Abaixo as barreiras
Para
o diretor-geral da
Organização Mundial
do Comércio, o fim do protecionismo
melhora a vida dos trabalhadores
Eduardo Salgado,
de Genebra
O neozelandês
Mike Moore, 51 anos, ocupa um cargo-chave na era da globalização.
Ele é o diretor-geral da Organização
Mundial do Comércio (OMC), uma tribuna que reúne
136 países responsáveis por mais de 90% dos
negócios realizados no mundo. A carga de stress faz
parte da natureza do trabalho de Moore, que é tentar
resolver as eternas discussões sobre barreiras comerciais
ou arbitrar os interesses conflitantes dos diferentes blocos
econômicos. Se não bastasse, ele virou uma
das vítimas prediletas das ONGs, que vivem acusando-o
de ser o arauto do capitalismo selvagem. Moore está
acostumado com desafios. Perdeu o pai com 5 anos de idade
e foi vítima de poliomielite. Sem completar os estudos,
trabalhou como açougueiro e na construção
civil antes de iniciar uma bem-sucedida carreira política
que o levou ao cargo de primeiro-ministro da Nova Zelândia
em 1990. Em sua sala à beira do Lago Leman, em Genebra,
na Suíça, Moore recebeu VEJA e explicou por
que não perde o otimismo diante da difícil
tarefa de azeitar as engrenagens do comércio internacional:
Veja O
livre comércio é a solução para
todos os problemas?
Moore
Não, não é, mas contribui muito para
o desenvolvimento dos países. Desde o final da II
Guerra, à medida que as barreiras comerciais baixavam,
a economia ia crescendo. Alemanha e Cingapura são
dois bons exemplos desse processo. Depois que a China começou
a se abrir, nos últimos vinte anos, 120 milhões
de chineses saíram da pobreza absoluta. É
um fato histórico: as economias exportadoras sempre
trazem benefícios a seus trabalhadores.
Veja A
globalização vai tornar a vida no mundo melhor?
Moore
A globalização não é algo novo.
A novidade são as transações financeiras
feitas de um lado a outro do mundo ao toque de um botão.
Desde que o homem é homem há trocas comerciais.
Não estamos inventando a roda. No começo dos
anos 30, o volume do comércio internacional em relação
ao PIB mundial era maior que o de hoje. A idéia de
que a globalização é um plano das multinacionais
para dominar o mundo é ridícula.
Veja Os
benefícios da globalização estão
sendo distribuídos de forma justa?
Moore
Não. A África inteira recebe menos investimentos
do que Cingapura, um dos menores países do mundo.
Em 48 nações, 600 milhões de pessoas
sobrevivem com 1 dólar por dia. A fortuna de Bill
Gates é maior que o conjunto dos PIBs dessas nações
que estão na base da pirâmide. Mas, antes de
ser conseqüência da globalização,
isso tem a ver com decisões equivocadas dos governantes,
com as guerras, com a má distribuição
da riqueza, com a taxação injusta de impostos,
com a falta de educação.
Veja É
justo que o Brasil não possa subsidiar as exportações
de produtos industrializados, enquanto os europeus ajudam
seus produtores agrícolas a vender no exterior?
Moore
Não. Os países em desenvolvimento estão
sendo prejudicados no atual estágio do sistema de
comércio, porque a agricultura não é
tratada como outros setores. É por isso que o Brasil
defende uma nova rodada de negociações globais.
As nações em desenvolvimento argumentam, com
razão, que se essas distorções não
forem corrigidas o próprio livre comércio
corre perigo.
Veja O
fato é que os produtos do campo enfrentam impostos
de importação quatro vezes maiores que os
dos manufaturados.
Moore
A produção agrícola não era
vista como um assunto comercial até pouco tempo atrás.
Para muitos países, era uma questão de segurança
interna. Ainda estamos tentando corrigir distorções,
mas as barreiras diminuíram nos últimos anos.
Gostaria de poder garantir que cada país pudesse
vender e lucrar com aquilo que sabe produzir melhor. Embora
ainda haja injustiças, é importante notar
que já houve progresso.
Veja Os
europeus e os japoneses argumentam que é preciso
dar dinheiro a seus agricultores para que eles mantenham
as tradições e o estilo de vida de seu povo.
O mesmo argumento não vale para defender subsídios
a setores industriais brasileiros que estão sofrendo
em razão da competição internacional?
Moore
Esse é o cerne da questão das atuais negociações.
Há pouco tempo, o representante do Uruguai disse
que, se os trabalhadores rurais europeus precisam ser preservados,
o mesmo deve valer para os funcionários de bancos
e de indústrias dos países em desenvolvimento.
Veja O
senhor acha que os países ricos, para defender os
salários de seus trabalhadores, podem retaliar as
exportações dos países pobres?
Moore Sindicatos
foram feitos para defender os interesses de seus associados.
É natural que a gritaria aumente quando cresce o
perigo de desemprego. Mas nem todos os países concordam
com esse pleito das nações mais ricas. O Brasil,
a Índia e as nações em desenvolvimento
em geral vêem a tentativa de vincular questões
trabalhistas com comércio como uma nova forma de
protecionismo
Veja O
senhor acompanha a situação no Brasil?
Moore
Sim. É incrível o avanço do país
nos últimos anos. As pessoas têm mania de não
se lembrar das coisas ruins. Há uma década,
o Brasil tinha uma taxa de inflação anual
de mais de 1.000%. Hoje ela não chega a dois dígitos.
É importante se lembrar do passado para valorizar
os progressos.
Veja Como
o Brasil pode aumentar as exportações?
Moore
É necessário ver o que outros países
fizeram. A Nova Zelândia, um país com uma economia
muito menor que a do Brasil, conseguiu crescer e aumentar
as exportações com investimentos em tecnologia
e na qualificação de sua mão-de-obra.
Os brasileiros também devem prestar atenção
nas oportunidades do comércio eletrônico. Antes,
o dono de uma pequena firma não tinha condições
de vender seus produtos na Alemanha ou no Japão porque
seriam necessários milhares de dólares para
montar uma equipe de vendas do outro lado do mundo. Com
a internet, os empresários têm acesso direto
aos consumidores, sem necessidade de intermediários.
Outro dia, disseram-me em Nova York que índios brasileiros
estão vendendo redes pela internet. É preciso
ter força de vontade e talento. Ao mesmo tempo, é
necessário buscar um sistema mundial de comércio
mais justo.
Veja O
que a OMC está fazendo para regulamentar o comércio
eletrônico?
Moore
Tínhamos concordado com uma moratória
até dezembro do ano passado, durante a qual ninguém
tomaria decisão alguma. Agora estamos tentando estender
esse prazo. Alguns países em desenvolvimento querem
taxar as transações feitas pela internet.
Ou seja, você pagaria imposto não só
pelo produto ou serviço que compra, mas também
haveria uma taxa por ter encomendado pela rede. Esses países
dizem isso, mas acho que é só uma carta na
manga na mesa de negociações. Mesmo porque
seria difícil colocar essa idéia em prática.
Sem falar que há outras questões mais urgentes.
Alguns países perigam ficar de fora da nova economia
simplesmente porque não têm luz elétrica
em boa parte do território. Ou não têm
linhas telefônicas.
Veja No
mês passado, o Congresso americano aprovou o pacto
comercial com a China, pavimentando a entrada dos chineses
na OMC. Quando ela se torna efetivamente membro da organização?
Moore
Ainda há muito trabalho técnico que
precisa ser feito e a China tem de fechar acordos com outros
países, como México, Suíça e
Costa Rica. Mas estou confiante de que os chineses entrem
até o final deste ano.
Veja
O que a entrada da China na OMC muda para os empresários
e trabalhadores brasileiros?
Moore Muda
muito. Tudo o que a China acaba de conceder nos acordos
com os Estados Unidos e a União Européia,
como a possibilidade de participar em joint ventures com
empresas chinesas, acesso ao mercado etc., também
vale para o Brasil. A partir do momento em que a China tiver
um representante em Genebra, os empresários brasileiros
que se sentirem prejudicados por práticas desleais
de comércio poderão entrar com um processo
na OMC para pedir compensações, sem medo de
que os chineses não cumpram as decisões ou
retaliem.
Veja Por
que a nova rodada de negociações globais não
foi lançada em Seattle em dezembro?
Moore
Não houve acordo entre os Estados Unidos e a União
Européia, entre os países ricos e os em desenvolvimento.
Não chegamos a um entendimento mínimo sobre
questões trabalhistas, de meio ambiente, de competição.
Ninguém cedeu e não teve jeito.
Veja De
que maneira as ONGs prejudicaram o bom andamento das conversações?
Moore
Várias organizações gostariam de ficar
com o crédito de ter impedido as negociações,
mas não foi nada disso. Elas não foram as
culpadas pelo fracasso de Seattle. Só tornaram as
coisas mais desconfortáveis para os representantes
e as autoridades.
Veja As
ONGs têm o direito de falar em nome dos países
em desenvolvimento?
Moore
Muitas delas fazem um trabalho excelente. Arregaçam
as mangas e vão agir junto aos mais desfavorecidos.
Outras fazem pesquisas valiosíssimas, que são
usadas por muitos governos. Mas há também
um bando que é muito egoísta. No domingo dão
dinheiro às vítimas das enchentes em Bangladesh
e na terça-feira assinam petições para
que seus governos não importem produtos feitos pelos
habitantes da região afetada pelas chuvas. Essa é
a grande contradição. Há ainda os que
tentam ajudar, mas acabam atrapalhando. Como disse o presidente
Bill Clinton, esse pessoal está salvando os países
mais pobres do desenvolvimento.
Veja O
senhor se irrita com os protestos?
Moore
Fico incomodado ao ver esses jovens brancos, da classe média
dos países ricos, tentando bloquear as reuniões.
Sempre penso em dizer: "Candidatem-se, elejam-se e venham
aqui conversar como representantes legítimos". Outro
dia na sede do Banco Mundial, em Washington, tive um encontro
com os ministros da Fazenda dos doze países mais
influentes do mundo. Um grupo ligado à causa da prevenção
à Aids bloqueou o acesso ao prédio e fez de
tudo para atrasar a reunião. Um absurdo. Eles deveriam
fazer o contrário. Barrar a saída e dizer
que só deixariam os ministros sair quando tomassem
medidas mais eficazes.
Veja A
defesa do meio ambiente pode estar condicionada pelos interesses
do comércio internacional?
Moore
Essa é uma questão menos conflitante. Não
é só com castigo, com sanções
comerciais que se incentiva a preservação
do meio ambiente. Se os países em desenvolvimento
tiverem mais acesso aos mercados das nações
ricas, poderão ganhar o mesmo dinheiro sem precisar
explorar tanto a natureza. A redução de impostos
de importação em nações ricas
pode ser uma maneira de vincular o meio ambiente ao comércio.
Veja O
senhor é a favor da criação de blocos
como o Mercosul?
Moore
Acordos regionais podem ser o primeiro passo da abertura
ao exterior. Os empresários aprendem a exportar,
o choque não é tão grande. Há
outras vantagens. Juntos, os membros do Mercosul têm
maior força para negociar com os países mais
poderosos.
Veja Não
há risco de que o mundo fique dividido, com cada
bloco mantendo o livre comércio entre os seus membros,
mas aumentando as barreiras aos demais?
Moore
Sim. Para evitar que isso venha a acontecer criamos a OMC.
Incentivamos a abertura do comércio mundial para
impedir o aparecimento de fortalezas. As regras acertadas
até agora valem tanto para os países ricos
como para os em desenvolvimento, grandes e pequenos. Na
Nova Zelândia, sempre tínhamos o medo de que
um dia acordaríamos e a União Européia
teria tomado uma decisão que nos prejudicasse. Por
isso, sou favorável a que esses blocos não
deixem de participar das negociações nas quais
a maior parte dos países está presente. Mas
blocos regionais e abertura não são, necessariamente,
excludentes.
Veja O
senhor teve uma vida bastante difícil, não?
Moore
Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos. Como minha família
era muito pobre, tive de parar de estudar aos 14 anos. Fui
açougueiro e trabalhei na construção
civil. Mesmo tendo sido leve, a poliomielite que sofri quando
era pequeno me deixou com a saúde debilitada. Por
isso, nunca pensei em me tornar um jogador do All Blacks,
o time de rúgbi da Nova Zelândia.
Veja O
senhor sonhava em chegar tão longe, como diretor-geral
de uma instituição tão importante?
Moore
Nunca. Meu grande sonho era ser projetista. Mas infelizmente
não foi possível. Naquela época, ser
um membro da classe trabalhadora e viver no interior tornava
tudo muito difícil. Os filhos de uma família
miserável tinham muito poucas chances de chegar à
universidade. Era ainda mais complicado do que hoje quebrar
esse ciclo. Como não tive chances, sou um ferrenho
defensor do acesso à educação.
Veja O
fato de não ter freqüentado uma universidade
afeta seu dia-a-dia?
Moore
Educação formal não lhe dá sabedoria
nem inteligência. Não ter estudado me tornou
uma pessoa muito mais esforçada e dedicada. Se tenho
de ler tratados, presto muita atenção, pego
um marcador amarelo para assinalar o texto. Não me
entrego. Mas não quero dizer com isso que a falta
de educação formal seja um mérito.
Só pessoas românticas de classe média
acreditam numa espécie de ignorância sadia.
A maioria dos trabalhadores acredita que levaria uma vida
melhor se tivesse tido a oportunidade de estudar. Se eu
pudesse retroceder no tempo, me esforçaria mais para
progredir nos estudos. Certamente eu teria condições
de fazer melhor o meu trabalho.
Saiba
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