Edição 1 653 -14/6/2000

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Social é o ajuste

Teses sociais fazem sucesso na viagem de
FHC à Europa, mas o equilíbrio fiscal ainda
é a melhor forma de distribuição de renda

 
AFP
Reuters
AP
FHC com Chirac (ao lado), o premiê canadense Chrétien e Clinton (acima, à esq.) e Schroeder (acima, à dir.): tudo pelo social

A viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso à Europa há uma semana reacendeu em boa parte da mídia brasileira a brasa dormida de um debate tolo. Aquela velha discussão que coloca de um lado os defensores do ajuste nas contas públicas e, de outro, os que advogam um aumento nos gastos sociais. Mais uma vez, o alvo dos ataques é o que seus críticos chamam de "esse neoliberalismo que está aí" ou, em outra versão, preferida por entidades como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a satânica globalização econômica e financeira, que contribuiria para aumentar ainda mais a indigência dos excluídos. Esse mantra, entoado sistematicamente no Brasil de alguns anos para cá, é primitivo e mistificador. Primitivo porque o Brasil é tão neoliberal quanto os Estados Unidos são o país do futebol. Mistificador porque, na falta de argumentos racionais, é usado contra a abertura da economia, as privatizações e o ajuste fiscal. Como se nada fosse mais desejável do que um país fechado em si mesmo, com a economia sob controle estatal e as contas públicas em completa desordem. Algumas razões pelas quais o neoliberalismo é prática desconhecida no Brasil:

É anedótico falar em neoliberalismo num país cuja moeda não tem conversibilidade e todas as remessas para o exterior são mediadas pelo Banco Central. O neoliberalismo exige liberdade total de pagamentos internos e externos com moeda local forte e conversível.

Somando-se o que o governo toma da sociedade na forma de impostos e da rolagem diária da dívida pública pelos bancos, o Estado brasileiro fica com 40% do PIB. Exatamente por essa razão é que um espirro do Planalto deixa todo o país com pneumonia. Não há liberalismo econômico, neo ou antigo, que sobreviva diante de tamanho poder estatal.

Num trabalho a ser publicado no final do mês na revista do BNDES, os economistas Fábio Giambiagi e Maurício Mesquita Moreira dinamitam a idéia simplista de que o Brasil teria uma economia escancarada ao exterior e orientada exclusivamente pelos interesses do capital internacional. A conclusão de Giambiagi e Moreira é de que nada autoriza a classificação do governo brasileiro como neoliberal, a começar pela decantada abertura sem critério da economia. Apenas 14% do PIB brasileiro depende das trocas com outros países. Nesse quesito, o Brasil é uma ostra. Numa comparação com vizinhos como Chile (50%) e Venezuela (45%) ou com Holanda (91%) e Indonésia (42%) o grau de abertura da economia brasileira para o exterior é pífia.

Giambiagi e Moreira lembram também que o símbolo máximo do neoliberalismo no Brasil era o câmbio fixo. Pois bem, o câmbio passou a flutuar em janeiro de 1999, mas a acusação de neoliberalismo permaneceu intacta.

Agora é moda tomar por prática neoliberal radical os juros altos cobrados no Brasil por lojas, bancos e administradoras de cartões de crédito. Giambiagi e Moreira desmontam o argumento. Eles lembram que os países mais atrelados a práticas econômicas liberais, como os Estados Unidos e o Chile, têm como característica comum os juros baixos na economia.


AP
O economista americano Joseph Stiglitz: os tucanos estão estudando com cuidado seu terceiro-mundismo


Esses temas foram reacesos em decorrência de um seminário realizado em Berlim com a participação de chefes de Estado partidários da social-democracia, alguns deles líderes da chamada Terceira Via, entre os quais está o presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso. Os defensores da Terceira Via lidam com slogans de indiscutível apelo eleitoral. Criticam o "capitalismo selvagem, neoliberal e globalizante". Afinal, existe alguém por aí favorável ao capitalismo selvagem? Fernando Henrique, sempre à vontade entre os grandes do mundo, esteve com o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, o alemão Gerhard Schroeder, o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa, e do Chile, Ricardo Lagos. Também conversou com Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos, que bem ou mal é considerado social-democrata em seu país. Participaram de uma conferência sobre Governança Progressista, um título que, como a filosofia, só é possível entender em alemão. Puseram-se todos ali a falar mal do mercado, definido como um bando de jovens de ambição desmesurada, poderosos o bastante para encurralar os governos, tornando-os reféns dos ajustes e obrigando-os a fechar o cofre para investimentos em educação, saúde e o combate à pobreza. É a velha ladainha de fácil digestão e de efeito garantido no discurso político. Os mandatários presentes à conferência, com exceção talvez de Fernando Henrique e do presidente da França, Jacques Chirac, elegeram-se com uma pregação antimercado. Dá votos. Uma vez no poder, cuidaram de fazer todos os afagos necessários para não contrariar o mercado. Como se vê, na conferência sobre Governança Progressista não existia nenhum neobobo.

Em termos de resultados práticos a reunião foi patética. A única proposta concreta para conter o que se chamou de "servidão dos governos ao mercado" foi continuar discutindo a questão em outro foro, o G-7, grupo dos sete países mais ricos do mundo. Em animação, perdeu longe para outra reunião, promovida em novembro passado nas Filipinas sob o nome de Conferência Internacional sobre Alternativas à Globalização. Ali, sim, houve ação. Além de ofensas ao FMI e ao Banco Mundial, representantes de 31 países fizeram uma proposta de suicídio econômico coletivo, na forma de um calote global nas dívidas externas por parte dos países pobres com o intuito de "deter o avanço da globalização." Até hoje nenhuma nação aderiu. "O problema central dos que se propõem a enfrentar a globalização é justamente não ter alternativas viáveis a propor", diz o economista americano Paul Krugman, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Segundo Krugman, o termo globalização é atraente demais para não despertar paixões. "Ele sugere falsamente a idéia de invasão e da volta do imperialismo, o que confere a seus detratores uma irresistível sensação de superioridade moral", observa Krugman. Na verdade, a globalização não é nem um fenômeno novo. O Império Romano foi a experiência mais radical. O liberalismo, que vigorou de meados do século XIX até o começo da I Guerra Mundial, também promoveu a intensa circulação de capitais, mercadorias e pessoas. "A globalização atual é uma chance rara que os países pobres têm de vencer o subdesenvolvimento. Ela leva investimento, inovação e transparência a nações que, de outra forma, não teriam acesso à modernidade", afirma Krugman.


Dida Sampaio/AE
Malan: "O objetivo de toda política econômica digna desse nome é a melhoria das condições sociais"


No Brasil, argumenta-se com números que a globalização é um mal. O argumento passa num primeiro teste. Afinal, entre 1970 e 1980 a economia brasileira cresceu em média 8,6% ao ano. Foi o período de exuberância estatal em que cerca de 65% do PIB era comandado de Brasília. Nas duas décadas seguintes, a economia desacelerou brutalmente para taxas de crescimento de menos de 2% ao ano. A década de 80 teria sido perdida. E a de 90, que começou com a abertura da economia brasileira ao exterior, estaria paralisada pelo neoliberalismo e pela globalização. Certo? Certíssimo, se fosse possível escolher continuar crescendo. Não foi o caso. Como alguns dos melhores economistas brasileiros já mostraram, houve o que se chama de falência do modelo. Ou seja, acabou o combustível de crescimento turbinado pelo governo e suas estatais. "Não havia escolha. Ou o Brasil se abria e buscava a modernização ou sumiria do mapa", diz o economista Edmar Bacha, que dirige atualmente o escritório do banco BBA em Nova York. A globalização, portanto, foi um caminho novo para a economia brasileira, e não sua condenação. Desde que se abriu, o Brasil vem atraindo mais capital. Só no ano passado chegaram 30 bilhões de dólares em investimentos diretos. É dinheiro que supre a falta de poupança interna e a falida capacidade de investimento estatal.

Fernando Henrique Cardoso teria sido um político medíocre se não tivesse aproveitado o palco privilegiado de Berlim, atentamente coberto pela imprensa brasileira, para apresentar um discurso de forte conteúdo social. Os tucanos perceberam há muito tempo, pelas pesquisas que atestam a baixíssima popularidade do governo FHC, que o brasileiro se cansou da conversa sobre ajuste fiscal. A implantação do real, que melhorou o padrão de vida de milhões de pobres, não pode desdobrar-se em dádivas sempre crescentes. Deu frutos em 1994, 1995 e 1996. Nos dois anos seguintes, crises internacionais, na Ásia e na Rússia, perturbaram o crescimento brasileiro. No ano passado, a crise estourou aqui, com a desvalorização da moeda. Tudo isso jogou a máquina econômica brasileira num estado de torpor. Só agora as coisas estão começando a se movimentar novamente. No eleitor, ficou um sentimento de frustração, a partir de estatísticas crescentes de desemprego e de notícias sobre cortes em salários e benefícios, inclusive dos aposentados. Diante da queda de popularidade, os tucanos resolveram desenvolver mais o tema do avanço social em lugar de centrar sua pregação política nas reformas constitucionais, um assunto abstrato que não motiva a população. Disse FHC em Berlim: "O que se busca é um consenso político-moral que, de alguma maneira, ultrapasse os limites do Consenso de Washington, de uma visão l baseada nos ajustes de mercado e na repetição das fórmulas que deram certo nos países desenvolvidos".

As eleições municipais estão aí, já no segundo semestre. Logo, a batalha pela sucessão presidencial ganhará as ruas. Não custa nada esquecer um pouco o ajuste do ministro Pedro Malan e enfatizar os avanços do governo no campo social. Afinal, FHC destinou aos gastos sociais 23% do Orçamento deste ano, muito mais do que todos os seus antecessores no cargo. Os tucanos de alto coturno têm lido e citado trabalhos do economista americano Joseph Stiglitz e do indiano Amartya Sen, premiado com o Nobel de Economia do ano passado por seus estudos sobre pobreza. Stiglitz foi economista-chefe do Banco Mundial até maio último. Saiu atirando. Ele acusa o banco e o FMI de imporem condições financeiras muito árduas para emprestar dinheiro aos países em desenvolvimento. Com isso, estariam inibindo o potencial de crescimento desses países. Idéias desses economistas vêm encontrando recepção cada vez mais interessada no ninho tucano. "Batendo apenas na tecla do ajuste e do controle de gastos, o governo não supera a percepção de que a economia vai bem mas o povo vai mal", diz Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi. "A opinião pública quer ver resultados na área social."

Além do arsenal teórico de Stiglitz e Amartya Sen, o governo acha que tem o que apresentar no campo social. No dia 15 de maio, numa palestra feita no Rio de Janeiro para uma platéia de empresários e executivos, FHC começou oficialmente a ofensiva no discurso social. Ele resumiu aquilo que o governo considera alguns de seus mais expressivos indicadores de desempenho nessa área, obtidos sem comprometer o equilíbrio fiscal:

.A taxa de mortalidade infantil recuou de 43 óbitos por 1.000 nascidos, em 1992, para 36,1 em 1998.

.Diminuiu a proporção de pobres com a intervenção do Plano Real. O índice de brasileiros que ganham até 107 reais por mês na população total era de 44,2% em 1994. Caiu para 32,7% em 1998.

A maioria dos economistas concorda que a estabilidade, como a proporcionada pelo Plano Real e pelo ajuste nas contas do governo, é, em si, um bem para as camadas menos favorecidas. Nas economias caóticas, a pouca riqueza dos cidadãos mais pobres é regularmente sifonada para os mais ricos na forma de um dos mais perversos mecanismos econômicos conhecidos, o "imposto inflacionário". Um recente estudo dos economistas David Dollar e Aart Kraay, do Banco Mundial, mostra que o crescimento econômico com equilíbrio orçamentário dos governos beneficia mais os pobres. O mesmo não ocorre com o crescimento não sustentado, aquele induzido pelo governo com gastos irresponsáveis e que, cedo ou tarde, acaba gerando inflação. O ajuste é, portanto, a melhor política social de um governo. Ou, como diz o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade Princeton, dos Estados Unidos: "A melhor maneira de gerar crescimento é cortar os gastos do governo. Assim, ele pára de tomar emprestado e sobra dinheiro para a iniciativa privada, a juros baixos".

 



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