Edição 1 653 -14/6/2000

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Transatlântico voador

Airbus anuncia a construção do maior
avião de passageiros, com camarotes
e academia de ginástica

O primeiro aparelho da próxima geração de superjatos começou finalmente a sair do papel. O sinal verde para a produção do A3XX, projetado pelo consórcio europeu Airbus, foi dado na semana passada na Exposição Aeronáutica Internacional de Berlim. O projeto é grandioso e supera tudo o que já se viu em termos de tamanho, conforto e ambição. A exemplo dos transatlânticos da primeira metade do século XX, o novo Airbus não vai apenas transportar passageiros. Pode também oferecer acomodações dignas de um navio de lazer – miniacademia de ginástica, sala de cinema, de massagem, cassino, quartos privados, lanchonete do McDonald's, bar e até creche para os menorzinhos. O investimento para tirá-lo do chão chega a 12 bilhões de dólares e prevê-se que o primeiro exemplar estará pronto para decolar em 2005. O gigante é uma aposta européia no crescimento do tráfego aéreo internacional e um ataque deliberado ao único concorrente, a Boeing americana. O novo avião tem quase 80 metros de distância entre as asas. O Boeing 747-400, atualmente o maior avião de passageiros existente, possui 64,4 metros. O Airbus pesa 540 toneladas e tem o comprimento equivalente a sete ônibus enfileirados. Tem uma autonomia de 14.200 quilômetros, o que lhe permite voar de São Paulo a Sydney sem reabastecer. Dependendo da versão, com maior ou menor número de poltronas, é possível levar entre 555 e 840 passageiros.

O anúncio do A3XX representa uma reviravolta nas tendências da indústria aeronáutica. O padrão dos atuais aviões de passageiro gira em torno de 300 assentos. Apenas o Boeing 747, conhecido como Jumbo, ultrapassa os 400 em vôos intercontinentais nas rotas mais movimentadas. Os projetos de grandes aviões estavam engavetados por causa do alto custo da construção e da redução do mercado depois da crise asiática, na década passada. O Boeing 747, um modelo da década de 60, sofreu poucas alterações desde então. A companhia americana participava do projeto de um superavião, mas terminou suspendendo os planos no final de 1996. O que animou os europeus foram estimativas de que o mercado de turismo internacional cresce numa taxa superior à do turismo doméstico. As companhias aéreas estimam que em 2010 deverão ser transportados 2 bilhões de passageiros em todo o mundo, com maior concentração em vôos de longa distância. A idéia da Airbus é oferecer uma aeronave para rotas de altíssima demanda. Ela deverá ser capaz de substituir com um único vôo duas ou três outras aeronaves.

Projetar um avião desses não significa criar um aparelho com o dobro do tamanho dos maiores que voam atualmente. Para desenhá-lo, os engenheiros do Airbus alongaram a cabine superior, na qual se aloja quase metade dos passageiros. Significa que o avião cresceu sobretudo para cima. Diferentemente do Boeing, cujo compartimento superior ocupa apenas a parte dianteira do aparelho, acomodando no máximo sessenta poltronas, a do Airbus estende-se por quase toda a extensão da fuselagem. A fartura de espaço interno vai permitir que se ofereça aos passageiros um produto escasso na aviação comercial: poltronas amplas e confortáveis mesmo na sofrida classe econômica. Os assentos do A3XX chegam a ser 2,5 centímetros mais largos que os do rival da Boeing. Parece pouco, mas faz grande diferença em viagens longas. A fuselagem do avião, que voará a 980 quilômetros por hora, será revestida de uma liga de metal e fibra de carbono.

O projeto do Airbus A3XX surgiu uma década atrás, torpedeado por críticas e dúvidas sobre a viabilidade de operar tal tipo de mastodonte. Temia-se que seu peso, 140 toneladas a mais que o Boeing 747-400, fosse danificar as pistas dos aeroportos. Falava-se do barulho ensurdecedor de suas turbinas e da impossibilidade técnica de organizar o embarque e o desembarque de tantos passageiros num único vôo. O órgão americano que cuida da aviação civil, o FAA, chegou a advertir sobre a reação do público em caso de um acidente fatal envolvendo uma aeronave com tantas centenas de pessoas a bordo. A questão da pista foi resolvida com o desenvolvimento de um novo trem de pouso, capaz de distribuir de maneira equilibrada o peso do avião. O sistema de turbinas foi reformado para diminuir o ruído. De qualquer forma, prevendo a emergência de mastodontes aéreos, os principais aeroportos estão reforçando suas pistas e informatizando os sistemas de embarque-desembarque e distribuição de bagagem.

A última providência será treinar os pilotos. Devido à altura da cabine de comando, eles precisam aprender a taxiar com a ajuda de câmaras de vídeo posicionadas sob o nariz do avião. Cada um vai custar 200 milhões de dólares e já há, segundo a Airbus, sete companhias aéreas interessadas na compra do A3XX. Pelas estimativas do consórcio europeu, o mercado de aeronaves de grande porte, com mais de 400 passageiros, deve absorver 1.440 aviões até 2016. A concorrente Boeing trabalha com expectativas bem mais modestas. Não vê chance de vender mais de 500 aparelhos nesse período. Talvez seja apenas dor-de-cotovelo da fábrica americana.


Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  A guerra dos megajatos
  O mastodonte
Da internet
  Airbus

 

 

Fotos Lucchesi

1 - Classe econômica na cabine superior: fileiras de dez poltronas, 2,5 cm mais largas que as do Boeing 747
2 - Escadaria na entrada: lembrança dos tempos em que os navios eram o único meio de cruzar os oceanos