Não ajuda em nada
Pesquisa mostra que tratamento alternativo
é ineficaz na cura de pacientes com câncer
Flávia Varella
Claudio Rossi
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| Carla Regina em sessão de
cromoterapia: melhora só psicológica |
Os médicos sabem que os doentes de câncer costumam
apelar para tratamentos alternativos, como o uso de babosa,
de ervas, cogumelos, vitaminas, cartilagem de tubarão
e até mesmo cirurgias espirituais. Os efeitos dos
métodos não científicos sobre a evolução
do tumor eram, contudo, apenas conjecturas. Uma pesquisa
inédita conduzida pelo oncologista Riad Younes com
3.420 pacientes do Hospital do
Câncer A. C. Camargo, de São Paulo, chegou
a duas conclusões. A primeira é que é
grande o número de pacientes que recorrem a terapias
não convencionais (43% dos pesquisados, chegando
a 70% entre aqueles em fase terminal). A segunda, de maior
impacto, é a de que tais métodos não
curam. Em nenhum dos pacientes que usaram apenas terapias
não científicas, durante três meses
ou mais, constatou-se redução no tamanho do
tumor. "O estudo mostrou que esses remédios não
apenas são inúteis como, muitas vezes, atrapalham
o processo de melhora do doente e atrasam uma possível
cura", diz Younes.
Como oncologista, Younes está habituado a ver pacientes
que se submetem a terapias alternativas. Muitos pedem longas
explicações sobre a necessidade de sessões
de quimioterapia, seus efeitos colaterais, composição
do coquetel e chances de cura. Mas para tomar suco de babosa
basta ter ouvido dizer que esse remédio curava o
câncer. Tudo que o médico podia informar a
esses pacientes era que não conhecia ninguém
que tivesse se curado com o uso da babosa e jamais encontrara
um estudo científico a respeito da planta. Daí
sua decisão de entender por que os pacientes de câncer
são tão condescendentes com terapias que nunca
foram estudadas. O resultado da pesquisa, apresentado no
final do mês passado no American Society of Clinical
Oncology, o maior congresso mundial de câncer, surpreendeu
pelo porcentual de pacientes que adotam métodos não
convencionais. Quase quatro em cada dez pacientes utilizam
duas ou mais terapias sem comprovação científica.
Nem sempre se trata de uma alternativa barata. Segundo o
depoimento dos entrevistados, gasta-se até o equivalente
a um salário mínimo por mês.
Tempo para o tumor "Não digo ao paciente
que não use métodos alternativos, pois nesses
casos a objetividade não é o que convence",
diz Younes. Apesar da ineficácia contra o tumor,
10% dos pesquisados relataram sensação de
melhora com as terapias não convencionais. É
o caso de Carla Regina de Souza, de 14 anos. Ela começou
a freqüentar diariamente um centro espírita
assim que descobriu estar com um melanoma. Carla Regina
tomou remédios e chás de ervas, submeteu-se
a raios de luzes coloridas em sessões de cromoterapia
e foi "energizada" por vários espíritos de
médicos incorporados em médiuns. "Fiquei mais
calma e com a certeza de que iria melhorar", diz Carla,
que acredita que, graças ao tratamento espírita,
seu tumor diminuiu entre um exame de ultra-som e a cirurgia
em que foi retirado. "Não acredito que a pesquisa
sirva para reduzir essa indústria que se enriquece
aproveitando-se do desespero alheio, mas ela é importante
para alertar os médicos de que boa parte de seus
pacientes ingere coisas que podem afetar o tratamento prescrito",
afirma o médico. Apesar de "naturais", muitas dessas
substâncias provocam efeitos colaterais, como diarréia,
náusea, lesões na pele e perda de apetite.
São danos graves para quem já está
com o organismo debilitado pelo câncer. Doentes com
diarréia, por exemplo, não podem se submeter
a quimioterapia, pois correm o risco de ter uma desidratação.
O adiamento, por sua vez, dá tempo para o tumor crescer.
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