Edição 1 653 -14/6/2000

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Demografia

Tempo para viver

Fórmula adotada pela OMS para calcular
a expectativa de vida leva em conta a saúde

Ana Santa Cruz

Pelo menos na maneira de calcular, a expectativa de vida da humanidade está mudando. A Organização Mundial de Saúde (OMS), órgão das Nações Unidas, divulgou na semana passada um relatório em que leva em conta o tempo de vida saudável da população. Antes se calculava simplesmente o tempo de vida, independentemente das condições de saúde. A nova metodologia, argumenta a OMS, reflete melhor a expectativa de vida economicamente útil e serve também para traçar políticas de saúde pública. "Mais interessante do que descobrir quantos anos se vive em média em determinado país é saber quantos anos se vive com saúde e com condições de aproveitar a vida", aprova o professor Ruy Laurenti, do departamento de epidemiologia da Universidade de São Paulo (USP).

O retrato da esperança de vida humana na maioria dos países não sofre mudanças profundas com a nova metodologia. De modo geral, as pessoas continuam vivendo mais e melhor nas nações do Primeiro Mundo, usando-se qualquer um dos medidores. Com o novo método, no entanto, aumenta o fosso entre ricos e pobres. Enquanto os japoneses, que estão no topo superior da tabela, perdem três anos de vida para as doenças, baixando de 77 anos de média de vida para 74 com vida saudável, os habitantes de Serra Leoa, na ponta inferior, perderam dez, recuando de 36 para 26 anos. Em média, quem mora nos países ricos perdeu 9% do total de anos, enquanto nos pobres a perda é de 14%. "Em determinadas regiões da África, a expectativa de vida saudável atinge níveis similares aos existentes na Europa medieval", diz Alan López, coordenador de epidemiologia da OMS.

 
Foto Marcos Rosa

No que se refere ao Brasil, o relatório da OMS apenas reforça a idéia de um país dividido, com regiões de opulência e outras de miséria. O Sudeste detém taxa de expectativa de vida comparável à da Áustrália e da França. Norte e Nordeste têm perfis semelhantes aos de países do fim da nova lista, como Moçambique. No Japão, campeão de vida sob qualquer critério, as pessoas vivem mais e com melhor saúde, em parte por causa dos hábitos alimentares. Os japoneses observam uma dieta com pouca gordura e carne vermelha, o que reduz a incidência de doenças do coração. A maior surpresa da lista da OMS refere-se aos Estados Unidos, que ocupam a 24ª posição, atrás de países mais pobres, como Grécia e Espanha. A explicação do fenômeno pode ser encontrada nos bolsões de pobreza do país, onde as condições sanitárias são precárias e a violência é alta.

Como ocorria antes, a expectativa de vida saudável das mulheres é maior que a dos homens. Estudos anteriores já demonstravam que, à medida que um país se torna mais próspero, a mortalidade entre as mulheres tende a declinar mais que a dos homens. Em 1900, as mulheres viviam dois a três anos mais que os homens nos países ricos. Em 1999, a diferença já era de sete a oito anos. Explica-se: mulheres fumam menos, alimentam-se melhor e são mais cuidadosas com a saúde.