Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Sociedade
Nada a ver com Silas

Albinos protestam contra filmes
que os retratam como vilões, caso
do monge de O Código Da Vinci


Bel Moherdaui

 
Lailson Santos
Cavalli, de óculos, a irmã Andreza (à esq., de cabelo preso) e amigos: pouca visão

Eles não têm olhos vermelhos nem vivem escondidos do sol, como muitos acreditam. "Temos casa na praia há mais de dez anos e eu sempre vou, com meu protetor solar. Até maratona no sol do meio-dia eu já corri", atesta a engenheira Andreza Cavalli, 26 anos, albina como dois de seus três irmãos. Mas ainda assim os albinos, pele alvíssima, cabelo quase branco e olhos em geral azuis, alimentam fantasias por onde passam – muitas carregadas de preconceito. "Não sei como é não chamar atenção. Mesmo de jeans, camiseta, tênis e cabelo preso, todo mundo repara", relata a psicóloga Ieda Derrico, 39 anos. Se a vida já não era fácil, piorou com os "albinos" (todos atores com nível normal de melanina, embranquecidos por maquiagem) mostrados nos últimos tempos no cinema. O mais recente desses albinos do mal é o monge assassino Silas (Paul Bettany), de O Código Da Vinci, que atravessa a Europa atrás daqueles que podem vir a revelar o segredo da linhagem de Cristo. Devidamente compungido diante dos protestos, inclusive da americana Organização Nacional para Albinismo e Hipopigmentação (Noah), Bettany declarou: "Silas é um psicopata, mas não por ser albino. Ele é resultado de tudo o que aconteceu na sua vida". Para o ator, que teve o cabelo já loiro descolorido e os olhos cobertos com lentes vermelhas, o personagem "diz tanto sobre albinos quanto sobre monges, e tanto sobre monges quanto sobre gente que usa sandálias".

Pela contabilidade de Michael McGowan, presidente da Noah, O Código Da Vinci é o 68º filme desde 1960 a pintar albinos como vilões, uma lista de que fazem parte os gêmeos que se desmaterializavam (interpretados pelos irmãos Adrian e Neil Rayment) em Matrix Reloaded e o sádico assassino Bosie (Charlie Hunnam), de Cold Mountain. O albinismo é uma característica genética, passada de pais para filhos, na qual as células produzem pouco ou nada do pigmento natural chamado melanina. O gene tem de estar presente no pai e na mãe, nem todos os filhos nascerão albinos e, destes, nem todos passarão a condição aos próprios filhos. Somente uma em cada 20.000 pessoas no mundo possui alguma forma de albinismo – no Brasil, seriam apenas 9.300 pessoas. "Existem basicamente três tipos de albinismo: ocular (não há pigmentação nos olhos), óculo-cutâneo (não há pigmentação na pele, nos olhos e no cabelo) e parcial (não há pigmentação em uma região bem delimitada da pele ou do cabelo)", explica a geneticista Ana Beatriz Alvarez Perez, da Universidade Federal de São Paulo. A ausência de pigmentação nos olhos, segundo ela, faz com que, em alguns casos, eles pareçam violeta ou arroxeados – mas nunca vermelhos. Essa falta de melanina também provoca a mais incontornável limitação na vida dos albinos: a visão. "Sempre tenho uma lupa comigo. Já me aventurei na direção, mas sei que jamais passaria no exame de visão", resigna-se o estudante Marcus Vinicius Cavalli. A proteção contra o sol também é fundamental, mas pode ser administrada de forma a não interferir na vida normal das pessoas. "Elas precisam se abrigar do sol com roupa, horário adequado e filtro solar forte. São também mais suscetíveis a fotoenvelhecimento e câncer de pele", observa Cyro Festa Neto, professor do departamento de dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 
Fotos Rick Guidotti
Imagens de Guidotti pelo mundo: Alix com a mãe, no Mali, e o riso aberto da advogada Sueanna, na Coréia do Sul

Seguindo caminho inverso ao da vilanização dos albinos no cinema (em parte, resquício da crença antiga de que eram amaldiçoados), o fotógrafo americano Rick Guidotti trocou a carreira no mundo da moda pela atividade de retratá-los, normais e integrados, mundo afora. "Sempre tive de trabalhar com os parâmetros de beleza impostos pela moda. Um dia, saindo do estúdio, vi no ponto de ônibus uma mulher com albinismo absolutamente estonteante. Nas livrarias, notei que as poucas publicações que retratavam albinos sempre os mostravam assustados, envergonhados. Resolvi mudar isso", disse Guidotti a VEJA. Assim, deu início ao trabalho que conduz desde 1997 e que já totaliza 3.500 albinos da Ásia, África, Oceania, Europa e Américas. Parte das imagens dará origem a um livro que pretende lançar no ano que vem. "A primeira menina que fotografei era linda, mas não me olhava no olho, escondia o rosto com o cabelo, era monossilábica. Antes de começarmos o ensaio, dei a ela um espelho. Foi incrível. Ali vi que ela sempre soube que era bonita, mas que estava acostumada a ouvir dos outros exatamente o oposto", lembra Guidotti. Uma descoberta que, ouvindo-se os relatos, se repete com certa freqüência. "Minha adolescência foi muito complicada, eu era muito tímida. Mas, depois dos 16 anos, minha auto-estima mudou. Hoje me acho linda, exótica, diferente", diz a farmacêutica paulista Priscila Merlin, 29 anos. "Adoro chamar atenção. Meu armário, por exemplo, é todo colorido – nada de marronzinho, begezinho", completa.

 
 
 
 
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