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Entrevista:
Marco Aurélio Mello Acabou
a farra Ele jogou uma bomba no mundo
político (e voltou atrás) e agora promete: nesta eleição,
não haverá impunidade  Policarpo
Junior
Ana Araújo
 | "Os
candidatos não têm freios inibitórios mais rígidos
e usam descaradamente a máquina pública em benefício próprio"
| | Na
semana passada, o ministro Marco Aurélio Mello, presidente do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), viveu dias de tumulto. Numa decisão que provocou
uma hecatombe no mundo político, o TSE resolveu, capitaneado pelo voto
do ministro, que partidos sem candidato a presidente só poderiam fazer
alianças estaduais com legendas que estivessem em idêntica situação.
Dois dias depois, ao analisar um pedido de reconsideração, o TSE,
outra vez seguindo voto de Marco Aurélio Mello, anulou a decisão
anterior. "Constatei que eu dera uma interpretação errada", reconhece
ele. "Permanecer no erro é que seria terrível." Quem elogiou a coragem
do ministro por sua primeira decisão criticou-o duramente na hora da segunda
e vice-versa. Aos 59 anos, às vésperas de completar dezesseis
anos no Supremo Tribunal Federal, Mello se prepara para ser o xerife nacional
das eleições de outubro e, bem ao seu estilo objetivo, manda dizer
que a Justiça Eleitoral estará de olho nos candidatos. Nesta entrevista
a VEJA, ele assegura: "O sentimento de impunidade está excomungado. Isso
eu garanto". Veja
Por que o Tribunal Superior Eleitoral radicalizou sua interpretação
sobre a verticalização e, 48 horas depois, fez exatamente o contrário?
Mello O problema é que nós partimos de uma premissa
errada segundo a qual o Supremo Tribunal Federal, ao julgar uma ação
direta de inconstitucionalidade que tratava de mudanças das regras eleitorais,
havia se pronunciado expressamente quanto à verticalização
em todos os níveis. Isso não aconteceu. Fui às notas taquigráficas
e constatei que eu dera uma interpretação errada à decisão.
Houve falha. Eu, que fui o voto condutor do primeiro julgamento, dei a mão
à palmatória. Veja
Esse tipo de vai-e-vem, que provoca insegurança jurídica,
não acaba desmoralizando a Justiça? Mello
Não somos infalíveis. Enquanto a Justiça for obra do homem,
ela será passível de falha. É preciso que o leigo entenda
isso. Não somos máquinas, não somos computadores, não
lidamos com ciência exata. Interpretei de maneira equivocada uma decisão
que ainda não foi publicada no Supremo. Permanecer no erro é que
seria terrível. Não voltar atrás em uma decisão seria
descumprir um dever inerente à magistratura. Isso é honestidade
de propósito. Veja
O TSE chegou a ser acusado de pavimentar o caminho para a reeleição
do presidente Lula... Mello Fui procurado por políticos
que argumentaram que a decisão do TSE resultaria numa vitória eleitoral
fácil para o atual presidente da República. Compararam a um rolo
compressor, mas não se trata de um argumento jurídico. No meu caso,
portanto, isso não pesa na hora de decidir. Veja
O que mais preocupa nas eleições deste ano? Mello
A preservação de um campo que viabilize uma disputa em
igualdade de condições entre todos os candidatos, embora seja difícil
imaginar esse cenário com um candidato à reeleição
permanecendo na cadeira da Presidência. Isso é uma vantagem incrível.
Se é difícil você desafiar alguém que já mostrou
seu trabalho, imagine alguém que continua na cadeira. Vai gerar uma disputa
bastante acirrada, com a tendência de que os candidatos acabem exorbitando
e praticando atos não contemplados na lei. A fronteira entre o que é
institucional e o que é eleitoral, por exemplo, é muito tênue.
Há uma mescla entre a atuação do governante e sua candidatura.
Veja É
a segunda vez que o país está enfrentando uma reeleição
presidencial. A situação agora está mais complicada do que
foi em 1998? Mello Provavelmente sim. Já registramos
extravasamento no campo da propaganda eleitoral, o que não aconteceu no
passado. O presidente da República foi até multado em processo do
qual fui relator. O presidente da República conta com uma maior valia na
disputa, e isso deve se restringir ao cumprimento do mandato. O afã de
conseguir êxito em outubro próximo pode levar alguns a tentar colocar
em segundo plano as regras do pleito. Veja
A reeleição é ruim para o Brasil? Mello
A questão não está no objeto, está no meio
que se aciona para chegar a essa reeleição. Eu diria que a reeleição
não faz parte da nossa tradição. Os candidatos não
têm freios inibitórios mais rígidos e, muitas vezes, usam
descaradamente a máquina pública em benefício próprio.
Veja O presidente
Lula está usando a máquina? Melo A situação
é ambígua, pois não se sabe claramente o que pode e o que
não pode ser feito. É por isso, aliás, que temos o Judiciário.
Se fosse algo matemático, o computador resolveria o problema. Por outro
lado, eu mesmo sou relator de inúmeros processos em que o Executivo está
tendo a cautela de consultar o tribunal antes de fazer publicidade institucional.
Isso evidencia que já está havendo uma preocupação,
o que é bom. Temos de começar realmente a mostrar que é preciso
haver uma fidelidade maior ao que está na legislação. A ilegalidade
não pode prevalecer. A Justiça Eleitoral estará atenta. É
importantíssimo que candidatos à reeleição também
estejam atentos para depois não se mostrarem surpresos.
Veja Ao tomar posse na presidência
do TSE, o senhor fez um discurso deplorando o cinismo das autoridades, as mentiras
deslavadas, as explicações grosseiras e concluindo que somos o país
do faz-de-conta. Mello Os últimos acontecimentos
políticos revelam essa desfaçatez. Os escândalos estão
nas manchetes e algumas autoridades preferem fazer de conta que eles não
existiram. Outras fazem de conta que não sabiam de nada, esperando que
o eleitor também faça de conta que não entendeu o que está
acontecendo. Aliás, o cidadão comum tem uma responsabilidade muito
grande nesse mundo de enganação. Só ele pode dar um basta
a isso. Os eleitores são convocados e não devem permitir que a apatia
prevaleça. É hora de acordar. É hora de perceber que temos
uma responsabilidade maior com o Brasil de amanhã.
Veja O presidente Lula e outros petistas
fizeram de conta que nem houve mensalão. O senhor está dizendo então
que reeleger Lula seria um equívoco? Mello Respeito
a opinião do eleitor. O que eu quis dizer é que, de uma forma geral,
na hora de escolher, o eleitor deve indagar quanto ao perfil do candidato, seja
a deputado, senador, governador ou presidente. O meu discurso é impessoal.
Agora, se a carapuça serve na cabeça de alguém, não
tenho culpa. Veja
O mensalão existiu? Mello Não quero falar
disso, pois, como ministro do Supremo Tribunal Federal, terei de julgar esse assunto.
Mas posso dizer simplesmente que, com 59 anos de idade, não acredito mais
em Papai Noel... Veja
O Supremo Tribunal Federal, ao impedir depoimentos nas CPIs, autorizar testemunhas
a ficar caladas ou proteger o sigilo bancário de suspeitos, não
deu uma contribuição decisiva para a criação desse
ambiente de faz-de-conta? Mello O problema é que
a corte caiu quase numa automaticidade, como se jurisdição fosse
bateção de carimbo. Não é. Não podemos generalizar
as definições. No caso do mandado de segurança do ex-ministro
José Dirceu, por exemplo, o tribunal deu uma decisão preventiva,
que obviamente interferia no processo do Legislativo. Fui contra, mas fiquei sozinho.
Os argumentos do ex-ministro eram que o relatório da CPI não podia
conter nem isso nem aquilo. Ora, o correto seria esperar o relatório e,
depois, o prejudicado procuraria o Judiciário, se houvesse a lesão.
Não podemos presumir a lesão tendo em conta a atividade de outro
poder. Veja O Judiciário
então errou? Mello O fato é que o Judiciário
está ficando mais sensível depois de todos esses escândalos.
Recentemente, indeferi o habeas corpus impetrado por Silvio Pereira e por Delúbio
Soares. Houve também o indeferimento de um mandado de segurança
em favor do deputado José Janene. Fica evidente que há uma mudança
de enfoque. A interpretação da lei é um ato de vontade e
pode atender aos interesses coletivos primários, das pessoas em geral,
ou não atender. Veja
A mudança do STF tem relação com a saída de Nelson
Jobim, que trocou a magistratura pela política? Mello
A ministra Ellen Gracie sabidamente busca uma austeridade maior e o implemento
da liturgia que é inerente ao Judiciário.
Veja O ex-ministro Nelson Jobim não
tinha a mesma preocupação? Mello O ministro
Nelson Jobim era um homem mais solto. A saída dele para a advocacia ou
para a política, quem sabe, mostra que seu objetivo maior não era
atuar como juiz. Eu, por exemplo, não consigo me ver saindo do tribunal
para exercer outra atividade. A missão de julgar deve ser de pessoas vocacionadas
para ela. Veja O
TSE está preocupado com um crescimento vertiginoso do voto nulo? Mello
Temos percebido o aparecimento de defensores do voto nulo nas camadas
mais esclarecidas da população. Isso é preocupante. É
um movimento que vem tomando corpo. Quando formadores de opinião desistem,
a coisa fica muito ruim. Vamos atuar numa conscientização do eleitor
para o significado da ida às urnas, o exercício da cidadania na
plenitude maior daqueles que merecerão o voto. Ele é partícipe
da grande obra que precisa ser implementada. Veja
Mas o voto nulo não é um direito do eleitor? Mello
Quando a Constituição estabelece o voto obrigatório,
ela determina a necessidade de o eleitor se manifestar, e se manifestar de forma
concreta. Ao votar nulo, ele não se manifesta, simplesmente lava as mãos,
como se dissesse "Eu não tenho nada a ver com isso que aí está".
Tem, sim, porque ele sofre as conseqüências de uma escolha errada.
Devemos proceder à melhor escolha possível. Até mesmo colocando
em plano secundário o fator ideológico. A impunidade, ao meu ver,
não pode vingar. Se houver a fuga generalizada, nós correremos o
risco de aqueles que têm votos de cabresto serem os vitoriosos.
Veja Um dos ingredientes do escândalo
que engolfou o governo e o PT é o chamado caixa dois eleitoral. É
grande o risco de que o mesmo crime volte a acontecer nestas eleições?
Mello A nova legislação, que proíbe brindes,
camisetas e showmícios, vai baratear as campanhas. Não temos obviamente
como fiscalizar o financiamento em sua integralidade. Afinal, onde o homem põe
a mão, o desvirtuamento é possível. Mas a lei agora é
rigorosa e, flagrada a ilicitude, o candidato não será diplomado.
Os gastos de campanha serão fiscalizados com o acompanhamento da conta
que será aberta para esse fim. Veja
Leis que proíbem o caixa dois sempre existiram e nunca resolveram
o problema. Mello Nas eleições passadas, a
lei estabelecia um prazo de apenas dez dias a partir da diplomação
para a impugnação do mandato. O candidato ia responder ao processo
em pleno exercício da função. Havia uma cicatrização
do mal pela passagem do tempo. O partido ou a coligação apenas indicava
o que imaginava gastar e aí, quando havia o extravasamento, isso gerava
somente multa sobre o excesso. Hoje, a lei ficou mais rigorosa. Só se pode
gastar numerário que tenha sido depositado previamente naquela conta que
é aberta antes da campanha. Isso vai tornar as finanças muito mais
transparentes para o eleitor e para a Justiça Eleitoral.
Veja Apesar desse aprimoramento da legislação,
o que impede a repetição de irregularidades como a do publicitário
Duda Mendonça, que recebeu dinheiro de caixa dois em contas secretas no
exterior? Mello Em primeiro lugar, as pessoas estão
hoje muito mais bem avisadas do que estiveram ontem. Ou seja: os partidos opositores
ou os da situação que estejam caminhando no sentido do êxito
na reeleição estarão atentos. Hoje, ao meu ver, não
se consegue mais esconder as coisas. A lei agora prevê a não-diplomação
ou a cassação do diploma para quem cometer ilícitos na arrecadação
de fundos e nos gastos. Será que os políticos se sentirão
seguros para continuar usando caixa dois? A pena é muito rigorosa, e não
pensem que a Justiça vai tergiversar. Não vai. A Justiça
está atenta ao momento nacional, que é o de purificação
das condutas dos homens públicos. Veja
O senhor acredita então que no campo ético estas eleições
serão realmente diferentes? Mello As eleições
serão muito acirradas, e muito problemáticas por causa do instrumento
da reeleição. Mas uma coisa eu garanto: não ocorrerá
perplexidade quanto à atuação do Judiciário. O risco
de quem comete ilicitudes ser flagrado é muito grande. Acredito que já
não se podem mais esconder, escamotear desvios de conduta. Eles afloram:
os cidadãos, a imprensa, o Ministério Público estão
muito atentos. É preciso que os candidatos estejam mais espertos do que
estiveram nas últimas eleições. O sentimento de impunidade
está excomungado. Isso eu garanto. No que depender da Justiça Eleitoral,
nós teremos uma eleição com tratamento igualitário
aos candidatos e, quem sabe, dependendo muito dos eleitores, teremos também
um outro Brasil que não este que estamos vivenciando.
Veja O senhor se mostra muito preocupado
com a reeleição, mas o presidente Lula nem sabe ainda se será
candidato, não é mesmo? Mello É verdade.
Uma vez ele admitiu que estaria 365 dias em campanha, mas depois andou corrigindo,
e hoje ainda não sabe se concorrerá ou não à reeleição.
Quem sabe ele desista. |