Anorexia
Magras que doem
Ter as medidas de uma modelo esquelética
é um sonho que pode tornar-se pesadelo
Rachel Verano
Maarcelo Kura
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Saber, todo mundo já sabia, mas agora é oficial.
Depois de concluir um amplo estudo, a Associação
Médica Britânica alerta: o padrão de
beleza feminina personificado em modelos esqueléticas
influencia o comportamento das adolescentes e tem contribuído
significativamente para o crescimento dos distúrbios
alimentares. "As modelos ficam cada vez mais magras e a
distância entre corpo ideal e realidade está
maior do que nunca", diz o relatório. E recomenda:
"Temos de exigir que a mídia reflita a variedade
e celebre as diferenças entre as mulheres, em vez
de se ater a uma única imagem".
AP
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| Victoria, em 1997: doente famosa
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Os distúrbios alimentares, diz o estudo, são
um mal grave ao qual se dá pouca atenção.
Em sua forma mais cruel, a anorexia nervosa, a pessoa pára
de comer e, mesmo pele em cima de ossos, continua se achando
gorda. Nos Estados Unidos, calcula-se que uma em cada 100
meninas seja anoréxica. No Brasil, a proporção
é de uma para 250. Na Argentina, onde esse tipo de
doença atingiu níveis epidêmicos, são
dez em cada 100. O tratamento é longo e difícil
e a taxa de mortalidade, assustadora: de 15% a 20%. "Quando
começamos, há oito anos, recebíamos
um paciente novo por semana. Agora são dez", contabiliza
Táki Cordás, psiquiatra-chefe do Ambulatório
de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas
de São Paulo. Mais arrepiante ainda é a idade
das pacientes. "Em geral, a doença começa
a se desenvolver entre 15 e 18 anos. Mas já temos
pacientes de 11 anos com diagnóstico de anorexia",
diz Cordás.
Querendo ser Kate Moss O relatório
britânico confirma que os fatores que levam uma menina
a parar de comer têm a ver também com genética
e problemas familiares. Mas ressalta que a constante exposição
de modelos magras demais como padrão de beleza é,
por si só, um forte empurrão para a anorexia
e a bulimia (quando a pessoa se empanturra incontrolavelmente
e depois força o vômito). "O grau de magreza
exibido pelas modelos é biologicamente inadequado",
afirma o estudo. Elas mesmas, com sua eterna conversa de
que comem o que querem sem maiores preocupações,
são vítimas renitentes. "Já vi meninas
jogarem comida fora, beber detergente e tomar antiinflamatórios
para suportar uma carga imensa de exercícios físicos.
Algumas até gostam de ficar doente, se a doença
emagrece", diz Marco Antonio De Tommaso, psicólogo
de modelos das agências Elite e L'Equipe.
A magreza extrema estabeleceu-se como ideal de beleza
no início dos anos 90, quando a inglesinha Kate Moss
vestiu um grudadíssimo jeans Calvin Klein e ganhou
o mundo em outdoors e anúncios de revista. Kate tinha
84 centímetros de busto, 58 de cintura e 89 de quadril
uma tábua se comparada aos voluptuosos 94-58-91
de Marilyn Monroe, a musa dos anos 50. Para ser Kate Moss,
meninas adoeceram e adoecem no mundo todo. No final de 1997,
a princesa Victoria, então com 20 anos, herdeira
do trono da Suécia, confirmou que sofria de anorexia.
Viajou para os Estados Unidos, escondeu-se do mundo e conseguiu
recuperar-se. "Ela está bem agora, mas ainda precisa
de tempo, de tranqüilidade", comentou sua mãe,
a rainha Silvia, em entrevista recente a VEJA. Aos pais,
aliás, o relatório da associação
britânica reserva um aviso tão enfático
quanto difícil de ser seguido: o peso de seu filho
e principalmente filha nunca deve ser motivo
de críticas.
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