Transatlântico voador
Airbus anuncia a construção
do maior
avião de passageiros, com camarotes
e academia de ginástica
O primeiro aparelho
da próxima geração de superjatos começou
finalmente a sair do papel. O sinal verde para a produção
do A3XX, projetado pelo consórcio europeu Airbus,
foi dado na semana passada na Exposição Aeronáutica
Internacional de Berlim. O projeto é grandioso e
supera tudo o que já se viu em termos de tamanho,
conforto e ambição. A exemplo dos transatlânticos
da primeira metade do século XX, o novo Airbus não
vai apenas transportar passageiros. Pode também oferecer
acomodações dignas de um navio de lazer
miniacademia de ginástica, sala de cinema, de massagem,
cassino, quartos privados, lanchonete do McDonald's, bar
e até creche para os menorzinhos. O investimento
para tirá-lo do chão chega a 12 bilhões
de dólares e prevê-se que o primeiro exemplar
estará pronto para decolar em 2005. O gigante é
uma aposta européia no crescimento do tráfego
aéreo internacional e um ataque deliberado ao único
concorrente, a Boeing americana. O novo avião tem
quase 80 metros de distância entre as asas. O Boeing
747-400, atualmente o maior avião de passageiros
existente, possui 64,4 metros. O Airbus pesa 540 toneladas
e tem o comprimento equivalente a sete ônibus enfileirados.
Tem uma autonomia de 14.200 quilômetros,
o que lhe permite voar de São Paulo a Sydney sem
reabastecer. Dependendo da versão, com maior ou menor
número de poltronas, é possível levar
entre 555 e 840 passageiros.
O anúncio do A3XX representa uma reviravolta nas
tendências da indústria aeronáutica.
O padrão dos atuais aviões de passageiro gira
em torno de 300 assentos. Apenas o Boeing 747, conhecido
como Jumbo, ultrapassa os 400 em vôos intercontinentais
nas rotas mais movimentadas. Os projetos de grandes aviões
estavam engavetados por causa do alto custo da construção
e da redução do mercado depois da crise asiática,
na década passada. O Boeing 747, um modelo da década
de 60, sofreu poucas alterações desde então.
A companhia americana participava do projeto de um superavião,
mas terminou suspendendo os planos no final de 1996. O que
animou os europeus foram estimativas de que o mercado de
turismo internacional cresce numa taxa superior à
do turismo doméstico. As companhias aéreas
estimam que em 2010 deverão ser transportados 2 bilhões
de passageiros em todo o mundo, com maior concentração
em vôos de longa distância. A idéia da
Airbus é oferecer uma aeronave para rotas de altíssima
demanda. Ela deverá ser capaz de substituir com um
único vôo duas ou três outras aeronaves.
Projetar um avião desses não significa criar
um aparelho com o dobro do tamanho dos maiores que voam
atualmente. Para desenhá-lo, os engenheiros do Airbus
alongaram a cabine superior, na qual se aloja quase metade
dos passageiros. Significa que o avião cresceu sobretudo
para cima. Diferentemente do Boeing, cujo compartimento
superior ocupa apenas a parte dianteira do aparelho, acomodando
no máximo sessenta poltronas, a do Airbus estende-se
por quase toda a extensão da fuselagem. A fartura
de espaço interno vai permitir que se ofereça
aos passageiros um produto escasso na aviação
comercial: poltronas amplas e confortáveis mesmo
na sofrida classe econômica. Os assentos do A3XX chegam
a ser 2,5 centímetros mais largos que os do rival
da Boeing. Parece pouco, mas faz grande diferença
em viagens longas. A fuselagem do avião, que voará
a 980 quilômetros por hora, será revestida
de uma liga de metal e fibra de carbono.
O projeto do Airbus A3XX surgiu uma década atrás,
torpedeado por críticas e dúvidas sobre a
viabilidade de operar tal tipo de mastodonte. Temia-se que
seu peso, 140 toneladas a mais que o Boeing 747-400, fosse
danificar as pistas dos aeroportos. Falava-se do barulho
ensurdecedor de suas turbinas e da impossibilidade técnica
de organizar o embarque e o desembarque de tantos passageiros
num único vôo. O órgão americano
que cuida da aviação civil, o FAA, chegou
a advertir sobre a reação do público
em caso de um acidente fatal envolvendo uma aeronave com
tantas centenas de pessoas a bordo. A questão da
pista foi resolvida com o desenvolvimento de um novo trem
de pouso, capaz de distribuir de maneira equilibrada o peso
do avião. O sistema de turbinas foi reformado para
diminuir o ruído. De qualquer forma, prevendo a emergência
de mastodontes aéreos, os principais aeroportos estão
reforçando suas pistas e informatizando os sistemas
de embarque-desembarque e distribuição de
bagagem.
A última providência será treinar
os pilotos. Devido à altura da cabine de comando,
eles precisam aprender a taxiar com a ajuda de câmaras
de vídeo posicionadas sob o nariz do avião.
Cada um vai custar 200 milhões de dólares
e já há, segundo a Airbus, sete companhias
aéreas interessadas na compra do A3XX. Pelas estimativas
do consórcio europeu, o mercado de aeronaves de grande
porte, com mais de 400 passageiros, deve absorver 1.440
aviões até 2016. A concorrente Boeing trabalha
com expectativas bem mais modestas. Não vê
chance de vender mais de 500 aparelhos nesse período.
Talvez seja apenas dor-de-cotovelo da fábrica americana.
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