Edição 1 653 -14/6/2000

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Não ajuda em nada

Pesquisa mostra que tratamento alternativo
é ineficaz na cura de pacientes com câncer

Flávia Varella


Claudio Rossi
Carla Regina em sessão de cromoterapia: melhora só psicológica


Os médicos sabem que os doentes de câncer costumam apelar para tratamentos alternativos, como o uso de babosa, de ervas, cogumelos, vitaminas, cartilagem de tubarão e até mesmo cirurgias espirituais. Os efeitos dos métodos não científicos sobre a evolução do tumor eram, contudo, apenas conjecturas. Uma pesquisa inédita conduzida pelo oncologista Riad Younes com 3.420 pacientes do Hospital do Câncer A. C. Camargo, de São Paulo, chegou a duas conclusões. A primeira é que é grande o número de pacientes que recorrem a terapias não convencionais (43% dos pesquisados, chegando a 70% entre aqueles em fase terminal). A segunda, de maior impacto, é a de que tais métodos não curam. Em nenhum dos pacientes que usaram apenas terapias não científicas, durante três meses ou mais, constatou-se redução no tamanho do tumor. "O estudo mostrou que esses remédios não apenas são inúteis como, muitas vezes, atrapalham o processo de melhora do doente e atrasam uma possível cura", diz Younes.

Como oncologista, Younes está habituado a ver pacientes que se submetem a terapias alternativas. Muitos pedem longas explicações sobre a necessidade de sessões de quimioterapia, seus efeitos colaterais, composição do coquetel e chances de cura. Mas para tomar suco de babosa basta ter ouvido dizer que esse remédio curava o câncer. Tudo que o médico podia informar a esses pacientes era que não conhecia ninguém que tivesse se curado com o uso da babosa e jamais encontrara um estudo científico a respeito da planta. Daí sua decisão de entender por que os pacientes de câncer são tão condescendentes com terapias que nunca foram estudadas. O resultado da pesquisa, apresentado no final do mês passado no American Society of Clinical Oncology, o maior congresso mundial de câncer, surpreendeu pelo porcentual de pacientes que adotam métodos não convencionais. Quase quatro em cada dez pacientes utilizam duas ou mais terapias sem comprovação científica. Nem sempre se trata de uma alternativa barata. Segundo o depoimento dos entrevistados, gasta-se até o equivalente a um salário mínimo por mês.

Tempo para o tumor – "Não digo ao paciente que não use métodos alternativos, pois nesses casos a objetividade não é o que convence", diz Younes. Apesar da ineficácia contra o tumor, 10% dos pesquisados relataram sensação de melhora com as terapias não convencionais. É o caso de Carla Regina de Souza, de 14 anos. Ela começou a freqüentar diariamente um centro espírita assim que descobriu estar com um melanoma. Carla Regina tomou remédios e chás de ervas, submeteu-se a raios de luzes coloridas em sessões de cromoterapia e foi "energizada" por vários espíritos de médicos incorporados em médiuns. "Fiquei mais calma e com a certeza de que iria melhorar", diz Carla, que acredita que, graças ao tratamento espírita, seu tumor diminuiu entre um exame de ultra-som e a cirurgia em que foi retirado. "Não acredito que a pesquisa sirva para reduzir essa indústria que se enriquece aproveitando-se do desespero alheio, mas ela é importante para alertar os médicos de que boa parte de seus pacientes ingere coisas que podem afetar o tratamento prescrito", afirma o médico. Apesar de "naturais", muitas dessas substâncias provocam efeitos colaterais, como diarréia, náusea, lesões na pele e perda de apetite. São danos graves para quem já está com o organismo debilitado pelo câncer. Doentes com diarréia, por exemplo, não podem se submeter a quimioterapia, pois correm o risco de ter uma desidratação. O adiamento, por sua vez, dá tempo para o tumor crescer.

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  Hospital do Câncer A. C. Camargo