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Brasil
Imprensa selvagem
Candidato ao governo do Amazonas é acusado
de desviar dinheiro público para criar um jornal

Victor Martino e Leonardo Coutinho
Raimundo Valentim
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| Amazonino: "Não me lembro de nada
desabonador" |
O ex-governador Amazonino Mendes,
do Amazonas, é um homem de múltiplos talentos. Foi
pequeno empreiteiro, funcionário público e advogado,
até ingressar, aos 44 anos, na carreira política.
Agora, com 66, Amazonino dá curso a uma nova vocação:
o jornalismo. Em meados de 2005, passou a integrar o conselho editorial
do Correio Amazonense, um fenômeno da imprensa tropical
que completou um ano na semana passada. No diário, Amazonino
exibe sua verve literária, pauta reportagens que desancam
seus inimigos e outras que impulsionam sua campanha para voltar
ao governo do estado. O jornalista Amazonino garante que é
só um funcionário do Correio Amazonense e que
conquistou o emprego graças à amizade com o dono da
publicação, Carlos Guedes. O Ministério Público
Federal do Amazonas apura outra versão. Por ela, o ex-governador,
candidato a mais um mandato, agora pelo PFL, seria o verdadeiro
dono da editora, e Guedes, seu laranja. Além disso, Amazonino
teria desviado dinheiro dos cofres do estado de 1996 a 2002 para
montar o jornal.
A investigação
começou depois que o empresário Orley Fonseca entregou
um dossiê aos procuradores, relatando como Amazonino teria
se tornado um baronete da imprensa. Fonseca conta que, no fim de
1996, ano em que fundou a Editora Novo Tempo (ENT), foi procurado
por Waldery Areosa. Ele queria comprar sua empresa, com a justificativa
de que precisava de uma gráfica sem pendências judiciais,
para disputar licitações da Secretaria Estadual da
Educação. O negócio foi fechado por 100.000
reais. Areosa disse que tinha um "sócio secreto" que o ajudaria
a ganhar as concorrências estatais e que Fonseca continuaria
dirigindo a empresa. Quatro dias depois, Areosa assinou um contrato
de 12 milhões de reais com o governo de Amazonino, para imprimir
1,2 milhão de apostilas. O extraordinário é
que a gráfica só tinha capacidade para realizar 1%
do serviço. Para que Areosa pudesse investir e cumprir o
contrato, o governo pagou a encomenda adiantado.
A ENT cresceu de forma impressionante
com a ajuda do "sócio secreto" (veja
o quadro). Três anos depois, Areosa vendeu-a
por 1,5 milhão de reais a Carlos Guedes. Fonseca afirma que
o preço não correspondia ao valor real da empresa,
que, graças aos contratos com o governo estadual, já
alcançava 29 milhões de reais. Em 2004, depois da
saída de Amazonino, portanto, a Secretaria de Educação
do Amazonas encerrou os contratos com a ENT. No ano passado, a empresa
lançou o Correio Amazonense. Fonseca disse aos procuradores
que Areosa e Guedes não passam de testas-de-ferro e que o
dono do negócio é Amazonino. O ex-governador nega
que a editora seja sua e que ela tenha sido beneficiada durante
sua gestão: "Não me lembro de ter cometido nenhum
ato desabonador durante minha administração". Eles
nunca se lembram ou jamais souberam.
O florescimento da veia jornalística
de Amazonino surpreendeu a todos. Até então, o ex-governador
mantinha uma relação conflituosa com a imprensa. Em
1997, sugeriu numa entrevista ao repórter André Muggiati,
correspondente da Folha de S.Paulo em Manaus na época,
que o papa João Paulo II era homossexual. O então
secretário estadual de Comunicação, Ronaldo
Tiradentes, exigiu que Muggiati lhe desse a gravação
da entrevista. O repórter recusou. Sua casa sofreu uma tentativa
de arrombamento, e Muggiati deixou Manaus. No mesmo ano, o jornalista
José Ribamar Bessa Freire, que criticava Amazonino, foi esmurrado
numa padaria em Niterói. Duas semanas depois, recebeu, pelo
correio, uma carta de Manaus com fotos da agressão e um bilhete:
"Esta é a lição número 1. Aguarde a
número 2". Bessa atribui a agressão a Tiradentes e
Amazonino. Com o tempo, o ex-governador foi refinando seus métodos.
Pancada, atualmente, só por escrito. No Correio Amazonino.
Opa, Amazonense.
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