Edição 1 653 -14/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Somos ruins de bola

Pepe Casals


A gente só fala sobre futebol. É nosso único assunto. Morando no exterior, eu sinto falta de interlocutores futebolísticos. Não conheço ninguém que se interesse por futebol na Itália. Importuno meus amigos italianos com comentários sobre Ronaldinho Gaúcho e Marcelinho Carioca, mas noto uma certa desaprovação em seus olhares. Quando venho ao Brasil, desafogo-me. Falo sobre futebol o tempo todo: no táxi, na padaria, na banca de jornais, à mesa do restaurante Fasano. Estou no Brasil para acompanhar as filmagens de um longa-metragem. Futebol é o principal tema de conversa no set. Quando os atores precisam testar o microfone, em vez de dizer o canônico "testando um, dois, três", preferem fazer uma observação infamante sobre o time do técnico de som.

O problema é que nosso futebol é péssimo. Tenho assistido em média a uma partida por dia. E todas são um vexame. Pela primeira vez na vida, dei-me conta de que somos muito ruins de bola. Temos jogadores para completar, no máximo, dez times de futebol. O resto é pé-de-chinelo. Não tem o menor cabimento manter os campeonatos estaduais, por exemplo. Quantas vezes nos últimos vinte anos a decisão do campeonato mineiro foi entre Cruzeiro e Atlético? Quantas vezes a do campeonato gaúcho foi entre Grêmio e Internacional? O nível do campeonato paulista ou carioca é mais baixo do que o da segunda divisão italiana ou espanhola. Aliás, seus maiores protagonistas são velhos jogadores descartados pelos clubes europeus. Quantos deles já encerraram a carreira na Europa e foram chutados de volta para cá? O Brasil precisa de uma hecatombe de times de futebol, que elimine qualquer possibilidade de sobrevivência econômica para a maior parte deles. Os torcedores que se danem. Se seu time desaparecer, vire a casaca.

Poucas pessoas, no entanto, parecem se incomodar com a degradante qualidade do nosso futebol. Vi as semifinais da Libertadores da América entre Corinthians e Palmeiras. O primeiro jogo bateu recorde de audiência na televisão. Os jornais o definiram "jogo do século". Como corintiano, fiquei muito contente com o resultado de 4 a 3. Mas aquilo não é futebol: é pelada, é várzea, é jogo de praia. Dos sete gols, quatro foram contra. O segundo jogo foi ainda pior, considerando o resultado. Existe uma emergência futebolística neste país. As pessoas jogam ovos e cadeiras nos políticos, mas aceitam passivamente esse futebol de araque. Acho que devemos construir mais campos de futebol e desestimular nossas crianças a se engajar em outros esportes. É absurdo que nossas escolas ensinem basquete. Somos anões. Não levamos jeito para basquete. Pior ainda é handebol. Que esporte é esse? Quem o pratica no mundo? Esporte não é conosco. Apostei 100 reais que o Brasil vai ganhar apenas uma medalha de ouro nas próximas Olimpíadas. Mas ainda temos alguma chance de nos destacar no futebol. Vamos colocar a molecada para correr atrás da bola. Um dia, quem sabe, seremos páreo para os argentinos.