Edição 1960 . 14 de junho de 2006

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Brasil
Imprensa selvagem

Candidato ao governo do Amazonas é acusado
de desviar dinheiro público para criar um jornal


Victor Martino e Leonardo Coutinho


Raimundo Valentim
Amazonino: "Não me lembro de nada desabonador"

O ex-governador Amazonino Mendes, do Amazonas, é um homem de múltiplos talentos. Foi pequeno empreiteiro, funcionário público e advogado, até ingressar, aos 44 anos, na carreira política. Agora, com 66, Amazonino dá curso a uma nova vocação: o jornalismo. Em meados de 2005, passou a integrar o conselho editorial do Correio Amazonense, um fenômeno da imprensa tropical que completou um ano na semana passada. No diário, Amazonino exibe sua verve literária, pauta reportagens que desancam seus inimigos e outras que impulsionam sua campanha para voltar ao governo do estado. O jornalista Amazonino garante que é só um funcionário do Correio Amazonense e que conquistou o emprego graças à amizade com o dono da publicação, Carlos Guedes. O Ministério Público Federal do Amazonas apura outra versão. Por ela, o ex-governador, candidato a mais um mandato, agora pelo PFL, seria o verdadeiro dono da editora, e Guedes, seu laranja. Além disso, Amazonino teria desviado dinheiro dos cofres do estado de 1996 a 2002 para montar o jornal.

A investigação começou depois que o empresário Orley Fonseca entregou um dossiê aos procuradores, relatando como Amazonino teria se tornado um baronete da imprensa. Fonseca conta que, no fim de 1996, ano em que fundou a Editora Novo Tempo (ENT), foi procurado por Waldery Areosa. Ele queria comprar sua empresa, com a justificativa de que precisava de uma gráfica sem pendências judiciais, para disputar licitações da Secretaria Estadual da Educação. O negócio foi fechado por 100.000 reais. Areosa disse que tinha um "sócio secreto" que o ajudaria a ganhar as concorrências estatais e que Fonseca continuaria dirigindo a empresa. Quatro dias depois, Areosa assinou um contrato de 12 milhões de reais com o governo de Amazonino, para imprimir 1,2 milhão de apostilas. O extraordinário é que a gráfica só tinha capacidade para realizar 1% do serviço. Para que Areosa pudesse investir e cumprir o contrato, o governo pagou a encomenda adiantado.

A ENT cresceu de forma impressionante com a ajuda do "sócio secreto" (veja o quadro). Três anos depois, Areosa vendeu-a por 1,5 milhão de reais a Carlos Guedes. Fonseca afirma que o preço não correspondia ao valor real da empresa, que, graças aos contratos com o governo estadual, já alcançava 29 milhões de reais. Em 2004, depois da saída de Amazonino, portanto, a Secretaria de Educação do Amazonas encerrou os contratos com a ENT. No ano passado, a empresa lançou o Correio Amazonense. Fonseca disse aos procuradores que Areosa e Guedes não passam de testas-de-ferro e que o dono do negócio é Amazonino. O ex-governador nega que a editora seja sua e que ela tenha sido beneficiada durante sua gestão: "Não me lembro de ter cometido nenhum ato desabonador durante minha administração". Eles nunca se lembram – ou jamais souberam.

O florescimento da veia jornalística de Amazonino surpreendeu a todos. Até então, o ex-governador mantinha uma relação conflituosa com a imprensa. Em 1997, sugeriu numa entrevista ao repórter André Muggiati, correspondente da Folha de S.Paulo em Manaus na época, que o papa João Paulo II era homossexual. O então secretário estadual de Comunicação, Ronaldo Tiradentes, exigiu que Muggiati lhe desse a gravação da entrevista. O repórter recusou. Sua casa sofreu uma tentativa de arrombamento, e Muggiati deixou Manaus. No mesmo ano, o jornalista José Ribamar Bessa Freire, que criticava Amazonino, foi esmurrado numa padaria em Niterói. Duas semanas depois, recebeu, pelo correio, uma carta de Manaus com fotos da agressão e um bilhete: "Esta é a lição número 1. Aguarde a número 2". Bessa atribui a agressão a Tiradentes e Amazonino. Com o tempo, o ex-governador foi refinando seus métodos. Pancada, atualmente, só por escrito. No Correio Amazonino. Opa, Amazonense.

 
 
 
 
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