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Brasil A
CPI terminou... ...e Okamotto não explicou
a origem de depósitos incompatíveis com sua renda
Adriano Machado/AE  |
| Negócio estranho: Lula não sabia e o amigo
Okamotto não quis "encher o saco" |
Na semana passada, o senador Garibaldi
Alves, relator da CPI dos Bingos, resumiu em 1.430 páginas o trabalho de
um ano de investigação de uma das mais curiosas comissões
parlamentares que já funcionaram no Congresso. Criada para tentar descobrir
as relações financeiras entre bingueiros e o governo Lula, a comissão
serviu como uma espécie de tribuna da oposição. Personagens
dos múltiplos escândalos envolvendo o governo foram ouvidos e vários
casos, alguns que nada tinham a ver com jogatina, foram investigados. Ao final,
79 pessoas foram indiciadas pelos mais diversos crimes. Os governistas sempre
reclamaram que a comissão extrapolava seu objetivo legal a ponto
de a apelidarem de CPI do Fim do Mundo. O mundo, porém, não acabou
para o governo. Ficou até barato. Lula, seu chefe-de-gabinete, Gilberto
Carvalho, e o ex-ministro José Dirceu foram poupados no relatório
final. Paulo Okamotto, o ex-tesoureiro do PT, embora indiciado, conseguiu atravessar
todo esse período de investigação sem explicar de onde veio
o dinheiro que ele teria usado para pagar uma misteriosa dívida do presidente
se é que foi mesmo ele quem pagou.
Em julho do ano passado, quando a CPI ensaiava as primeiras investigações
contra Waldomiro Diniz, ex-assessor de José Dirceu e propineiro confesso
do PT, descobriu-se que na contabilidade do partido de 2003 foi registrada uma
dívida de 29.400 reais contra um tal Luiz I.L. da Silva. Era o presidente
da República, e o débito, um empréstimo, foi quitado em quatro
parcelas. Perguntado sobre de que se tratava a tal dívida, o presidente
informou desconhecer o assunto. Se Lula disse a verdade, o PT lhe atribuiu incorretamente
um empréstimo, que ele também pagou sem saber de nada. Foi quando
apareceu Paulo Okamotto, amigo de Lula, explicando que a dívida surgiu
de uma confusão contábil do partido e que ele, Okamotto, se encarregou
de quitá-la e não avisou nada ao presidente "para não encher
o saco dele". Como e com que dinheiro Okamotto quitou a tal dívida é
um mistério que ele nunca se empenhou em esclarecer. Em depoimento à
CPI, o amigo do presidente disse que sacou o dinheiro de suas contas-correntes
em São Paulo e Brasília e depois foi até uma agência
do Banco do Brasil, onde o PT tem conta, e depositou os recursos, identificando
o presidente como depositante. Bastaria conferir a veracidadae da história
nos recibos da operação e nos extratos bancários de Okamotto.
A CPI, porém, nunca conseguiu ter acesso aos documentos.
Paulo Okamotto, além de nunca ter apresentado os recibos da operação,
ainda entrou na Justiça para impedir que os senadores verificassem suas
contas bancárias. Isso fez a comissão suspeitar que o amigo do presidente
pode não ter sido realmente o responsável pela quitação
da dívida. Na semana passada, às vésperas da apresentação
do relatório, o Coaf, órgão do Ministério da Fazenda
que fiscaliza as movimentações financeiras, encaminhou à
CPI um documento que aumenta ainda mais as suspeitas de que Okamotto não
disse a verdade em seu depoimento à comissão. O Coaf detectou uma
movimentação de recursos incompatível com o patrimônio
e a capacidade financeira da empresa Red Star, que pertence à família
de Okamotto. Embora sempre tergiverse quando perguntado sobre o assunto, Paulo
Okamotto admitiu, em uma de suas inúmeras versões para a história,
que a Red Star poderia ser uma das fontes do dinheiro que pagou a dívida
do presidente. Entre as movimentações
estranhas detectadas pelo Coaf na empresa do amigo de Okamotto estão pagamentos
feitos à Red Star pelo PT. Okamotto nunca escondeu que sua empresa tinha
negócios com o partido. O problema é que a movimentação
financeira da empresa, que chegou a 645.000 reais no período de maio de
2002 a agosto de 2005, parece excessiva para quem, durante a eleição,
vende brindes simplórios, como estrelinhas vermelhas e canetas para os
petistas. Aliás, o Coaf que não aprofundou as investigações
sobre a Red Star informou que as transações, além
de atípicas, não têm indicação clara de finalidade.
Sem o acesso aos extratos bancários de Okamotto e de suas empresas, ficou
difícil saber se Okamotto disse a verdade ou o que ele tenta esconder.
Entre os senadores ainda há quem suspeite que recursos na conta de Okamotto
podem ter vindo da mesma fonte que inundava os cofres do PT: o empresário
Marcos Valério. Mas isso não passa de mera suspeita.
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