Edição 1 653 -14/6/2000

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Mausoléu na selva

Urnas antropomorfas revelam segredos de
um povo amazônico extinto há mais de 300 anos

Bia Barbosa


Fotos F. Guenet/B. Arnaudo
Fotos F. Guenet/B. Arnaudo
Arqueóloga Vera Guapindaia com urna funerária: figuras agrupadas como num ritual

A região do Rio Maracá, um afluente do Rio Amazonas no Amapá, é um dos mais importantes santuários ecológicos da Amazônia. A natureza é exuberante, com trilhas e cavernas que atraem adeptos do turismo de aventura. Esse paraíso nos confins do Brasil tornou-se também ponto de peregrinação de arqueólogos em busca de respostas para os enigmas que envolvem um dos povos mais misteriosos da Amazônia. Nada menos do que treze cemitérios indígenas construídos por um grupo que se acredita extinto desde o século XVII foram localizados nos últimos cinco anos. Todos eles estão em grutas semi-encobertas por cipoais e folhagens e, em lugar de tumbas ou urnas funerárias convencionais, exibem inesperados vasos de cerâmica na forma de bonecos. São figuras de até 71 centímetros que representam homens e mulheres sentados em pequenos bancos, como um grupo de índios reunidos para uma conversa em torno da fogueira. Algumas figuras ocupam lugares de destaque, de frente para as demais, com traços zoomorfos. Dentro das peças de barro estão os ossos dos indígenas, que, por falta de nome mais preciso, os arqueólogos batizaram de maracás. Ainda não se sabe se a tribo desenvolveu uma civilização complexa como a dos habitantes da Ilha de Marajó, localizada na foz do Rio Maracá. As urnas são, por enquanto, os elementos mais significativos de como viveu essa gente. "Esse é apenas um ponto de partida para entender quem foram os maracás", diz a arqueóloga Edithe Pereira, do Museu Emílio Goeldi, em Belém.


Tampa de um vaso: desenhos indicam o sexo do morto

As urnas do Rio Maracá não são inteiramente novas para os arqueólogos. Três delas estão expostas na Mostra do Redescobrimento, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A questão é que até agora os vasos cerâmicos não tinham sido estudados sistematicamente. Havia apenas exemplares isolados coletados no fim do século XIX e desde então incorporados à coleção do Museu Goeldi, sob catalogação bastante genérica. Isso mudou com a descoberta dos cemitérios, o último deles no final do ano passado. Os maracás tinham um rito fúnebre bastante original. Não enterravam as urnas, como ocorria entre a maioria dos indígenas. Guardavam os ossos numa disposição padronizada. No fundo do vaso era colocada a pélvis e, sobre ela, as costelas, os ossos das mãos e dos pés. Por cima de tudo vinha o crânio. Os ossos mais longos eram acomodados nas laterais da urna. Os pesquisadores acreditam que as figuras zoomorfas, semelhantes a jabutis, guardavam ossos de pajés e chefes. "Os cemitérios nos fazem supor que os maracás viam as urnas como uma maneira de reverenciar e cultuar os antepassados", diz a arqueóloga Vera Guapindaia, coordenadora da pesquisa. "A visão das urnas com formas humanas sentadas em seus bancos e com as mãos nos joelhos devia causar um sentimento de temor e respeito."

Regalias femininas – Os bancos de madeira têm um significado marcante em várias culturas indígenas. São artefatos exclusivos de chefes, pajés e visitantes ilustres, acessórios importantes na tomada de decisões. Acreditava-se que o ato de sentar-se em um banco propiciava maior poder de concentração e reflexão. Daí também seu aspecto mágico. É curioso que o formato das urnas maracás seja de pessoas sentadas em bancos. Como isso ocorre até com as urnas que contêm ossos femininos, os cientistas supõem que a sociedade fosse igualitária, mesmo no trato com as mulheres. O sexo dos mortos é perfeitamente definido no formato dos vasos. Referências tão explícitas ao sexo feminino em objetos funerários são raras, mas coincidem com algumas descobertas interessantes sobre o papel das mulheres na região. Relatos dos primeiros europeus a percorrer o atual Amapá, no século XVI, falam de mulheres com papéis não tradicionais, como de guerreiras. Frei Gaspar de Carvajal, cronista da expedição de Francisco de Orellana, comparou-as às lendárias amazonas gregas, em 1542. Involuntariamente, ele associou para sempre essa imagem à região, batizando o rio com o nome de Amazonas.

Os cemitérios estão espalhados numa área de aproximadamente 21 quilômetros quadrados e já foram localizadas cerca de 150 urnas. Paralelamente ao levantamento das ossadas, os cientistas esperam datar as descobertas com exames de carbono 14 a cargo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Também estão sendo procurados vestígios de aldeias e habitações, essenciais para permitir a identificação do povo maracá. Já encontraram três sítios arqueológicos com cacos de cerâmica de uso cotidiano, que se acredita serem dos mesmos índios que fabricaram as urnas. "Cinco anos de estudos numa região com um potencial desse tamanho não é nada", comenta Vera Guapindaia. Se depender dela e de sua equipe, as pesquisas à beira do Rio Maracá só vão parar quando se souber exatamente que língua falavam e por quanto tempo viveram ali os índios que transformaram as cavernas do Amapá em mausoléu.