada um gosta, e servimos cada mesa de acordo com suas preferências", diz o engenheiro Francisco Loureiro, 54 anos, que investiu 800.000 reais no Solar da Baronesa (diárias de 180 a 250 reais), de apenas sete suítes – numa delas, o hóspede pode acomodar também seu animal de estimação. Inaugurada em junho do ano passado, a pousada fica em Itacaré, na Bahia, a 70 quilômetros de Ilhéus, instalada em um casarão de 1900 totalmente restaurado e decorado com tapetes orientais e artesanato mineiro. Na mesma Itacaré, mas afastada de tudo e de todos em uma praia isolada, fica a Pousada Sage Point (diárias de 280 a 590 reais), onde a atriz sul-africana Charlize Theron passou o réveillon de 2005 acompanhada de um grupo de amigos, entre eles o ator Orlando Bloom e a namorada, a também atriz Kate Bosworth. "Tudo começou quando o Vincent (Cassel, ator francês, marido da italiana Monica Bellucci) apareceu aqui para surfar. Veio sozinho, mas na segunda vez trouxe Monica", relata a cubana Ana Maria Pineiro, 44 anos, que abriu o negócio em 1993, quando o marido, baiano, morreu. Cassel e Monica apareceram outras vezes, uma delas sem avisar. "A pousada estava lotada. Acomodei os dois no meu quarto, na minha casa, e fui dormir na sala", diz Ana, responsável pelo clima esotérico da Sage Point. "Tenho cristais enterrados em tudo quanto é lugar e também alguns pendurados nas árvores", diz. "Todas as trilhas têm sapinhos, para dar prosperidade a quem passa, e eles estão de boca aberta, para engolir as energias ruins. Até o cheiro aqui é especial", acrescenta.

 
Mauá Brasil, na serra fluminense: lareira, banheira de hidromassagem e edredom e travesseiro de pluma de ganso

Seja qual for a localização ou o estilo, uma característica é comum a todos os hotéis do gênero: a tremenda lentidão do simpaticíssimo serviço. Os funcionários são, na maioria das vezes, recrutados na região e treinados pelos proprietários. "Não dá para ir para o campo ou para a praia esperando serviço com ritmo de cidade", justifica o francês Emmanuel Rengade, 35 anos, dono da Pousada Picinguaba (diárias de 390 reais), que tem dez suítes (sem frigobar, ar-condicionado, televisão nem telefone) espalhadas numa área de Mata Atlântica entre Ubatuba, São Paulo, e Parati, no Rio de Janeiro. A estrada que leva à Picinguaba termina a 250 metros da porta da pousada; o percurso final é feito a pé. "Nossos hóspedes são pessoas com dinheiro, mas muito simples. Eles apreciam o ambiente rústico, mas com conforto", afirma Rengade, que só faz propaganda de seu negócio na Europa, de onde vem 90% da clientela. Alto executivo de uma empresa americana no Brasil, ele largou o emprego e inaugurou em 2002 sua pousada, que é decorada com telas emprestadas por uma galeria de arte de São Paulo, tem sommelier e um bar onde o hóspede pode se servir a qualquer hora do dia ou da noite (fica por conta dele anotar o que consumiu). "Se alguém adoece, levamos ao médico. Tratamos todo mundo com carinho", diz Rengade.

"A primeira coisa que a gente ensina aos funcionários é só dizer 'não dá' em último caso", diz Murad, 43 anos, sócio da Barulho d'Água (diárias de 335 a 685 reais), que tem apenas seis quartos e está localizada em Ilhabela, no Litoral Norte de São Paulo, e da Ronco do Bugio (diárias de 315 a 630 reais), que dispõe de onze chalés em Piedade, no interior do estado, e onde bugios, uma espécie de macaco que vive na região, efetivamente roncam em alguns fins de tarde. Murad cuidou de cada detalhe da decoração de suas pousadas. Portas, janelas e quase toda a madeira usada na construção vieram de casas antigas demolidas em fazendas no interior de São Paulo e de Minas Gerais. A piscina é alimentada por uma queda-d'água entre duas pedras. Na Barulho d'Água, Murad e o chef Eduardo Duó investiram quase 1 milhão de reais; a Ronco do Bugio, em sociedade com José Luiz Majolo, vice-presidente de um banco, custou cerca de 3,5 milhões de reais.

 

Ronco do Bugio, em Piedade, em São Paulo: portas e janelas vindas de casas de fazenda demolidas e piscina natural

Também investe em pousadas requintadas o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, um dos donos da Fazenda da Lagoa (diárias de 650 a 850 reais), em Una, sul da Bahia. Para chegar aos catorze chalés erguidos em uma faixa de areia separada do continente por um rio, o hóspede tem de voar até Ilhéus ou Comandatuba, depois percorrer de carro 40 ou 25 quilômetros, respectivamente, em asfalto, até a entrada da antiga fazenda de dendê e coco, encarar mais 3 quilômetros de estrada de terra e, por fim, atravessar o rio de barco. A travessia é curta e a chegada, pela água, deslumbrante. No hotel, praticamente tudo é feito de madeira local e os tapetes são todos trançados com fibras da região. Tecidos e louças são pintados pela artista plástica carioca Mucki Skowronski, casada com um dos sócios e manda-chuva do hotel. "Este lugar tem magia. Foi feito para quem busca isolamento com conforto. É uma Bahia sem axé e sem barulho", diz Mucki, que tem casa na mesma praia e mora lá parte do tempo.

Picinguaba, entre Ubatuba e Parati: só faz anúncio na Europa, de onde vêm 90% dos hóspedes

A quantidade de fios, indicador da maciez do tecido de algodão, é rigorosa numa pousada desse tipo, sendo 200 considerado em muitas o mínimo indispensável. Na Mauá Brasil (diárias de 490 a 590 reais), em Visconde de Mauá, na região serrana do Rio de Janeiro, os lençóis dos onze chalés são de 400 fios e os edredons e travesseiros, recheados com pluma de ganso. Todos os quartos têm lareira e banheira de hidromassagem para dois, acompanhada de sabonete de leite de cabra, sais de banho, roupão e chinelo. "As pessoas querem rusticidade com conforto. Querem contato com a natureza, mas não abrem mão das mordomias", diz o advogado Osvaldo Caniato, 53 anos, que investiu 600.000 reais na pousada, trabalha em uma montadora de automóveis em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e há dois anos pega a estrada toda sexta-feira à tarde e dirige 350 quilômetros, sendo 20 em sacolejante estrada de terra, até Mauá; no domingo à tarde, faz o percurso de volta. A Mauá Brasil dispõe de heliponto, não aceita nem menores de 15 anos, uma condição que conta pontos a seu favor, nem animais de estimação, uma restrição não muito apreciada. "Já tive mais problema por proibir cachorro do que por não aceitar criança", afirma Caniato.

 

 
 
 
 
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