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Televisão Como um canal devotado
ao cinema nacional
Surgido há dez anos com a proposta de ser um bastião do cinema nacional na TV paga, o Canal Brasil aos poucos encontrou outra vocação: a de ser uma referência de programação trash. Ao longo das 24 horas do dia, pode-se ver ali um cardápio que inclui filmes antigos e atuais, documentários, making of, e por aí afora. Mas sua audiência se deve a dois itens em particular. Um deles são as pornochanchadas. Levadas ao ar nas madrugadas, pérolas do lixo como A Noite das Taras (1980) fazem com que o Canal Brasil seja mais visto nesse horário que em qualquer outro. A outra peça de resistência são os talk-shows e, também aí, o esdrúxulo dá o tom. No ar desde 2004, o Sem Frescura tem como âncora o ator Paulo César Pereio, veterano de mais de uma centena de filmes que atualmente faz barulho com uma campanha maluca em prol da destruição do Cristo Redentor. Seu programa é um exemplo de como desperdiçar tempo na TV: não se oferecem propriamente entrevistas, e sim conversas fiadas entre Pereio e seus convidados. Há um mês, ele ganhou uma companhia à altura. Em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, o ator e diretor José Mojica Marins encarna uma variação à la Jô Soares do personagem que lhe deu fama. Num cenário com poltronas de veludo vermelho e um caixão de defunto, Mojica sabatina famosos de diversos escalões sobre suas experiências sobrenaturais. Controlado por um grupo de cartolas do cinema nacional (como Luiz Carlos Barreto, o Barretão), o Canal Brasil apostou nos talk-shows para livrar-se da imagem de vitrine de filmes embolorados. O canal se renovou, é fato mas também é inegável que isso se deu graças ao humor involuntário. De tão estapafúrdio, o Sem Frescura acaba sendo engraçado. Qualquer cenário está valendo. Idem para os convidados, não raro amigos do apresentador. Mas o melhor são as caretas de tédio de Pereio, que traem quanto aquilo tudo é um porre. Num programa com o artista plástico Ivald Granato, Pereio chegou a puxar um ronco. "Tudo bem, não somos um canal convencional. E gravar depois do almoço é complicado", diz Paulo Mendonça, diretor do Canal Brasil. Outra que comandava um talk-show bagaceira na casa era a cantora Angela Ro Ro. Mas o programa saiu do ar suas oscilações de humor eram demais até para os padrões do canal. Perto do Sem Frescura, o programa de Zé do Caixão tem ares de superprodução. A atração tem efeitos especiais, vinhetas moderninhas e quadros variados. Mas seria muito esperar requinte de alguém com o DNA trash de diretor de filmes de "terrir" (o terror que faz rir) e sexo explícito. O português de Mojica é um espanto para ele, problema é "pobrema" e revólver vira "revólvi". Ao final de cada programa, ele roga uma praga do tipo: "Que a sua língua se transforme em cobra e devore seu intestino". A interação com os entrevistados também é um horror. O cantor Lobão falou de seu amor por exus e pombagiras e de como improvisou um batuque no caixão de sua mãe. O estilista Ronaldo Esper, que já foi preso sob a acusação de furtar vasos num cemitério paulistano, recontou sua versão da história e discorreu sobre sua coleção de máscaras mortuárias. Em programas que ainda irão ao ar, a atriz Bruna Lombardi falará de sua crença em discos voadores. E o cantor Guilherme Arantes narrará uma certa viagem mística numa praia baiana. "No meu programa, as pessoas podem falar sobre suas experiências sem medo de ser ridicularizadas", diz Mojica.
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