A griffe e o aviãozinho
A sugestão de facilitar aos jovens
das favelas
a compra de artigos da moda esconde
um apelo desesperado
Que há em comum entre a griffe e o "aviãozinho"?
Pelo menos, há uma coincidência histórica:
ambos surgem na mesma época, em algum ponto da década
de 80. A griffe sabe-se o que é: "garra",
em francês. Ou, no nosso tempo e no nosso mundo, a
marca de um produto comercial, tão forte, ou tão
fortemente trabalhada, junto à cabeça do consumidor,
que pega como garra. O aviãozinho, segundo a gíria
que, do Rio de Janeiro, se espalhou pelo país, é
o menino que, a mandado dos traficantes, leva e traz a droga.
Faz tempo que, na História e na mitologia, a criança
é associada a mensageiros. A criança Éros
é um mensageiro do amor. Os anjos da tradição
judaico-cristã também são mensageiros
e, na pintura a barroca, por exemplo , são quase
sempre crianças. Os três Éros, os
anjos da Bíblia e o aviãozinho têm
ainda em comum o fato de portar asas ou, no caso do aviãozinho,
invocar engenhos alados. A diferença é que
os anjos e Éros são mensageiros do céu
e do Olimpo. O aviãozinho vive também num
lugar alto, o morro, mas o destino mais freqüentemente
o precipitará aos infernos da violência, da
casa de correção, da morte prematura.
A afirmação de que a griffe e o aviãozinho
surgem ambos na década de 80 requer explicação.
Não que a griffe inexistisse antes. A da moda,
que aqui nos interessa mais de perto, existe pelo menos
desde Chanel e Dior, ou seja, desde os longínquos
primórdios do século XX. Mas a explosão
da griffe, sua massificação e vulgarização,
é recente. Chanel e Dior só faziam sentido
para o mundo dos ricaços, poucos e fechados em si
mesmos. Nos anos 80, a griffe rompe as últimas
barreiras. Seu poder sedutor deixa de agir só sobre
um grupelho de privilegiados. A droga, e mais especificamente
a cocaína, também vinha de longe. Mas sua
explosão ocorre nos mesmos anos, e de tal forma que
seus pontos-de-venda se multiplicam pelos morros, e dão
origem a figuras como a do aviãozinho.
Estas considerações vêm a propósito
de uma reunião realizada no último dia 1º
no Ministério da Justiça, entre autoridades
do governo, inclusive o próprio ministro da Justiça,
e representantes de comunidades de favelados do Rio de Janeiro
e de Belo Horizonte. O objetivo era discutir medidas que
sirvam ao plano antiviolência em elaboração
no governo. Um dos presentes, o carioca Celso Peres, líder
comunitário no Morro da Mangueira, sugeriu que se
instituísse uma espécie de bolsa para que
os jovens favelados pudessem comprar os produtos da moda.
É por cobiçá-los, argumentou, que eles
se envolvem com o crime. O jornal O Estado de S. Paulo
noticiou a sugestão numa nota cujo título
era "Surrealismo".
O governo instituir uma bolsa para que os meninos e meninas
do morro comprem tênis X, camiseta Y e jeans Z, vá
lá, seria surrealismo. Mas o diagnóstico de
Celso Peres aponta para uma questão crucial. Que
são as crianças do morro nascidas a partir
dos anos 80? São seres expostos à confluência
de dois fenômenos então recentes: a universalização
da televisão e o maciço investimento da indústria
e do comércio no consumidor juvenil. A TV, àquela
altura presente em cada recanto, mesmo na favela, traz o
apelo ao consumo por via das novelas, dos anúncios
ou da Xuxa. E entre os artigos que oferece, ao contrário
dos tempos de Chanel, em que moda era coisa para pessoas
maduras, e só para elas, inclui-se uma vasta gama
de itens direcionados aos jovens. A griffe, e em
especial a griffe que fala aos jovens, é uma
deusa tão presente que se insinua até pelas
frestas do barraco.
Na explosão simultânea da griffe e
da cocaína há mais que uma coincidência
histórica, na verdade. Há uma colisão.
A griffe vinha de um lado, a cocaína de outro,
e ambas produziram uma pororoca que estourou na cabeça
do aviãozinho. Engana-se, no entanto, quem pensa
que a griffe é apenas uma griffe. Não,
o tênis da marca da moda não é apenas
um tênis. É o título de sócio
de um clube. É a maneira de proclamar aos outros,
e ao mundo, e a si mesmo, que se tem pelo menos o pé
no time dos melhores, os mais bem-sucedidos, os bacanas.
Não são poucos os que se aventuram pelos riscos
do ofício de aviãozinho, e daí para
o crime, movidos pelo desejo de entrar nesse time.
Ao estabelecer a relação entre o apelo do
consumo e a opção pelo crime, entre os jovens,
não se está aqui oferecendo novidade alguma.
Novidade é o que Celso Peres, o representante da
Mangueira, propõe: um subsídio que substitua
o tráfico, como meio de o jovem ter acesso aos artigos
da moda. De certa forma, é uma rendição
ao consumismo. Um segundo caminho seria oferecer aos jovens
outros valores como alternativa, mas talvez esse seja ainda
mais complicado, e até surrealista, para repetir
a palavra usada no Estado, dada a força com
que já se implantou o consumo. O certo é que
por trás do diagnóstico de Peres se esconde
uma questão-chave e se insinua um apelo desesperado.
Que oferecer aos jovens? Os jovens (e as crianças)
pobres são uma presa fácil demais, frágil
demais, num mundo em que o glamour das griffes se
sobrepõe à feia realidade que os cerca.