Edição 1 653 -14/6/2000

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Anorexia

Magras que doem

Ter as medidas de uma modelo esquelética
é um sonho que pode tornar-se pesadelo

Rachel Verano

 

Maarcelo Kura

Saber, todo mundo já sabia, mas agora é oficial. Depois de concluir um amplo estudo, a Associação Médica Britânica alerta: o padrão de beleza feminina personificado em modelos esqueléticas influencia o comportamento das adolescentes e tem contribuído significativamente para o crescimento dos distúrbios alimentares. "As modelos ficam cada vez mais magras e a distância entre corpo ideal e realidade está maior do que nunca", diz o relatório. E recomenda: "Temos de exigir que a mídia reflita a variedade e celebre as diferenças entre as mulheres, em vez de se ater a uma única imagem".


AP
Victoria, em 1997: doente famosa


Os distúrbios alimentares, diz o estudo, são um mal grave ao qual se dá pouca atenção. Em sua forma mais cruel, a anorexia nervosa, a pessoa pára de comer e, mesmo pele em cima de ossos, continua se achando gorda. Nos Estados Unidos, calcula-se que uma em cada 100 meninas seja anoréxica. No Brasil, a proporção é de uma para 250. Na Argentina, onde esse tipo de doença atingiu níveis epidêmicos, são dez em cada 100. O tratamento é longo e difícil e a taxa de mortalidade, assustadora: de 15% a 20%. "Quando começamos, há oito anos, recebíamos um paciente novo por semana. Agora são dez", contabiliza Táki Cordás, psiquiatra-chefe do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo. Mais arrepiante ainda é a idade das pacientes. "Em geral, a doença começa a se desenvolver entre 15 e 18 anos. Mas já temos pacientes de 11 anos com diagnóstico de anorexia", diz Cordás.

Querendo ser Kate Moss – O relatório britânico confirma que os fatores que levam uma menina a parar de comer têm a ver também com genética e problemas familiares. Mas ressalta que a constante exposição de modelos magras demais como padrão de beleza é, por si só, um forte empurrão para a anorexia e a bulimia (quando a pessoa se empanturra incontrolavelmente e depois força o vômito). "O grau de magreza exibido pelas modelos é biologicamente inadequado", afirma o estudo. Elas mesmas, com sua eterna conversa de que comem o que querem sem maiores preocupações, são vítimas renitentes. "Já vi meninas jogarem comida fora, beber detergente e tomar antiinflamatórios para suportar uma carga imensa de exercícios físicos. Algumas até gostam de ficar doente, se a doença emagrece", diz Marco Antonio De Tommaso, psicólogo de modelos das agências Elite e L'Equipe.

A magreza extrema estabeleceu-se como ideal de beleza no início dos anos 90, quando a inglesinha Kate Moss vestiu um grudadíssimo jeans Calvin Klein e ganhou o mundo em outdoors e anúncios de revista. Kate tinha 84 centímetros de busto, 58 de cintura e 89 de quadril – uma tábua se comparada aos voluptuosos 94-58-91 de Marilyn Monroe, a musa dos anos 50. Para ser Kate Moss, meninas adoeceram e adoecem no mundo todo. No final de 1997, a princesa Victoria, então com 20 anos, herdeira do trono da Suécia, confirmou que sofria de anorexia. Viajou para os Estados Unidos, escondeu-se do mundo e conseguiu recuperar-se. "Ela está bem agora, mas ainda precisa de tempo, de tranqüilidade", comentou sua mãe, a rainha Silvia, em entrevista recente a VEJA. Aos pais, aliás, o relatório da associação britânica reserva um aviso tão enfático quanto difícil de ser seguido: o peso de seu filho – e principalmente filha – nunca deve ser motivo de críticas.

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