Edição 1 653 -14/6/2000

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Assim, tudo bem

O grupo ambientalista Greenpeace fecha
acordo com madeireira da Amazônia

Daniella Camargos

O movimento ambientalista Greenpeace acaba de fazer uma aliança insólita. Na semana passada, o grupo verde fechou um acordo de cooperação com a madeireira Mil/Precious Woods, localizada em Itacoatiara, na Amazônia. É a primeira vez, desde a criação do Greenpeace, que os ativistas verdes dão o aval a uma empresa dedicada a cortar árvores. Pelo acordo, o grupo se compromete a conceder um certificado de qualidade para que a madeireira amplie suas atividades no Brasil. Isso significa que o Greenpeace vai apoiar um ex-inimigo em sua tarefa de explorar o meio ambiente. Em princípio, pode parecer uma grande contradição, mas os ativistas não tomaram a atitude de maneira impensada. Os técnicos da organização não-governamental passaram um ano inteiro visitando as instalações da madeireira. Depois das visitas, eles pediram que a Mil cumprisse algumas exigências: a empresa terá de manter sempre em pé 85% das árvores localizadas em suas propriedades. E não deverá usar nenhum tipo de pesticida ou produto químico para o replantio.

Apesar da aliança com antigos adversários, o Greenpeace ainda não deixou de lado a militância ruidosa, que sempre foi sua marca. Na semana passada, o grupo fez uma manifestação em frente à fábrica da Fiat, em Betim, Minas Gerais. Os ambientalistas acusavam a montadora de jogar resíduos industriais a céu aberto. O que mudou no Greenpeace foi sua estratégia de atuação. Seus membros estão menos xiitas. Antes, o grupo era conhecido pelas ações espetaculares. Ativistas da organização já ficaram pendurados em baleias, foram arremessados de barcos e acamparam em regiões geladas sob temperatura de 40 graus negativos. De uns tempos para cá, a ONG amadureceu e acrescentou novas práticas a seu cardápio (veja quadro). Já é dona, por exemplo, de ações de empresas como a Shell e a Rhône-Poulenc, uma indústria química francesa. "Percebemos que não bastava criticar", diz o diretor do Greenpeace no Brasil, Roberto Kishinami.

A escolha da madeireira Mil não foi feita por acaso. Na visão de um ativista da causa verde, a empresa tem comportamento excepcional. Localizada a 260 quilômetros de Manaus, a Mil foi premiada, há três anos, com o selo verde concedido pela Forest Stewardship Council (FSC), o galardão mais difundido e aceito no mundo. Dona de uma área de 80.000 hectares, a Mil é a única companhia do país que trabalha seguindo as normas internacionais de extração madeireira, a ponto de conhecer detalhes de cada árvore plantada em seus domínios. As espécies são identificadas por números e classificadas. Com base nesse levantamento, é elaborado o mapa de corte. Características como localização, diâmetro e qualidade do tronco são organizadas em um software. Até o Greenpeace gostou.

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Ana Araujo