Somos ruins de bola
Pepe Casals
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A gente só fala sobre futebol. É nosso único
assunto. Morando no exterior, eu sinto falta de interlocutores
futebolísticos. Não conheço ninguém
que se interesse por futebol na Itália. Importuno
meus amigos italianos com comentários sobre Ronaldinho
Gaúcho e Marcelinho Carioca, mas noto uma certa desaprovação
em seus olhares. Quando venho ao Brasil, desafogo-me. Falo
sobre futebol o tempo todo: no táxi, na padaria,
na banca de jornais, à mesa do restaurante Fasano.
Estou no Brasil para acompanhar as filmagens de um longa-metragem.
Futebol é o principal tema de conversa no set. Quando
os atores precisam testar o microfone, em vez de dizer o
canônico "testando um, dois, três", preferem
fazer uma observação infamante sobre o time
do técnico de som.
O problema é que nosso futebol é péssimo.
Tenho assistido em média a uma partida por dia. E
todas são um vexame. Pela primeira vez na vida, dei-me
conta de que somos muito ruins de bola. Temos jogadores
para completar, no máximo, dez times de futebol.
O resto é pé-de-chinelo. Não tem o
menor cabimento manter os campeonatos estaduais, por exemplo.
Quantas vezes nos últimos vinte anos a decisão
do campeonato mineiro foi entre Cruzeiro e Atlético?
Quantas vezes a do campeonato gaúcho foi entre Grêmio
e Internacional? O nível do campeonato paulista ou
carioca é mais baixo do que o da segunda divisão
italiana ou espanhola. Aliás, seus maiores protagonistas
são velhos jogadores descartados pelos clubes europeus.
Quantos deles já encerraram a carreira na Europa
e foram chutados de volta para cá? O Brasil precisa
de uma hecatombe de times de futebol, que elimine qualquer
possibilidade de sobrevivência econômica para
a maior parte deles. Os torcedores que se danem. Se seu
time desaparecer, vire a casaca.
Poucas pessoas, no entanto, parecem se incomodar com a
degradante qualidade do nosso futebol. Vi as semifinais
da Libertadores da América entre Corinthians e Palmeiras.
O primeiro jogo bateu recorde de audiência na televisão.
Os jornais o definiram "jogo do século". Como corintiano,
fiquei muito contente com o resultado de 4 a 3. Mas aquilo
não é futebol: é pelada, é várzea,
é jogo de praia. Dos sete gols, quatro foram contra.
O segundo jogo foi ainda pior, considerando o resultado.
Existe uma emergência futebolística neste país.
As pessoas jogam ovos e cadeiras nos políticos, mas
aceitam passivamente esse futebol de araque. Acho que devemos
construir mais campos de futebol e desestimular nossas crianças
a se engajar em outros esportes. É absurdo que nossas
escolas ensinem basquete. Somos anões. Não
levamos jeito para basquete. Pior ainda é handebol.
Que esporte é esse? Quem o pratica no mundo? Esporte
não é conosco. Apostei 100 reais que o Brasil
vai ganhar apenas uma medalha de ouro nas próximas
Olimpíadas. Mas ainda temos alguma chance de nos
destacar no futebol. Vamos colocar a molecada para correr
atrás da bola. Um dia, quem sabe, seremos páreo
para os argentinos.