Edição 1 653 -14/6/2000

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Alice Granato


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Teste: Avalie a intensidade do seu ciúme

Marido apaixonado desconfia que a mulher, linda, o trai com um amigo. A mulher é honesta, o amigo é sincero, mas o marido só enxerga à sua volta indícios da traição inexistente. Por fim, transtornado, mata a mulher e se mata. A tragédia, no seu cruel desenrolar, é velha como o mundo. Assim foi descrita magistralmente por William Shakespeare, no século XVII, no texto em que Otelo, o general mouro, mata a doce Desdêmona. Antes dele e depois dele, homens e mulheres mataram (e matam) pelo mesmo motivo: o ciúme, um sentimento insano, paranóico, doente, insuportável para quem sente e doído, perigoso, para quem é alvo dele. A morte é uma atitude extrema, mas as tragédias clássicas acabam sendo a melhor tradução para a força destruidora e devastadora desse sentimento. A realidade, o verniz civilizatório ou, simplesmente, a sobrevivência do bom senso mesmo que o cotovelo doa colocam freios em boa parte das pessoas que dele sofrem – por isso, e só por isso, as ruas não estão coalhadas de corpos de adúlteros ou apaixonados desprezados. Em uma escala muitos graus abaixo do sentimento intenso e violento de Otelo, paira outro tipo de ciúme, incômodo mas aceitável por quem sente e até estimulante para quem é alvo dele. É o sentimento "normal", que atinge a maioria das pessoas e faz parte do cotidiano. O que intriga os estudiosos, e sobretudo os amantes, é a dificuldade em definir a linha difusa entre os dois extremos. Ficar do lado certo é o único modo de sobreviver, administrar e tirar proveito desse vulcão do qual ninguém está a salvo.


Antonio Milena
Daniela e William na academia onde trabalham: acordo de casal para evitar cair em tentação


Haverá realmente um componente positivo no furor emocional que Shakespeare chamou de "o monstro de olhos verdes"? É crescente entre os especialistas a idéia de que em sua manifestação corriqueira se trata de um sentimento importante, até imprescindível, para o bom andamento de um relacionamento amoroso. "Um ciumezinho eventual é um bom parâmetro para ver como anda a relação. Se nunca aparece, algo vai mal", avalia o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que lançou no mês passado Ciúme, o Lado Amargo do Amor, seu segundo livro sobre o assunto. "Mas é preciso diferenciar ciúme, que só faz sofrer, de se sentir enciumado, que é perfeitamente normal." A constatação de Ferreira-Santos combina com a percepção da maioria das pessoas. Pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia em Berkeley mostra que oito em cada dez entrevistados acham que o ciúme é uma excelente oportunidade para reexaminar o relacionamento. A principal lição seria ensinar a valorizar o parceiro. Quatro em dez vêem o ciúme como uma prova de amor. Os números são contundentes para demonstrar que, para muitas pessoas, o demônio dos olhos verdes tem lá seu charme.

Por mais natural que seja, e por mais tretorne a relação, o ciúme é, convenhamos, uma coisa desagradável para quem o sente. Até porque anda sempre de mãos dadas com outros sentimentos desconfortáveis: insegurança (própria), ameaça (ao parceiro), inveja (do outro) – sem falar na esmagadora humilhação de se ver traído, inevitável se e quando as desconfianças se confirmam. A pessoa enciumada, ainda que seu ciúme seja aquele "do bem", tem de saber como lidar com ele e não se deixar consumir por suas dúvidas – e a regra vale inclusive para quem é linda, alta, loira e elegante. Cindy, de 26 anos e até pouco tempo atrás modelo profissional, é tudo isso e também casada com o fotógrafo de moda André Schiliró, 36 anos. Ocorre que André (simpático e gentil) é o queridinho das modelos mais famosas do Brasil. Passa o dia fotografando beldades seminuas. Já clicou Gisele Bündchen num ensaio sensualíssimo. A apresentadora Xuxa não fotografa com outro. Para a mulher desse fotógrafo que encanta modelos, não é nada fácil. "Claro que eu tenho ciúme. Ele sai de casa todo cheiroso, arrumado, e sei que vai passar o dia com mulheres lindas", desabafa Cindy. "Mas procuro dispersar meu pensamento. Fico de olho, lógico, mas sem ser neurótica." Até por falta de opção, ela considera que a concorrência é estimulante. "Eu estou sempre me cuidando, porque meu marido sabe o que é bom."

Dizer que um pouquinho de ciúme faz bem seria repetir o óbvio, não estivesse o sentimento passando por uma revisão conceitual. "Há um preconceito contra o ciúme. Ele é tido como maléfico, mas isso não resume a questão", diz Ailton Amélio da Silva, professor de relacionamentos amorosos da Universidade de São Paulo. Uma relação na qual se desconfia de tudo o tempo todo não sobrevive, é certo. Mas deve-se também ficar em alerta quando não há nenhuma sombra de ciúme entre namorados ou cônjuges. Isso pode indicar que a relação está se diluindo aos poucos. Guardadas as proporções, é mais ou menos como acontece com o medo. Muito é ruim. Em dose moderada, ajuda as pessoas a ficar atentas a situações de risco. "O ciúme é um sentimento bem-vindo como protetor do compromisso, do vínculo e da família. O que se combate são os excessos", afirma o professor Silva. Aí mora o perigo, pois se está falando, por definição, num excesso. Ferreira-Santos, cujo livro recém-lançado é uma espécie de manual prático para conviver com o ciúme, diz que ele pode manifestar-se de duas formas. A primeira, emocional, é intensa e de curta duração. Vem acompanhada de componentes somáticos, como taquicardia, falta de ar, excesso de salivação ou boca seca, aperto no peito e até dores físicas. Quando a esposa dá atenção excessiva a um bonitão numa festa, o marido fica enciumado. É emoção. Pode explodir com resultados desastrosos, mas passa. Se o marido desconfia da mulher a ponto de impedi-la de ir à festa, a coisa atingiu um grau bem mais preocupante. Nessa situação, o ciúme não passa, mesmo que se consiga provar que as suspeitas são fantasiosas e infundadas. Os psiquiatras comparam esse tipo agudo de ciúme a um delírio, e os ingleses o chamam de "síndrome de Otelo".


Claudio Rossi
Cindy e seu marido, André, o fotógrafo de moda: "Ele sai de casa todo cheiroso e passa o dia com mulheres lindas"


A devastação emocional causada pelo ciúme e pela rejeição é um dos sentimentos mais terríveis experimentados pela alma humana. Na mitologia grega – que os estudiosos acreditam conter os arquétipos do comportamento emocional humano – os próprios deuses são ciumentos entre si. A divina Hera sobe nas tamancas com as escapulidas do marido, Zeus. Enlouquecida de ciúme, a feiticeira Medéia mata os próprios filhos depois de o herói Jasão tê-la trocado por uma beldade mais jovem. O Deus do Velho Testamento é cioso de sua exclusividade. O primeiro mandamento diz: "Amarás teu Deus sobre todas as coisas". O nono determina que não se deseje a mulher do próximo e o décimo, que não se cobicem as coisas alheias. Numa tese instigante, expressa no livro The Dangerous Passion (A Paixão Perigosa), que causa furor nos Estados Unidos, o psicólogo David Buss sustenta que o sentimento não é apenas natural e inevitável, como está impresso no nosso código genético. A tese desse professor da Universidade do Texas é que os ancestrais do homem temiam que suas fêmeas tivessem filhotes com outros machos, e aí estaria a origem biológica do ciúme: cuidar de crias alheias pensando que se está protegendo e alimentando os próprios filhos. Esse ciúme primordial, cuja utilidade prática se esgotou há muito tempo, continua a condicionar o comportamento das pessoas no século XXI.

David Buss é um dos defensores da psicologia evolucionária, a vertente moderninha que definiu o estupro como uma adaptação evolucionária aos desafios da Pré-História. O próprio Buss é autor da tese de que o inconsciente da mulher moderna a induz a escolher como parceiro o sujeito mais rico e bem-sucedido, pois sua alma primitiva clama por um bom provedor. A porção primata do homem, por sua vez, leva-o a preferir aquela que pareça ter melhores condições de procriar. Por causa de teses como essas, que soam desagradáveis aos ouvidos politicamente corretos da atualidade, a psicologia evolutiva é vista com enormes reservas, especialmente no meio acadêmico dos Estados Unidos. No terreno do ciúme, a pesquisa de Buss perguntou a 10.041 homens e mulheres de 37 países o que os incomodava mais: imaginar o parceiro tendo relações sexuais ou se envolvendo emocionalmente com outra pessoa. A maioria esmagadora das mulheres optou pela segunda resposta – não suporta a idéia de o marido se apaixonar por outra. Já os homens tremem muito mais diante da traição puramente, por assim dizer, sexual. A explicação dele para isso é que todo homem, dada a chance, torna-se um Bentinho, o personagem do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, atormentado pela dúvida crucial sobre se é ou não o pai do filho de Capitu. Daí tremerem diante da traição feminina puramente (se se pode dizer assim) sexual. "O ciúme do homem é mais ligado ao sexo e o das mulheres, ao afeto", concorda o professor Silva. Há nisso igualmente uma sabedoria nascida no cotidiano e que tem mais a ver com cultura do que com a evolução das espécies. Homens e mulheres costumam encarar de modo diferente uma relação extraconjugal. O marido tende a considerar a própria infidelidade como apenas sexo, mas sofre calafrios com a idéia de que a mulher irá apaixonar-se por outro se encontrar maior prazer na cama fora de casa.

A tolerância feminina com a infidelidade é bastante mais elástica que a masculina – e a maioria das pessoas acha natural que a mulher traída perdoe e mantenha o casamento. O psiquiatra Ferreira-Santos nota que não existe na linguagem popular uma "corna mansa". O homem corneado, ao contrário, é um personagem que a sociedade despreza, assunto de risadas, cuja auto-estima chega ao nível mais baixo. A primeira-dama Hillary Clinton fez o que milhões de mulheres fazem quando não querem passar o atestado de coitadinha: fechou a cara, deixou claro que estava furiosa, recusou-se a comentar o assunto e esperou a poeira baixar. Está certo que, depois, pôs a culpa dos casos extraconjugais do marido nos problemas de infância do pobre Bill Clinton. Mas aí já estava concorrendo ao Senado, e em campanha vale tudo. Esposas de gerações mais antigas até preferiam que o marido tivesse amantes com casa montada, desde que seu lar e sua vidinha fossem preservados. O ciúme masculino tem um caráter de nítida competição e extrema intolerância. Mais que simplesmente perder a mulher, o homem teme perder status, a posse, a honra.

O direito de o homem lavar a honra com o sangue da adúltera é reconhecido em muitos países e serve de atenuante nos julgamentos. Já foi assim no Brasil, até os anos 70. Lavar a honra? Os machões com comichão no dedo do gatilho devem meditar sobre a opinião do pai da psicanálise, Sigmund Freud, a respeito disso. Freud acreditava que o ciúme decorre sobretudo do impulso homossexual. Disse com todas as letras que o homem projeta na mulher o seu desejo pela figura masculina. Em miúdos, significa que ele não sente propriamente ciúme, mas inveja de não estar no lugar dela na cama com outro macho. Outra razão para ciúme é a pouca confiança no próprio taco. Um estudo inglês de 36 casos clínicos da síndrome de Otelo (ciúme patológico) encontrou problemas sexuais na origem de dezenove deles. Um caso estudado era o de um homem de 68 anos cujo casamento foi harmonioso até ele sofrer de uma doença que o deixou impotente. No início do século, a psicanálise tirou o ciúme dos folhetins românticos e o colocou no cerne da vida inconsciente. A visão atual do ciúme é que ele representa uma enorme encrenca mental, se é experimentando em sua forma mais intensa – e doentia. O primeiro conflito ocorreria quando a criança sente ciúme da própria mãe, evidentemente monopolizada pelo pai – é o famoso complexo de Édipo. Os irmãos são ciumentos um em relação ao outro, como sabem todos que têm filhos. O pai não se dá conta, mas fica enciumado com a dedicação que a mulher passa a dispensar aos filhos.

A dor da alma (como a definiu o filósofo Socrátes) é um sentimento universal perene – um dos que atravessaram o tempo sem se deixar civilizar inteiramente em seus impulsos mais obscuros. Todos os ciumentos se parecem. O que muda é a forma com que dão vazão a sua ira e angústia. O que mais espanta é o clamor por vingança que às vezes se torna a única razão de ser do ciumento. Logo que Felipe II – pai de Alexandre, o Grande – morreu, sua viúva, Olímpias, queimou viva a mais jovem e querida concubina do marido. O próprio rei da Macedônia foi vítima do amor, assassinado por um amante desprezado. Como era comum na aristocracia grega há 2.300 anos, Felipe era bissexual. Seria interessante saber se Olimpias odiava com igual intensidade os homens que compartilhavam a cama do rei – mas isso a história não registra. Sabe-se apenas que a rainha, mulher de grande religiosidade, participava de orgias em honra ao deus Baco. Vinte e três séculos depois, o vulcão que levou Nicéa Pitta a implodir a carreira do marido, o prefeito de São Paulo Celso Pitta, foi, suspeita-se, o aparecimento de uma loira extraconjugal. Tivesse o poder de uma rainha macedônia, Nicéa talvez a tivesse queimado numa grelha de churrasco.


Ricardo Benichio
Alessandra Müller edita um site de modelos na internet e enfrenta cenas de ciúme todos os dias: "Por pressão dos namorados, elas pedem para tirar as fotos do ar"


Os terapeutas de casal estão convencidos de que há um "ciúme do bem", aquele que estimula o casal a rever e melhorar o relacionamento. Nem sempre é de administração fácil. Quando o sucesso com o sexo oposto é mútuo, por exemplo, o cuidado para não deixar o "ciúme do bem" descambar em troca de acusações e brigas constantes tem de ser redobrado. O casal paulistano William Amadei, de 35 anos, e Daniela Theobaldo, de 26, decidiu em comum acordo que só sai de casa à noite, para se divertir, se os dois forem juntos. "Achamos que sair separados é facilitar demais, criar oportunidades", explica Daniela. Ambos são professores de ginástica e personal trainers. Ele, até pouco tempo atrás, cuidava da boa forma de Suzana Alves, a Tiazinha, e chegou também a treinar a loira Joana Prado, a Feiticeira. Na academia, vive cercado de lindas alunas. E Daniela, de lindos alunos. O ciúme interfere no casamento? Interfere, claro. "Às vezes atrapalha, desgasta, a gente briga, ficamos com raiva um do outro. Mas acho que tudo isso é manifestação de interesse. Se não houvesse, não sei se ainda estaríamos juntos", diz ela, que na academia onde dão aula tem fama de durona. "Às vezes ele folga. Brinca demais com as alunas, e eu não gosto", confessa. Mas são só os homens que aprontam? De jeito nenhum. Tirando as companheiras dos ciumentos crônicos, não há mulher que não tenha, em alguma ocasião, se vestido e se portado de forma a deliberadamente deixar seu parceiro enciumado. Com pleno sucesso, diga-se. "Funciona em 100% das vezes", atesta Ferreira-Santos. Ele explica que, feito lá de vez em quando, quase em tom de brincadeira, não faz mal algum. Mas, quando se torna um hábito, acaba com o relacionamento.

Para Cindy, Daniela e todos os homens e mulheres que se consideram em situação de risco, a psicóloga e terapeuta de casais Aparecida Favorêto, de São Paulo, faz um alerta: preocupar-se demais com ameaças externas é meio caminho andado para o desastre. "O zelo maior tem de ser com o parceiro e com a relação do casal", ensina. "O perigo não está fora de casa. Está dentro." Fácil de entender, mas difícil de lembrar quando seu marido passa o dia cercado de mulheres lindas, ou sua mulher vive em viagens de negócios com colegas interessantes. A modelo paulista Alessandra Müller, 29 anos, já sentiu na pele a tentativa de controle de um namorado muito ciumento e não quer repetir a dose. "Meu namorado ficou enlouquecido numa ocasião em que posei para uma foto beijando outro modelo", conta. "Sou superfiel, e não é uma fotografia que vai mudar isso." Alessandra tem uma agravante, em se tratando de namorados ciumentos: edita o site Morango, que coloca na internet modelos lindíssimas em fotos ultra-sensuais. "É uma saia-justa. Às vezes elas me ligam e pedem para tirar as fotos, tamanho o ciúme deles." Alessandra está hoje solteira e diz que ela mesma vai posar para o site. "As fotos que faço são provocantes, mas é o meu trabalho, e não vou deixar que ninguém mude isso", diz.

Mulheres não falavam assim até algum tempo atrás, ou, se falavam, ninguém lhes dava atenção. Mas o mundo mudou, e o machismo, comportamento mais nefasto ainda quando misturado ao ciúme, também. Até três décadas atrás, o homem que matava por ciúme, mesmo sem prova da traição, era absolvido no Brasil por legítima defesa da honra. Um dos marcos da mudança de comportamento do brasileiro foi o julgamento do paulista Doca Street, em 1976. Depois de fuzilar a mulher, a mineira Angela Diniz, num acesso de ciúme, Street foi absolvido em primeira instância, mas condenado na segunda. "Hoje, atitudes como essa são inadmissíveis para a sociedade", diz o psiquiatra Ferreira-Santos. "Se o agressor disser que agiu tomado por ciúme, ele pode, inclusive, agravar sua situação."