Mausoléu na selva
Urnas antropomorfas revelam segredos de
um povo amazônico extinto há mais de 300 anos
Bia Barbosa
Fotos F. Guenet/B. Arnaudo
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Fotos F. Guenet/B.
Arnaudo
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| Arqueóloga Vera
Guapindaia com urna funerária: figuras agrupadas
como num ritual |
A região do Rio Maracá, um afluente do Rio
Amazonas no Amapá, é um dos mais importantes
santuários ecológicos da Amazônia. A
natureza é exuberante, com trilhas e cavernas que
atraem adeptos do turismo de aventura. Esse paraíso
nos confins do Brasil tornou-se também ponto de peregrinação
de arqueólogos em busca de respostas para os enigmas
que envolvem um dos povos mais misteriosos da Amazônia.
Nada menos do que treze cemitérios indígenas
construídos por um grupo que se acredita extinto
desde o século XVII foram localizados nos últimos
cinco anos. Todos eles estão em grutas semi-encobertas
por cipoais e folhagens e, em lugar de tumbas ou urnas funerárias
convencionais, exibem inesperados vasos de cerâmica
na forma de bonecos. São figuras de até 71
centímetros que representam homens e mulheres sentados
em pequenos bancos, como um grupo de índios reunidos
para uma conversa em torno da fogueira. Algumas figuras
ocupam lugares de destaque, de frente para as demais, com
traços zoomorfos. Dentro das peças de barro
estão os ossos dos indígenas, que, por falta
de nome mais preciso, os arqueólogos batizaram de
maracás. Ainda não se sabe se a tribo desenvolveu
uma civilização complexa como a dos habitantes
da Ilha de Marajó, localizada na foz do Rio Maracá.
As urnas são, por enquanto, os elementos mais significativos
de como viveu essa gente. "Esse é apenas um ponto
de partida para entender quem foram os maracás",
diz a arqueóloga Edithe Pereira, do Museu Emílio
Goeldi, em Belém.
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| Tampa de um vaso: desenhos indicam
o sexo do morto |
As urnas do Rio Maracá não são inteiramente
novas para os arqueólogos. Três delas estão
expostas na Mostra do Redescobrimento, no Parque do Ibirapuera,
em São Paulo. A questão é que até
agora os vasos cerâmicos não tinham sido estudados
sistematicamente. Havia apenas exemplares isolados coletados
no fim do século XIX e desde então incorporados
à coleção do Museu Goeldi, sob catalogação
bastante genérica. Isso mudou com a descoberta dos
cemitérios, o último deles no final do ano
passado. Os maracás tinham um rito fúnebre
bastante original. Não enterravam as urnas, como
ocorria entre a maioria dos indígenas. Guardavam
os ossos numa disposição padronizada. No fundo
do vaso era colocada a pélvis e, sobre ela, as costelas,
os ossos das mãos e dos pés. Por cima de tudo
vinha o crânio. Os ossos mais longos eram acomodados
nas laterais da urna. Os pesquisadores acreditam que as
figuras zoomorfas, semelhantes a jabutis, guardavam ossos
de pajés e chefes. "Os cemitérios nos fazem
supor que os maracás viam as urnas como uma maneira
de reverenciar e cultuar os antepassados", diz a arqueóloga
Vera Guapindaia, coordenadora da pesquisa. "A visão
das urnas com formas humanas sentadas em seus bancos e com
as mãos nos joelhos devia causar um sentimento de
temor e respeito."
Regalias femininas Os bancos de madeira têm
um significado marcante em várias culturas indígenas.
São artefatos exclusivos de chefes, pajés
e visitantes ilustres, acessórios importantes na
tomada de decisões. Acreditava-se que o ato de sentar-se
em um banco propiciava maior poder de concentração
e reflexão. Daí também seu aspecto
mágico. É curioso que o formato das urnas
maracás seja de pessoas sentadas em bancos. Como
isso ocorre até com as urnas que contêm ossos
femininos, os cientistas supõem que a sociedade fosse
igualitária, mesmo no trato com as mulheres. O sexo
dos mortos é perfeitamente definido no formato dos
vasos. Referências tão explícitas ao
sexo feminino em objetos funerários são raras,
mas coincidem com algumas descobertas interessantes sobre
o papel das mulheres na região. Relatos dos primeiros
europeus a percorrer o atual Amapá, no século
XVI, falam de mulheres com papéis não tradicionais,
como de guerreiras. Frei Gaspar de Carvajal, cronista da
expedição de Francisco de Orellana, comparou-as
às lendárias amazonas gregas, em 1542. Involuntariamente,
ele associou para sempre essa imagem à região,
batizando o rio com o nome de Amazonas.
Os cemitérios estão espalhados numa área
de aproximadamente 21 quilômetros quadrados e já
foram localizadas cerca de 150 urnas. Paralelamente ao levantamento
das ossadas, os cientistas esperam datar as descobertas
com exames de carbono 14 a cargo do Museu Nacional do Rio
de Janeiro. Também estão sendo procurados
vestígios de aldeias e habitações,
essenciais para permitir a identificação do
povo maracá. Já encontraram três sítios
arqueológicos com cacos de cerâmica de uso
cotidiano, que se acredita serem dos mesmos índios
que fabricaram as urnas. "Cinco anos de estudos numa região
com um potencial desse tamanho não é nada",
comenta Vera Guapindaia. Se depender dela e de sua equipe,
as pesquisas à beira do Rio Maracá só
vão parar quando se souber exatamente que língua
falavam e por quanto tempo viveram ali os índios
que transformaram as cavernas do Amapá em mausoléu.