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Brasil Insulto
à democracia No mais violento ataque
ao congresso nacional desde a ditadura militar, 500 sem-terra mostram todo o seu
desprezo pelo símbolo da democracia - e colhem uma crítica pífia, apenas protocolar,
do PT e do presidente Lula  Julia
Duailibi e Otávio Cabral
José
Varella/Ag. O Globo
 | CENAS
DA BARBÁRIE Os sem-terra do MLST, no momento
em que viraram e destruíram um carro que seria sorteado pelos funcionários
da Câmara: mais que vandalismo, um ataque à democracia |
As imagens de 500
militantes do Movimento de Libertação dos Sem-Terra invadindo e
depredando as dependências do Congresso Nacional parecem, à primeira
vista, conformar um ato tresloucado. Carregando pedras, galhos de árvore,
pedaços de concreto e cones de trânsito, eles invadiram o Anexo 2
da Câmara dos Deputados e saíram quebrando tudo que viam pela frente.
Viraram e destruíram um automóvel que estava em exibição
para um sorteio dos funcionários, quebraram portas de vidro blindex, terminais
de auto-atendimento, computadores, câmeras de circuito interno. Aos gritos
de "o povo unido jamais será vencido", atropelaram uma exposição
de plantas e outra de fotografias, deceparam a cabeça do busto de bronze
do ex-governador de São Paulo Mario Covas (1930-2001) e fizeram pelo menos
28 feridos um deles, Normando Fernandes, funcionário da segurança
da Câmara, foi atingido com um pedaço de concreto na cabeça,
sofreu traumatismo craniano e ficou dois dias na UTI entre a vida e a morte. Só
vândalos fazem isso. Mas as cenas da terça-feira da semana passada
não se limitam à barbárie. Elas são ao mesmo tempo
um insulto e um teste do grau de tolerância da democracia brasileira.
Por serem contra o Congresso Nacional, contra a casa das leis, a casa do povo,
contra o poder que simboliza a democracia e a liberdade, os sem-terra do MLST
fizeram um ataque frontal à consciência democrática. Talvez
seja a mais violenta e acintosa agressão à democracia desde que
a ditadura militar fechou as portas do Congresso Nacional, em abril de 1977. "Eles
atacaram em Brasília, no coração do poder, no Congresso Nacional,
que é o poder mais aberto da República. Quebraram tudo para deixar
marca. Deixam marcas como ameaça de que podem voltar", afirma o jurista
Paulo Brossard, ex-ministro da Justiça, que foi um dos mais lúcidos
combatentes do regime militar. Por que os sem-terra atacaram o Congresso? Porque
a reforma agrária não avança, os assentamentos estão
parados? Porque são marginalizados, ninguém os ouve, não
têm acesso aos parlamentares, ao presidente da República, ao Palácio
do Planalto? Nada disso. Eles têm representantes no Congresso, recebem verbas
públicas e são recebidos pelo presidente Lula no Palácio
do Planalto. O petista Bruno Costa de Albuquerque Maranhão, o líder
do MLST e do quebra-quebra da semana passada, foi recebido duas vezes por Lula
no Palácio do Planalto, uma em julho de 2004 e outra em novembro do ano
passado. Portanto, a resposta é outra: os sem-terra promoveram a baderna
contra o alvo determinado porque em sua cartilha e em sua visão de mundo
não existe lugar para o Congresso. Também não existe lugar
para a liberdade de expressão, para universidades livres, para laboratórios
de pesquisa ou para progresso científico. Lula
Marques/Folha Imagem
 | O
LÍDER E OS LUDIBRIADOS Os sem-terra detidos num
ginásio de esportes em Brasília e Bruno Maranhão, o líder do MLST, ao ser levado
para a delegacia: ele sabe o que faz, mas a massa não | Gustavo
Bezerra/Ag. Camara
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Os líderes dos sem-terra e seus protetores no governo são acometidos
do "mal de Marxzheimer", doença social que produz miséria física
e mental. Ele envenenou todo o século passado. A doença foi debelada
na Europa quando, minada pelo espírito libertário dos cidadãos,
a União Soviética se derreteu. O mal sobrevive apenas em sua forma
tropical. Seus sintomas são a hipocrisia, a estupidez, a preguiça
e a violência. Ele se alimenta de verbas públicas e de inocentes
úteis. No governo Lula transformou-se em uma verdadeira epidemia. O remédio?
Não existe cura definitiva para o mal de Marxzheimer. Sem verbas públicas,
ele definha mas não morre. Exposição à luz diminui
a virulência dos efeitos. Mas o máximo que a profilaxia consegue
é fazê-lo cristalizar-se como certos vírus, estado dormente
em que aguarda até atacar outra vez a democracia representativa, os laboratórios
de pesquisa, as empresas, enfim, tudo o que signifique progresso, prosperidade
e melhoria de vida para a maioria. Eta doença! Fotos
Lula Marques/Folha Imagem
 | OS
GENERAIS E A TROPA No vídeo os sem-terra
aparecem organizando a ocupação. Um dos líderes diz que a
oposição quer desestabilizar o governo e conclui: "...E o Lula continua
aí, tranqüilo, com 63%..." |
Os sem-terra agem com patrocínio do próprio governo federal. Na
semana passada, descobriu-se que uma tal Associação Nacional de
Apoio à Reforma Agrária (Anara), entidade fundada por militantes
do MLST, recebeu 5,7 milhões de reais do governo. O primeiro repasse, de
75.000 reais, foi feito ainda no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,
em 2000. Depois disso, a Anara ficou três anos sem receber um tostão
do governo, mas a partir de 2004 seus cofres passaram a ficar abarrotados com
doações na casa do milhão. Só naquele ano, o governo
despachou 1,4 milhão de reais para a Anara. No ano passado, foram mais
3,2 milhões. Agora, já foi pouco mais de 1 milhão de reais,
sempre a título de "reestruturação econômica, social
e cultural de assentamentos". Com isso, é o próprio governo que
sustenta o MLST e seus abusos. Em artigo publicado na semana passada, o jornalista
Carlos Alberto Sardenberg foi direto ao ponto: "A violência contra leis
e regras sociais acaba financiada pelos impostos pagos pela sociedade". Ricardo
Stuckert/PR
 | RECEPÇÃO
NO PALÁCIO Bruno Maranhão (de
óculos e camisa clara), com Lula no Planalto: entre 2004 e 2005, foram
dois encontros |
Sim, já surgiram indícios de que até mesmo o quebra-quebra
pode ter sido diretamente financiado pelos impostos pagos à União.
Na agenda de Bruno Maranhão, apreendida pela polícia, há
várias anotações com os preços da manifestação
e, ao lado de alguns números, lê-se: "União financia". A relação
financeira do governo com as entidades de sem-terra é sempre por vias tortas
porque esses movimentos são quase clandestinos. Eles não existem
oficialmente. Não são registrados na Receita Federal, não
aparecem na Junta Comercial, não possuem sequer um cadastro de pessoa jurídica.
Tudo para poder viver às margens da lei e, assim, fugir da responsabilização
judicial por seus atos. Ao aceitar repassar dinheiro por meio de subterfúgios,
o governo compactua com essa quase-clandestinidade dos movimentos sem-terra. O
MST, por exemplo, sempre recebe verba pública através da Contag,
entidade que reúne os agricultores do país, federações
ou sindicatos de trabalhadores rurais. O MLST, o MST e seus congêneres,
agindo à sombra da lei e incorrendo em reiteradas ilicitudes, podem ser
chamados de movimentos sociais? Os
movimentos sociais surgiram com a Revolução Francesa, em 1789, e
nasceram associados a um duplo rótulo: o de servirem como instrumentos
revolucionários e o de serem protagonistas de ações violentas,
como foi o ataque à Bastilha. Eles cresceram com a emergência da
sociedade industrial, sobretudo na Inglaterra, e chegaram ao apogeu como
instrumentos da revolução e da violência com a Revolução
Russa, em 1917. Mas, depois disso, em especial após a II Guerra Mundial,
os movimentos sociais foram-se adaptando à sociedade moderna e perderam
o caráter revolucionário e violento. Passaram a defender grupos
sociais, como mulheres, negros ou gays, e levantar causas em favor de toda a sociedade,
como a defesa da paz, o combate à fome, a preservação ecológica.
O Brasil abriga esse tipo de movimento e isso é saudável.
Os movimentos sociais ajudam a organizar a sociedade e a fazê-la avançar.
São apartidários, têm mandato, líderes conhecidos e
vivem à luz do dia, promovendo ações transparentes. Mas no
Brasil, lamentavelmente, ainda subsistem os movimentos sociais nos moldes do século
passado, congelados no atraso e na velha idéia de servirem como instrumento
de mudanças revolucionárias que, comprovadamente, só ajudam
a trocar alguns opressores por outros. Roberto
Castro/AE
 | CENA
DE IMPUNIDADE Os sem-terra do MST na sala da
fazenda dos filhos do presidente FHC, em março de 2002: nada aconteceu
|
Os movimentos de
sem-terra são o exemplo mais acabado dessa distorção. "Os
sem-terra têm a lógica do terrorismo, do autoritarismo. Querem ocupar
o Estado pela violência, com métodos ultrapassados. Não aceitam
o diálogo com quem tem pensamento diferente", afirma o professor e filósofo
Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas. Na mão dessas organizações
de sem-terra, a reforma agrária, em geral, é apenas um pretexto
de luta, cujo objetivo final é a revolução. A corrente Brasil
Socialista, que existe dentro do PT e é a força político-partidária
do MLST, prega isso com franqueza em seus documentos. Num deles, diz que a reforma
agrária é a bandeira mais acertada para ser levantada, não
porque poderia distribuir justiça no campo ou emancipar trabalhadores rurais
da miséria, mas simplesmente porque tem maior potencial para atiçar
a rebeldia revolucionária por tratar-se da causa mais "nacional" e "massiva"
do momento. Ou seja: tem mais potencial para atrair os incautos.
Mesmo assim, os sem-terra são tratados com extrema leniência pelas
autoridades do governo, do Congresso, da Justiça. Não é
uma novidade. No governo de Fernando Henrique, os sem-terra também eram
vistos como interlocutores legítimos, mesmo quando cometiam atos flagrantemente
ilegais, e sempre foram contemplados com dinheiro público. No governo Lula,
os privilégios se agravaram. Com força total, retomou-se a distribuição,
suspensa na gestão anterior, de cestas básicas aos sem-terra. Só
no ano passado, foi despachado 1,9 milhão de cestas, mais do que o dobro
das 715.000 do ano anterior. O governo atual ainda estuda incluir os sem-terra
como beneficiários do Bolsa Família, o principal programa oficial
de assistência. Além disso, Lula ignora a lei segundo a qual uma
terra invadida não pode ser desapropriada. No governo anterior, essa lei
conseguiu estancar as invasões de terra. Agora, com o sinal verde dado
pelas autoridades, as invasões voltaram a reinar. Nos três primeiros
anos de mandato de Lula, ocorreram 770 invasões a imóveis rurais,
55% mais do que as 497 ocorridas nos três últimos anos do governo
tucano. Ricardo
Stuckert/PR
 | IMPUNIDADE,
DE NOVO Grupo de agricultores da Contag solta
peru na mesa do ministro, em 1997: também não houve nenhuma punição |
Com financiamento e cesta básica, os sem-terra contam ainda com um fator
primordial para cometer ilegalidade: a impunidade. Em maio de 1997, um grupo de
agricultores da Contag invadiu o Ministério do Planejamento com porcos,
patos, galinhas e bodes. Um peru foi colocado sobre a mesa do ministro
e o que aconteceu? Quatro foram indiciados, dois sofreram processo, mas um foi
inocentado, e o outro, beneficiado pela prescrição do crime. Em
março de 2002, na ação mais debochada e ousada de sua história,
sem-terra do MST invadiram a fazenda dos filhos de Fernando Henrique Cardoso.
O que aconteceu? Dezesseis foram indiciados, mas o Ministério Público
achou que eram todos inocentes, e a Justiça concordou. O que se pode esperar
que aconteça com os sem-terra que, em março passado, sob a liderança
de mulheres de uma tal Via Campesina, invadiram uma propriedade da Aracruz, no
Rio Grande do Sul, arrancaram milhares de mudas de eucalipto e destruíram
um laboratório de pesquisas?
Na semana passada, outro elemento favoreceu as ilicitudes cometidas pelos sem-terra
a reação pífia do governo ao ataque contra o Congresso
Nacional é um sinal evidente da simpatia que une os baderneiros do MLST,
o governo e o PT. De início, Lula limitou-se a lançar uma nota em
que dizia que "o grave ato de vandalismo" deve ser tratado "com o rigor da lei".
Nada mais. "Dada a extrema gravidade do ocorrido, era de esperar que o presidente
da República fosse além dessa reação 'protocolar'.",
diz um editorial publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, ao acrescentar
que Lula poderia ter convocado "uma rede nacional de rádio e televisão
para manifestar ao país, de viva voz e em termos compatíveis com
a dimensão do acontecimento, sua repulsão pela depredação
da Casa das Leis e sua aversão pelos seus autores, incentivadores e cúmplices".
Deveria ter feito mais. Deveria ter anunciado o imediato corte de verbas para
todas as organizações de sem-terra, sem-teto, sem-limites, que usam
impostos gerados pela sociedade a cuja destruição eles visam. Por
que a reação leve, quase tolerante? Porque o PT e os sem-terra comungam
de uma certa antipatia contra o Congresso, visto como instrumento da "democracia
burguesa". É... eles chamam eleição, voto secreto, multipartidarismo,
liberdade de expressão, economia de mercado de "democracia burguesa". No
mundo de sonhos dos baderneiros pagos com o dinheiro produzido pela "economia
burguesa", o sistema ideal seria uma certa "ditadura do proletariado" estágio
superior do "mal de Marxzheimer", em que toda inteligência e consciência
individuais são destruídas e substituídas pela vontade de
um ditador. Ao abrigar essas correntes e dar apoio
a esses movimentos, o PT cai no equívoco histórico de achar que
é com eles que o país vai avançar. Porque o PT já
deu sinais evidentes de que trata os movimentos sociais como linha auxiliar. Em
meados do ano passado, no auge da ameaça de impeachment, o então
presidente do partido, Tarso Genro, e hoje ministro do governo, disse nas entrelinhas
que, caso o mandato de Lula fosse ameaçado, o PT acionaria os movimentos
sociais. Na semana passada, falando do vandalismo na Câmara e da resposta
tênue do governo e do PT, um editorial do jornal O Globo lembrou
as referências de Genro feitas no ano passado e disse: "Deverão ser
entendidas como uma ameaça inaceitável de ruptura institucional
violenta contra a sociedade brasileira, caso o projeto de poder petista seja contrariado
nas urnas um dia". É disso mesmo que se trata. O Globo foi direto
ao ponto. A fala de Tarso Genro tem todos os ingredientes da chantagem dos terroristas:
"Ou vocês atendem às nossas exigências ou explodiremos o avião".
A ocupação do Congresso
foi um ato minuciosamente preparado pelos líderes dos sem-terra. Um vídeo,
com uma hora e dezoito minutos de duração, é prova material
da premeditação. A invasão foi planejada nos moldes de uma
operação militar. Havia uma estratégia clara, os alvos estavam
definidos, os prováveis pontos de resistência do inimigo identificados,
enfim, tudo minuciosamente estudado pelos comandantes. Como numa operação
militar, o planejamento era discutido em códigos. Os invasores eram os
"convidados", e o alvo principal, o Salão Verde da Câmara dos Deputados,
era o "salão de baile". A fita de vídeo mostra que havia uma espécie
de estado-maior dos sem-terra. Na véspera da invasão, três
líderes do MLST aparecem em uma gravação discutindo os detalhes
finais da operação. "Nós vamos falar para o Brasil que tipo
de reforma agrária que nós queremos. Nós vamos dizer para
o Brasil o que é que essa corja de PFL e PSDB está fazendo com o
Brasil quando deixou de votar o Orçamento da União, só aprovado
em maio, achando que estava atingindo o Lula", afirma Antonio José Arruti
Baqueiro, um dos generais da tropa sem-terra e também vinculado ao PT,
para concluir: "...E o Lula continua aí, tranqüilo, com 63%...". Baqueiro
assessora Yulo Oiticica, deputado estadual do PT na Bahia. Ganha 2.800 reais.
Nas imagens, não há
um convite explícito à depredação, mas fica claro
que ninguém deveria fugir de um eventual confronto. "Deixar de levar umas
bolachas, dar uns pontapés, ninguém vai deixar não, pode
acontecer", diz outro general, Joaquim Ribeiro. E arremata: "Para isso é
que os companheiros foram escolhidos a dedo. Se levar um, dá dois". Joaquim
Ribeiro foi filiado ao PT durante seis anos, entre 1998 e 2004, e chegou a presidir
a legenda em Cascavel, no interior do Paraná. Organizado, o MLST enviou
a Brasília, duas semanas antes, espiões para identificar os pontos
vulneráveis da segurança do Congresso. Na véspera da invasão,
um grupo foi encaminhado para fazer o reconhecimento da área. No dia do
ataque, esse mesmo grupo voltou ao Parlamento e ocupou posições
estratégicas antes da chegada dos ônibus trazendo cerca de 500 manifestantes.
"Muitos companheiros que estão chegando não sabem o que estão
fazendo em Brasília", diz na gravação um dos generais. Mesmo
numa guerra, os soldados devem saber por que estão lutando e os riscos
que estão correndo. No caso dos sem-terra, nem isso. Moacyr
Lopes Junior/Folha Imagem
 | O
TRIUNFO DO CRIME O Aeroporto de Congonhas, em
São Paulo, o mais movimentado do país, vazio numa segunda-feira:
silêncio imposto pela quadrilha do PCC |
Uma boa parte da massa que compõe o MLST, bem como outros movimentos de
sem-terra, inclusive o MST, a organização mais conhecida, é
formada por brasileiros pobres e humildes, que querem apenas um meio para melhorar
de vida. Gente simples que, em condições de normalidade, jamais
patrocinaria cenas de vandalismo explícito como as da semana passada. Francielli
Denizia Asêncio, 20 anos, é um exemplo. Com piercing na sobrancelha
e tatuagem nas costas, Francielli foi flagrada destruindo os terminais de auto-atendimento
com uma viga de ferro. Acabou presa junto com os outros 536 sem-terra, que passaram
a noite num ginásio de esportes. Ela própria não sabe dizer
o que se passou. "Não sei explicar, foi uma coisa errada, aconteceu de
improviso", diz. Outro exemplo comovente de como a gente humilde vira instrumento
na mão de líderes inescrupulosos é o caso de Arildo Joel
da Silva, 21 anos, acusado de desferir o golpe que produziu o traumatismo craniano
no funcionário da Câmara. O pai do garoto, Aldo da Silva, entrevistado
pelo Jornal Nacional na quarta-feira passada, exibia todo o seu
desespero e, com voz embargada, dizia não entender as razões que
levaram seu filho a fazer isso. Os
líderes do quebra-quebra, no entanto, têm biografia inteiramente
diferente. Eles sabem onde estão e o que fazem. Bruno Maranhão,
por exemplo. Ele tem 66 anos, é engenheiro mecânico e membro de uma
abastada família de usineiros de Pernambuco. Já militou nas Ligas
Camponesas do velho Francisco Julião, ajudou a fundar um partido comunista,
o PCBR, e passou anos de exílio no Chile e na França. Ao voltar
para o Brasil, foi fundador do PT, em que se revelou bom de agitação
e ruim de voto. Entre 1982 e 1985, perdeu duas eleições, uma para
o Senado e outra para a prefeitura do Recife. Até a semana passada, esse
agitador profissional era membro da direção do PT, tinha assento
na comissão que coordena a reeleição de Lula e era ainda
secretário Nacional de Movimentos Populares. Por suas atividades como dirigente
petista, ganha 6.800 reais por mês. Assim que seus vínculos partidários
vieram a público, o PT tratou de afastar Maranhão da direção
e abrir um processo no conselho de ética. Como Maranhão era tão
enfronhado no partido, e era recebido por Lula em palácio, ficou a impressão
de que o PT só reagiu assim com medo da exploração eleitoral
do episódio, que reaviva na memória a imagem do PT como instrumento
da baderna. "Essa barbárie
vai causar profundas marcas na sociedade brasileira. Mais do que a violência
do PCC. Dessa vez, foi um ataque flagrante às instituições",
interpreta o jurista Manoel Gonçalves Ferreira Filho, especialista em direito
constitucional. Um ataque às instituições, ao contrário
do que o PT e o governo parecem entender, é gravíssimo. Como o Brasil
pode aspirar a um papel internacional se num mês o PCC pára sua maior
cidade e no mês seguinte um bando de vândalos paralisa o Congresso?
Respeitar as instituições não é recomendável
apenas por mandamento legal, mas sobretudo porque é com instituições
sólidas e inatacáveis que se constrói o futuro de uma nação,
como já demonstrou o americano Douglass North, que recebeu o Nobel de Economia
em 1993. North é o criador da tese segundo a qual sem instituições
sólidas um país simplesmente não avança. E as instituições
as leis, os contratos, a Justiça, os partidos, o Parlamento etc.
são obras de construção lenta. São a síntese
da história de um povo, um resultado de suas crenças, de sua visão
de mundo, de suas tradições e experiências. É por isso
que são diferentes ao redor do mundo. É por isso que não
se erguem instituições de um dia para outro mas se pode destruí-las
rapidamente. É o que querem o MLST e seus cúmplices. O governo se
aproveita disso para chantagear os adversários e a sociedade, como Tarso
Genro mostrou com clareza. Quem nos defende?
Surrada e ameaçada de morte pelo MST
Ex-militante é espancada por revelar crimes dos sem-terra
 Leonardo
Coutinho
Leonardo
Coutinho
 | "UM
DOS SEM-TERRA DISSE QUE SE EU TENTASSE FUGIR TOMARIA UM TIRO ANTES DE CONSEGUIR
COMPLETAR DEZ PASSOS." Marivalda
Aguiar Braga, ex-militante do MST
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A cabeleireira
Marivalda Aguiar Braga, de 35 anos, viveu durante dez meses no acampamento Padre
Josimo, erguido pelo MST numa fazenda ocupada em Acará, no Pará.
Em maio deste ano, decidiu deixar o local. Foi espancada e ameaçada de
morte. Em entrevista a VEJA, Marivalda fala sobre o que passou entre os
sem-terra. "Fui para o
acampamento Padre Josimo com a ilusão de que ganharia terra de graça
do MST. Mas lá só encontrei violência. Vivi dez meses com
os sem-terra. Descobri que quem manda no acampamento é um grupo de bandidos.
Para mim, a gota d'água foi quando um dos companheiros chegou baleado.
Acho que ele foi ferido numa troca de tiros com jagunços, porque eles saíam
para assaltar e matar gado a tiro. O pessoal do MST não tem piedade. Coloca
fogo até na casa dos peões. Isso eu não admito, porque eles
são pobres como eu. Quando vi o sujeito baleado, pensei: 'Se ficar aqui,
quem pode acabar levando bala sou eu'. Então, fui escondida a Belém
e contei à polícia tudo o que acontecia dentro do acampamento. O
problema é que tive de voltar para buscar minhas coisas, que tinham ficado
lá. "Peguei tudo o que tinha
e fui para um porto pegar um barco para Belém. Quando eu já estava
na beira do rio, apareceram dois militantes. Um carregava uma espingarda e o outro,
um terçado (facão). Disseram que o Reis (Wellington Raimundo
Reis, chefe do acampamento) queria falar comigo. Eu disse que não ia.
Aí, eles me pegaram pelo braço. Caí no rio, mas eles me pegaram
de novo e me arrastaram. Puxaram minha blusa com tanta força que meu peito
saltou para fora. Eles me chamaram de traidora, vagabunda, prostituta. Logo depois,
o Reis apareceu no porto. Ele pegou a espingarda do militante, deu um tiro para
cima, encostou o cano na minha testa e disse: 'Vem cá, ô vagabunda,
o que você falou para a polícia? Quanto o dono da terra te pagou
para entregar a gente?'. "Aí,
me arrastaram pelo mato até o acampamento. Lá, me sentaram em uma
cadeira, dentro de uma barraca. Um militante me deu um soco no meio do peito.
Senti como se todos os meus ossos estivessem saindo do lugar. Foi uma dor horrível.
Você sabe o que é levar um soco de mão fechada de um homem
no meio do peito? A força foi tanta que caí para trás, com
cadeira e tudo. O Reis riu e falou: 'Vagabunda, traidora tem que apanhar. Bate
mesmo, pessoal'. Um militante disse que ia me cortar com um terçado. Reis
esfregava a espingarda no meu pescoço, no meu peito e no meu rosto. Aí,
confessei que tinha ido à polícia, mas inventei que era para resolver
um problema do meu marido, que estava preso. Na verdade, ele é ex-presidiário.
Cumpriu pena por assalto a mão armada. Está na condicional. Os militantes
desconfiaram da minha história. Disseram que iriam falar com a advogada
da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) em Belém,
para ver se meu marido estava na cadeia mesmo. Se fosse mentira, eu ia morrer.
"Tomamos um barco para Belém.
Na viagem, ficavam me mostrando um revólver a toda hora. Um dos sem-terra
disse que se eu tentasse fugir tomaria um tiro antes de conseguir completar dez
passos. Ele dizia que tinha sido polícia e me acertaria de primeira. Quando
chegamos à CNBB, falei para uma advogada dos padres que meu marido estava
na prisão. Era mentira, mas acho que eles acreditaram. Depois de muita
conversa, acertamos que eu iria até minha casa em Belém, para buscar
os documentos do meu marido, e voltaria no dia seguinte. Saindo de lá,
fui direto para a delegacia. O delegado me mandou para a Polícia Federal.
"Contei que todo mundo que vive no
Padre Josimo deixou suas casas em Belém pela promessa de ganhar terra e
cesta básica. Quem fez as promessas foi o Reis. Ele organiza reuniões
na periferia. No ano passado, meu marido e eu fomos a uma delas. O Reis disse
que a gente deveria ir para uma terra no Acará. Ele garantia que a fazenda
não tinha documento e que estava tudo certo com o Incra para a gente entrar.
Disse que ia ter lona para montar as barracas e que o governo ia mandar cesta
básica. Na reunião, explicaram que quem não pudesse deixar
o trabalho para começar a invasão podia colaborar com dinheiro.
Eles cobram uma mensalidade de 30 reais para deixar no cadastro o nome de quem
não fica no assentamento. O pessoal paga para ter direito a um lote quando
a reforma agrária chegar. Como meu marido estava desempregado, topamos.
Ele ficou em Belém e eu fui com o filho da gente.
"Uma semana depois de entrarmos na terra, as cestas básicas
do Incra começaram a chegar. Não falhou um mês. Chegavam até
mais cestas do que a gente precisava. Reis ficava com o que sobrava. Ele dizia
que era para vender e fazer dinheiro para as despesas do acampamento. Mas o pessoal
dizia que ele usava as cestas para manter a família dele e os militantes
de Belém. Fui nomeada coordenadora de saúde, porque sei ler bula
de remédio e fazer massagem. Nunca gostei de viver lá. O pessoal
vive armado. É um antro. Tinha até acampado que vivia de assaltar
os barcos que passavam pelo rio. Não fui para lá para virar bandida.
Coloquei a vida do meu filho em risco. Queria que a promessa deles fosse de verdade,
mas o MST é feito de mentiras. "Três
dias depois do meu depoimento, os policiais me levaram ao acampamento para prender
o pessoal. Fui para identificar quem andava armado, mas escondi o rosto com uma
touca. Chegamos lá com oito policiais em duas viaturas. Na hora, os acampados
cercaram a gente e disseram: 'Se quiser levar um, vai ter que levar os 300'. Fomos
embora sem prender ninguém. Hoje, vivo escondida do MST. Tenho medo do
que pode acontecer comigo." | | |