Edição 1 653 -14/6/2000

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Machão sensível

Em Viúva por um Ano, John Irving
emociona sem chatear

Marcelo Marthe

Rezam os manuais de psicologia que filhos de pais ausentes têm grande possibilidade de virar adultos problemáticos. O americano John Irving é um caso representativo. Quando estava ainda no berço, seu pai biológico abandonou o lar e nunca mais deu notícias. O rapaz acabou sendo criado pela mãe e por um padrasto que o educou em regime de linha-dura. O que sucedeu com o pobre Irving? Bem, depois de crescido, ele resolveu expiar seus traumas de infância escrevendo livros. Surpresa: tornou-se especialista em romances que falam sobre... pais ausentes e filhos problemáticos. O autor ficou conhecido nos anos 70, época em que lançou o best-seller O Mundo Segundo Garp. Voltou ao primeiro plano meses atrás, ao ganhar o Oscar pelo roteiro do filme Regras da Vida, adaptado de sua obra homônima. Nesse drama, dirigido pelo sueco Lasse Hallström, um jovem criado em orfanato embarca numa viagem de autoconhecimento. É uma busca interior típica dos escritos de Irving, que se vale de uma narrativa comovente, capaz de levar às lágrimas. Em Viúva por um Ano (tradução de Vera Whately; Record; 544 páginas; 38 reais), romance de 1998 que só agora está saindo por aqui, ele recorre ao mesmo apelo emocional para fisgar o leitor.

Isso não quer dizer, contudo, que o livro seja uma bobagenzinha açucarada. Irving tem um pé no folhetim, mas trafega pelo gênero com originalidade e estilo. A tal ponto que vários críticos o consideram um dos grandes contadores de histórias da literatura americana atual. Viúva por um Ano tem como protagonista a pequena Ruth, garotinha cuja vida será para sempre marcada por uma tragédia familiar: a morte de seus dois irmãos, antes mesmo de ela nascer. Com isso, o casamento dos pais se desestrutura e, quando Ruth tem apenas 4 anos, sua mãe desaparece de casa, atormentada pelo fantasma dos garotos mortos. A trama é cheia de reviravoltas. Seu charme está em revelar o desfecho das situações logo de início e manter suspense sobre como se chegará àquilo. Um detalhe: na vida adulta, a protagonista se torna escritora. Irving faz ainda outra referência descaradamente autobiográfica. É que um dos personagens estuda no rígido internato de Exeter, em New Hampshire – por onde ele próprio passou. Foi nessa escola, aliás, que este cinqüentão com feições de buldogue se iniciou num hobby que marcaria toda a sua vida: a luta greco-romana. O mestre dos folhetins derramados é um machão musculoso e ligado numa boa escaramuça física. Além disso, arrisca-se como baterista de uma banda de rock. Há alguns anos, a mãe de Irving lhe deu pistas sobre como descobrir o paradeiro do pai. Ele preferiu não mexer nesse vespeiro do passado. Lágrimas, só nos livros.