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Sociedade Nada
a ver com Silas Albinos protestam contra
filmes que os retratam como vilões, caso do monge de O Código
Da Vinci  Bel
Moherdaui Lailson
Santos
 | | Cavalli,
de óculos, a irmã Andreza (à esq., de cabelo preso)
e amigos: pouca visão |
Eles não têm olhos vermelhos nem vivem escondidos do sol, como muitos
acreditam. "Temos casa na praia há mais de dez anos e eu sempre vou, com
meu protetor solar. Até maratona no sol do meio-dia eu já corri",
atesta a engenheira Andreza Cavalli, 26 anos, albina como dois de seus três
irmãos. Mas ainda assim os albinos, pele alvíssima, cabelo quase
branco e olhos em geral azuis, alimentam fantasias por onde passam muitas
carregadas de preconceito. "Não sei como é não chamar atenção.
Mesmo de jeans, camiseta, tênis e cabelo preso, todo mundo repara", relata
a psicóloga Ieda Derrico, 39 anos. Se a vida já não era fácil,
piorou com os "albinos" (todos atores com nível normal de melanina, embranquecidos
por maquiagem) mostrados nos últimos tempos no cinema. O mais recente desses
albinos do mal é o monge assassino Silas (Paul Bettany), de O Código
Da Vinci, que atravessa a Europa atrás daqueles que podem vir a revelar
o segredo da linhagem de Cristo. Devidamente compungido diante dos protestos,
inclusive da americana Organização Nacional para Albinismo e Hipopigmentação
(Noah), Bettany declarou: "Silas é um psicopata, mas não por ser
albino. Ele é resultado de tudo o que aconteceu na sua vida". Para o ator,
que teve o cabelo já loiro descolorido e os olhos cobertos com lentes vermelhas,
o personagem "diz tanto sobre albinos quanto sobre monges, e tanto sobre monges
quanto sobre gente que usa sandálias".
Pela contabilidade de Michael McGowan, presidente da Noah, O Código
Da Vinci é o 68º filme desde 1960 a pintar albinos como vilões,
uma lista de que fazem parte os gêmeos que se desmaterializavam (interpretados
pelos irmãos Adrian e Neil Rayment) em Matrix Reloaded e o sádico
assassino Bosie (Charlie Hunnam), de Cold Mountain. O albinismo é
uma característica genética, passada de pais para filhos, na qual
as células produzem pouco ou nada do pigmento natural chamado melanina.
O gene tem de estar presente no pai e na mãe, nem todos os filhos nascerão
albinos e, destes, nem todos passarão a condição aos próprios
filhos. Somente uma em cada 20.000 pessoas no mundo possui alguma forma de albinismo
no Brasil, seriam apenas 9.300 pessoas. "Existem basicamente três
tipos de albinismo: ocular (não há pigmentação nos
olhos), óculo-cutâneo (não há pigmentação
na pele, nos olhos e no cabelo) e parcial (não há pigmentação
em uma região bem delimitada da pele ou do cabelo)", explica a geneticista
Ana Beatriz Alvarez Perez, da Universidade Federal de São Paulo. A ausência
de pigmentação nos olhos, segundo ela, faz com que, em alguns casos,
eles pareçam violeta ou arroxeados mas nunca vermelhos. Essa falta
de melanina também provoca a mais incontornável limitação
na vida dos albinos: a visão. "Sempre tenho uma lupa comigo. Já
me aventurei na direção, mas sei que jamais passaria no exame de
visão", resigna-se o estudante Marcus Vinicius Cavalli. A proteção
contra o sol também é fundamental, mas pode ser administrada de
forma a não interferir na vida normal das pessoas. "Elas precisam se abrigar
do sol com roupa, horário adequado e filtro solar forte. São também
mais suscetíveis a fotoenvelhecimento e câncer de pele", observa
Cyro Festa Neto, professor do departamento de dermatologia da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo. Fotos
Rick Guidotti
 |  | | Imagens
de Guidotti pelo mundo: Alix com a mãe, no Mali, e o riso aberto da advogada Sueanna,
na Coréia do Sul |
Seguindo caminho
inverso ao da vilanização dos albinos no cinema (em parte, resquício
da crença antiga de que eram amaldiçoados), o fotógrafo americano
Rick Guidotti trocou a carreira no mundo da moda pela atividade de retratá-los,
normais e integrados, mundo afora. "Sempre tive de trabalhar com os parâmetros
de beleza impostos pela moda. Um dia, saindo do estúdio, vi no ponto de
ônibus uma mulher com albinismo absolutamente estonteante. Nas livrarias,
notei que as poucas publicações que retratavam albinos sempre os
mostravam assustados, envergonhados. Resolvi mudar isso", disse Guidotti a VEJA.
Assim, deu início ao trabalho que conduz desde 1997 e que já totaliza
3.500 albinos da Ásia, África, Oceania, Europa e Américas.
Parte das imagens dará origem a um livro que pretende lançar no
ano que vem. "A primeira menina que fotografei era linda, mas não me olhava
no olho, escondia o rosto com o cabelo, era monossilábica. Antes de começarmos
o ensaio, dei a ela um espelho. Foi incrível. Ali vi que ela sempre soube
que era bonita, mas que estava acostumada a ouvir dos outros exatamente o oposto",
lembra Guidotti. Uma descoberta que, ouvindo-se os relatos, se repete com certa
freqüência. "Minha adolescência foi muito complicada, eu era
muito tímida. Mas, depois dos 16 anos, minha auto-estima mudou. Hoje me
acho linda, exótica, diferente", diz a farmacêutica paulista Priscila
Merlin, 29 anos. "Adoro chamar atenção. Meu armário, por
exemplo, é todo colorido nada de marronzinho, begezinho", completa.
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