Machão sensível
Em Viúva por um Ano, John
Irving
emociona sem chatear
Marcelo Marthe
Rezam
os manuais de psicologia que filhos de pais ausentes têm
grande possibilidade de virar adultos problemáticos.
O americano John Irving é um caso representativo.
Quando estava ainda no berço, seu pai biológico
abandonou o lar e nunca mais deu notícias. O rapaz
acabou sendo criado pela mãe e por um padrasto que
o educou em regime de linha-dura. O que sucedeu com o pobre
Irving? Bem, depois de crescido, ele resolveu expiar seus
traumas de infância escrevendo livros. Surpresa: tornou-se
especialista em romances que falam sobre... pais ausentes
e filhos problemáticos. O autor ficou conhecido nos
anos 70, época em que lançou o best-seller
O Mundo Segundo Garp. Voltou ao primeiro plano meses
atrás, ao ganhar o Oscar pelo roteiro do filme Regras
da Vida, adaptado de sua obra homônima. Nesse
drama, dirigido pelo sueco Lasse Hallström, um jovem
criado em orfanato embarca numa viagem de autoconhecimento.
É uma busca interior típica dos escritos de
Irving, que se vale de uma narrativa comovente, capaz de
levar às lágrimas. Em Viúva por
um Ano (tradução de Vera Whately;
Record; 544 páginas; 38 reais), romance de 1998 que
só agora está saindo por aqui, ele recorre
ao mesmo apelo emocional para fisgar o leitor.
Isso não quer dizer, contudo, que o livro seja
uma bobagenzinha açucarada. Irving tem um pé
no folhetim, mas trafega pelo gênero com originalidade
e estilo. A tal ponto que vários críticos
o consideram um dos grandes contadores de histórias
da literatura americana atual. Viúva por um Ano
tem como protagonista a pequena Ruth, garotinha cuja vida
será para sempre marcada por uma tragédia
familiar: a morte de seus dois irmãos, antes mesmo
de ela nascer. Com isso, o casamento dos pais se desestrutura
e, quando Ruth tem apenas 4 anos, sua mãe desaparece
de casa, atormentada pelo fantasma dos garotos mortos. A
trama é cheia de reviravoltas. Seu charme está
em revelar o desfecho das situações logo de
início e manter suspense sobre como se chegará
àquilo. Um detalhe: na vida adulta, a protagonista
se torna escritora. Irving faz ainda outra referência
descaradamente autobiográfica. É que um dos
personagens estuda no rígido internato de Exeter,
em New Hampshire por onde ele próprio passou.
Foi nessa escola, aliás, que este cinqüentão
com feições de buldogue se iniciou num hobby
que marcaria toda a sua vida: a luta greco-romana. O mestre
dos folhetins derramados é um machão musculoso
e ligado numa boa escaramuça física. Além
disso, arrisca-se como baterista de uma banda de rock. Há
alguns anos, a mãe de Irving lhe deu pistas sobre
como descobrir o paradeiro do pai. Ele preferiu não
mexer nesse vespeiro do passado. Lágrimas, só
nos livros.