Demografia
Tempo para viver
Fórmula adotada pela OMS para calcular
a expectativa de vida leva em conta a saúde
Ana Santa Cruz
Pelo menos na maneira de calcular, a expectativa de vida
da humanidade está mudando. A Organização
Mundial de Saúde (OMS), órgão das Nações
Unidas, divulgou na semana passada um relatório em
que leva em conta o tempo de vida saudável da população.
Antes se calculava simplesmente o tempo de vida, independentemente
das condições de saúde. A nova metodologia,
argumenta a OMS, reflete melhor a expectativa de vida economicamente
útil e serve também para traçar políticas
de saúde pública. "Mais interessante do que
descobrir quantos anos se vive em média em determinado
país é saber quantos anos se vive com saúde
e com condições de aproveitar a vida", aprova
o professor Ruy Laurenti, do departamento de epidemiologia
da Universidade de São Paulo (USP).
O retrato da esperança de vida humana na maioria
dos países não sofre mudanças profundas
com a nova metodologia. De modo geral, as pessoas continuam
vivendo mais e melhor nas nações do Primeiro
Mundo, usando-se qualquer um dos medidores. Com o novo método,
no entanto, aumenta o fosso entre ricos e pobres. Enquanto
os japoneses, que estão no topo superior da tabela,
perdem três anos de vida para as doenças, baixando
de 77 anos de média de vida para 74 com vida saudável,
os habitantes de Serra Leoa, na ponta inferior, perderam
dez, recuando de 36 para 26 anos. Em média, quem
mora nos países ricos perdeu 9% do total de anos,
enquanto nos pobres a perda é de 14%. "Em determinadas
regiões da África, a expectativa de vida saudável
atinge níveis similares aos existentes na Europa
medieval", diz Alan López, coordenador de epidemiologia
da OMS.
Foto Marcos Rosa
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No que se refere ao Brasil, o relatório da OMS apenas
reforça a idéia de um país dividido,
com regiões de opulência e outras de miséria.
O Sudeste detém taxa de expectativa de vida comparável
à da Áustrália e da França.
Norte e Nordeste têm perfis semelhantes aos de países
do fim da nova lista, como Moçambique. No Japão,
campeão de vida sob qualquer critério, as
pessoas vivem mais e com melhor saúde, em parte por
causa dos hábitos alimentares. Os japoneses observam
uma dieta com pouca gordura e carne vermelha, o que reduz
a incidência de doenças do coração.
A maior surpresa da lista da OMS refere-se aos Estados Unidos,
que ocupam a 24ª posição, atrás
de países mais pobres, como Grécia e Espanha.
A explicação do fenômeno pode ser encontrada
nos bolsões de pobreza do país, onde as condições
sanitárias são precárias e a violência
é alta.
Como ocorria antes, a expectativa de vida saudável
das mulheres é maior que a dos homens. Estudos anteriores
já demonstravam que, à medida que um país
se torna mais próspero, a mortalidade entre as mulheres
tende a declinar mais que a dos homens. Em 1900, as mulheres
viviam dois a três anos mais que os homens nos países
ricos. Em 1999, a diferença já era de sete
a oito anos. Explica-se: mulheres fumam menos, alimentam-se
melhor e são mais cuidadosas com a saúde.