Assim, tudo bem
O grupo ambientalista Greenpeace fecha
acordo com madeireira da Amazônia
Daniella Camargos
O movimento ambientalista Greenpeace acaba de fazer uma
aliança insólita. Na semana passada, o grupo
verde fechou um acordo de cooperação com a
madeireira Mil/Precious Woods, localizada em Itacoatiara,
na Amazônia. É a primeira vez, desde a criação
do Greenpeace, que os ativistas verdes dão o aval
a uma empresa dedicada a cortar árvores. Pelo acordo,
o grupo se compromete a conceder um certificado de qualidade
para que a madeireira amplie suas atividades no Brasil.
Isso significa que o Greenpeace vai apoiar um ex-inimigo
em sua tarefa de explorar o meio ambiente. Em princípio,
pode parecer uma grande contradição, mas os
ativistas não tomaram a atitude de maneira impensada.
Os técnicos da organização não-governamental
passaram um ano inteiro visitando as instalações
da madeireira. Depois das visitas, eles pediram que a Mil
cumprisse algumas exigências: a empresa terá
de manter sempre em pé 85% das árvores localizadas
em suas propriedades. E não deverá usar nenhum
tipo de pesticida ou produto químico para o replantio.
Apesar da aliança com antigos adversários,
o Greenpeace ainda não deixou de lado a militância
ruidosa, que sempre foi sua marca. Na semana passada, o
grupo fez uma manifestação em frente à
fábrica da Fiat, em Betim, Minas Gerais. Os ambientalistas
acusavam a montadora de jogar resíduos industriais
a céu aberto. O que mudou no Greenpeace foi sua estratégia
de atuação. Seus membros estão menos
xiitas. Antes, o grupo era conhecido pelas ações
espetaculares. Ativistas da organização já
ficaram pendurados em baleias, foram arremessados de barcos
e acamparam em regiões geladas sob temperatura de
40 graus negativos. De uns tempos para cá, a ONG
amadureceu e acrescentou novas práticas a seu cardápio
(veja quadro). Já é
dona, por exemplo, de ações de empresas como
a Shell e a Rhône-Poulenc, uma indústria química
francesa. "Percebemos que não bastava criticar",
diz o diretor do Greenpeace no Brasil, Roberto Kishinami.
A escolha da madeireira Mil não foi feita por acaso.
Na visão de um ativista da causa verde, a empresa
tem comportamento excepcional. Localizada a 260 quilômetros
de Manaus, a Mil foi premiada, há três anos,
com o selo verde concedido pela Forest Stewardship Council
(FSC), o galardão mais difundido e aceito no mundo.
Dona de uma área de 80.000
hectares, a Mil é a única companhia do país
que trabalha seguindo as normas internacionais de extração
madeireira, a ponto de conhecer detalhes de cada árvore
plantada em seus domínios. As espécies são
identificadas por números e classificadas. Com base
nesse levantamento, é elaborado o mapa de corte.
Características como localização, diâmetro
e qualidade do tronco são organizadas em um software.
Até o Greenpeace gostou.
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