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Turismo Pousada
de autor Nestes hotéis pequenos
e requintados, tudo é simpático e fácil, menos chegar
e agüentar a lentidão do serviço
 Sandra
Brasil Fotos
divulgação
 |  | | Fazenda
da Lagoa, em Una, sul da Bahia: catorze chalés, móveis de madeira,
tapetes de fibras locais e tecidos pintados pela artista plástica Mucki
Skowronski, que administra o hotel na beira da praia |
Hotéis de luxo existem muitos,
grandes, imponentes, com apartamentos primorosos, restaurante requintado e pessoal
bem treinado. São uma espécie de mundo exclusivo que tem de tudo
menos xodó e aconchego. Pois justamente esses dois ingredientes,
dispensados com naturalidade, simpatia e refinamento, fazem toda a diferença
em outro tipo de hotel, ao qual chamaremos de "pousada de autor", pequenos albergues
finos, instalados em locais de difícil acesso e com diárias caras,
mas não impossíveis. Em geral, essas pousadas ficam em espaços
de natureza privilegiada. Têm dez a quinze suítes e chega
ampliação não consta no dicionário dos donos, que
cuidam pessoalmente do negócio e fazem divulgação apenas
discreta, quando fazem. Nas suítes, muitas vezes chalés bem afastados
uns dos outros, o espaço é amplo e a decoração, caprichada,
com peças de artesanato, antiguidades, móveis de design e uma ou
outra obra de arte, tudo escolhido a dedo pelo proprietário. Podem até
aceitar crianças, mas não lhes oferecem um único tio ou tia,
muito menos "programação de atividades". Animais de estimação,
em alguns casos, são bem-vindos. Nesses hotéis de tratamento individualizado,
o dono, ou no mínimo o gerente, recebe os hóspedes, circula pelas
áreas comuns e está sempre acessível. "Nos últimos
cinco anos, mais ou menos, percebemos o surgimento de um público que foge
daquela coisa de cinqüenta quartos, corredor comprido, de ser 'o hóspede
do 407'", diz o decorador paulistano Fuad Murad, sócio em dois empreendimentos
"de autor". "Antes, só quem não tinha dinheiro ia para pousada.
Agora, é um negócio muito mais rentável", conclui.
Gastronomia é ponto alto nas pousadas de autor: o cardápio costuma
ser elaborado por chefs experientes e os pratos levam ingredientes finos da alta
gastronomia, muitas vezes cultivados no local. Nem sempre a carta de vinhos corresponde,
mas a maioria das pousadas permite que o hóspede leve sua bebida de casa.
Há quem, inclusive, se preocupe em acomodá-la adequadamente. Apesar
da bela adega de taipa com mais de 1.500 garrafas de vinho de rótulos variados,
a Pousada do Toque (diárias de 380 a 970 reais), em São Miguel dos
Milagres, no litoral norte de Alagoas, a 100 quilômetros de Maceió,
instalou miniadegas para até quinze garrafas em sete dos seus treze chalés,
em que o hóspede mantém refrigerados os próprios vinhos.
"Quando resolvi abrir a pousada, a primeira coisa em que pensei foi onde eu gostaria
de me hospedar, como queria ser tratado e o que me agradaria comer", diz Nilo
Burgarelli, que fechou o restaurante francês que tinha em Maceió
para montar o hotel junto com a mulher, Gilda Peixoto, responsável pela
decoração. Inaugurada com cinco quartos, a Pousada do Toque hoje
soma treze (o mais caro tem 160 metros quadrados, TV de plasma de 42 polegadas,
ofurô com vista para o mar, sauna e piscina particulares). "E não
vai passar disso, para que a gente possa manter a qualidade com nossos 25 funcionários
fixos mais de um por quarto", diz o capixaba Burgarelli, que vive há
dezessete anos em Alagoas.  |  | | Pousada
do Toque, em São Miguel dos Milagres, Alagoas: nos chalés, adega para os vinhos
que o hóspede quiser levar |
Nesse tipo de hospedagem, o café-da-manhã é uma atração
à parte. Oferecido praticamente o dia inteiro, à la carte, evidentemente,
o serviço completo pode consumir até uma hora e meia de degustação
de sucos, frutas, queijos, geléias, bolos e variados tipos de pão
feitos na própria pousada. "Antes, perguntamos o que cada um gosta, e servimos
cada mesa de acordo com suas preferências", diz o engenheiro Francisco Loureiro,
54 anos, que investiu 800.000 reais no Solar da Baronesa (diárias de 180
a 250 reais), de apenas sete suítes numa delas, o hóspede
pode acomodar também seu animal de estimação. Inaugurada
em junho do ano passado, a pousada fica em Itacaré, na Bahia, a 70 quilômetros
de Ilhéus, instalada em um casarão de 1900 totalmente restaurado
e decorado com tapetes orientais e artesanato mineiro. Na mesma Itacaré,
mas afastada de tudo e de todos em uma praia isolada, fica a Pousada Sage Point
(diárias de 280 a 590 reais), onde a atriz sul-africana Charlize Theron
passou o réveillon de 2005 acompanhada de um grupo de amigos, entre eles
o ator Orlando Bloom e a namorada, a também atriz Kate Bosworth. "Tudo
começou quando o Vincent (Cassel, ator francês, marido da italiana
Monica Bellucci) apareceu aqui para surfar. Veio sozinho, mas na segunda vez
trouxe Monica", relata a cubana Ana Maria Pineiro, 44 anos, que abriu o negócio
em 1993, quando o marido, baiano, morreu. Cassel e Monica apareceram outras vezes,
uma delas sem avisar. "A pousada estava lotada. Acomodei os dois no meu quarto,
na minha casa, e fui dormir na sala", diz Ana, responsável pelo clima esotérico
da Sage Point. "Tenho cristais enterrados em tudo quanto é lugar e também
alguns pendurados nas árvores", diz. "Todas as trilhas têm sapinhos,
para dar prosperidade a quem passa, e eles estão de boca aberta, para engolir
as energias ruins. Até o cheiro aqui é especial", acrescenta.  |  |
| Mauá Brasil, na serra fluminense: lareira, banheira
de hidromassagem e edredom e travesseiro de pluma de ganso |
Seja qual for a localização ou o estilo, uma característica
é comum a todos os hotéis do gênero: a tremenda lentidão
do simpaticíssimo serviço. Os funcionários são, na
maioria das vezes, recrutados na região e treinados pelos proprietários.
"Não dá para ir para o campo ou para a praia esperando serviço
com ritmo de cidade", justifica o francês Emmanuel Rengade, 35 anos, dono
da Pousada Picinguaba (diárias de 390 reais), que tem dez suítes
(sem frigobar, ar-condicionado, televisão nem telefone) espalhadas numa
área de Mata Atlântica entre Ubatuba, São Paulo, e Parati,
no Rio de Janeiro. A estrada que leva à Picinguaba termina a 250 metros
da porta da pousada; o percurso final é feito a pé. "Nossos hóspedes
são pessoas com dinheiro, mas muito simples. Eles apreciam o ambiente rústico,
mas com conforto", afirma Rengade, que só faz propaganda de seu negócio
na Europa, de onde vem 90% da clientela. Alto executivo de uma empresa americana
no Brasil, ele largou o emprego e inaugurou em 2002 sua pousada, que é
decorada com telas emprestadas por uma galeria de arte de São Paulo, tem
sommelier e um bar onde o hóspede pode se servir a qualquer hora do dia
ou da noite (fica por conta dele anotar o que consumiu). "Se alguém adoece,
levamos ao médico. Tratamos todo mundo com carinho", diz Rengade. "A
primeira coisa que a gente ensina aos funcionários é só dizer
'não dá' em último caso", diz Murad, 43 anos, sócio
da Barulho d'Água (diárias de 335 a 685 reais), que tem apenas seis
quartos e está localizada em Ilhabela, no Litoral Norte de São Paulo,
e da Ronco do Bugio (diárias de 315 a 630 reais), que dispõe de
onze chalés em Piedade, no interior do estado, e onde bugios, uma espécie
de macaco que vive na região, efetivamente roncam em alguns fins de tarde.
Murad cuidou de cada detalhe da decoração de suas pousadas. Portas,
janelas e quase toda a madeira usada na construção vieram de casas
antigas demolidas em fazendas no interior de São Paulo e de Minas Gerais.
A piscina é alimentada por uma queda-d'água entre duas pedras. Na
Barulho d'Água, Murad e o chef Eduardo Duó investiram quase 1 milhão
de reais; a Ronco do Bugio, em sociedade com José Luiz Majolo, vice-presidente
de um banco, custou cerca de 3,5 milhões de reais.  |  | | Ronco
do Bugio, em Piedade, em São Paulo: portas e janelas vindas de casas de fazenda
demolidas e piscina natural |
Também investe em pousadas requintadas o ex-presidente do Banco Central
Armínio Fraga, um dos donos da Fazenda da Lagoa (diárias de 650
a 850 reais), em Una, sul da Bahia. Para chegar aos catorze chalés erguidos
em uma faixa de areia separada do continente por um rio, o hóspede tem
de voar até Ilhéus ou Comandatuba, depois percorrer de carro 40
ou 25 quilômetros, respectivamente, em asfalto, até a entrada da
antiga fazenda de dendê e coco, encarar mais 3 quilômetros de estrada
de terra e, por fim, atravessar o rio de barco. A travessia é curta e a
chegada, pela água, deslumbrante. No hotel, praticamente tudo é
feito de madeira local e os tapetes são todos trançados com fibras
da região. Tecidos e louças são pintados pela artista plástica
carioca Mucki Skowronski, casada com um dos sócios e manda-chuva do hotel.
"Este lugar tem magia. Foi feito para quem busca isolamento com conforto. É
uma Bahia sem axé e sem barulho", diz Mucki, que tem casa na mesma praia
e mora lá parte do tempo.
 | | Picinguaba,
entre Ubatuba e Parati: só faz anúncio na Europa, de onde vêm 90% dos hóspedes
|
A quantidade de fios, indicador
da maciez do tecido de algodão, é rigorosa numa pousada desse tipo,
sendo 200 considerado em muitas o mínimo indispensável. Na Mauá
Brasil (diárias de 490 a 590 reais), em Visconde de Mauá, na região
serrana do Rio de Janeiro, os lençóis dos onze chalés são
de 400 fios e os edredons e travesseiros, recheados com pluma de ganso. Todos
os quartos têm lareira e banheira de hidromassagem para dois, acompanhada
de sabonete de leite de cabra, sais de banho, roupão e chinelo. "As pessoas
querem rusticidade com conforto. Querem contato com a natureza, mas não
abrem mão das mordomias", diz o advogado Osvaldo Caniato, 53 anos, que
investiu 600.000 reais na pousada, trabalha em uma montadora de automóveis
em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e há dois
anos pega a estrada toda sexta-feira à tarde e dirige 350 quilômetros,
sendo 20 em sacolejante estrada de terra, até Mauá; no domingo à
tarde, faz o percurso de volta. A Mauá Brasil dispõe de heliponto,
não aceita nem menores de 15 anos, uma condição que conta
pontos a seu favor, nem animais de estimação, uma restrição
não muito apreciada. "Já tive mais problema por proibir cachorro
do que por não aceitar criança", afirma Caniato.
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