Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Brasil
A CPI terminou...

...e Okamotto não explicou a origem de
depósitos incompatíveis com sua renda


Adriano Machado/AE
Negócio estranho: Lula não sabia e o amigo Okamotto não quis "encher o saco"

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Cronologia da Crise

Na semana passada, o senador Garibaldi Alves, relator da CPI dos Bingos, resumiu em 1.430 páginas o trabalho de um ano de investigação de uma das mais curiosas comissões parlamentares que já funcionaram no Congresso. Criada para tentar descobrir as relações financeiras entre bingueiros e o governo Lula, a comissão serviu como uma espécie de tribuna da oposição. Personagens dos múltiplos escândalos envolvendo o governo foram ouvidos e vários casos, alguns que nada tinham a ver com jogatina, foram investigados. Ao final, 79 pessoas foram indiciadas pelos mais diversos crimes. Os governistas sempre reclamaram que a comissão extrapolava seu objetivo legal – a ponto de a apelidarem de CPI do Fim do Mundo. O mundo, porém, não acabou para o governo. Ficou até barato. Lula, seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, e o ex-ministro José Dirceu foram poupados no relatório final. Paulo Okamotto, o ex-tesoureiro do PT, embora indiciado, conseguiu atravessar todo esse período de investigação sem explicar de onde veio o dinheiro que ele teria usado para pagar uma misteriosa dívida do presidente – se é que foi mesmo ele quem pagou.

Em julho do ano passado, quando a CPI ensaiava as primeiras investigações contra Waldomiro Diniz, ex-assessor de José Dirceu e propineiro confesso do PT, descobriu-se que na contabilidade do partido de 2003 foi registrada uma dívida de 29.400 reais contra um tal Luiz I.L. da Silva. Era o presidente da República, e o débito, um empréstimo, foi quitado em quatro parcelas. Perguntado sobre de que se tratava a tal dívida, o presidente informou desconhecer o assunto. Se Lula disse a verdade, o PT lhe atribuiu incorretamente um empréstimo, que ele também pagou sem saber de nada. Foi quando apareceu Paulo Okamotto, amigo de Lula, explicando que a dívida surgiu de uma confusão contábil do partido e que ele, Okamotto, se encarregou de quitá-la e não avisou nada ao presidente "para não encher o saco dele". Como e com que dinheiro Okamotto quitou a tal dívida é um mistério que ele nunca se empenhou em esclarecer. Em depoimento à CPI, o amigo do presidente disse que sacou o dinheiro de suas contas-correntes em São Paulo e Brasília e depois foi até uma agência do Banco do Brasil, onde o PT tem conta, e depositou os recursos, identificando o presidente como depositante. Bastaria conferir a veracidadae da história nos recibos da operação e nos extratos bancários de Okamotto. A CPI, porém, nunca conseguiu ter acesso aos documentos.

Paulo Okamotto, além de nunca ter apresentado os recibos da operação, ainda entrou na Justiça para impedir que os senadores verificassem suas contas bancárias. Isso fez a comissão suspeitar que o amigo do presidente pode não ter sido realmente o responsável pela quitação da dívida. Na semana passada, às vésperas da apresentação do relatório, o Coaf, órgão do Ministério da Fazenda que fiscaliza as movimentações financeiras, encaminhou à CPI um documento que aumenta ainda mais as suspeitas de que Okamotto não disse a verdade em seu depoimento à comissão. O Coaf detectou uma movimentação de recursos incompatível com o patrimônio e a capacidade financeira da empresa Red Star, que pertence à família de Okamotto. Embora sempre tergiverse quando perguntado sobre o assunto, Paulo Okamotto admitiu, em uma de suas inúmeras versões para a história, que a Red Star poderia ser uma das fontes do dinheiro que pagou a dívida do presidente.

Entre as movimentações estranhas detectadas pelo Coaf na empresa do amigo de Okamotto estão pagamentos feitos à Red Star pelo PT. Okamotto nunca escondeu que sua empresa tinha negócios com o partido. O problema é que a movimentação financeira da empresa, que chegou a 645.000 reais no período de maio de 2002 a agosto de 2005, parece excessiva para quem, durante a eleição, vende brindes simplórios, como estrelinhas vermelhas e canetas para os petistas. Aliás, o Coaf – que não aprofundou as investigações sobre a Red Star – informou que as transações, além de atípicas, não têm indicação clara de finalidade. Sem o acesso aos extratos bancários de Okamotto e de suas empresas, ficou difícil saber se Okamotto disse a verdade ou o que ele tenta esconder. Entre os senadores ainda há quem suspeite que recursos na conta de Okamotto podem ter vindo da mesma fonte que inundava os cofres do PT: o empresário Marcos Valério. Mas isso não passa de mera suspeita.

 
 
 
 
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