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Edição 2060

14 de maio de 2008
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Cinema
Ladrões civilizados

O ágil Efeito Dominó recupera o espírito dos velhos
filmes de roubo a banco: esperteza sim, violência não


Isabela Boscov

Divulgação
Statham e seu bando: invenção em torno de um caso verídico e até hoje não explicado

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Isabela Boscov
Da internet
Trailer do filme

Um dos subgêneros (e ponha-se "sub" nisso) mais divertidos e prazerosos que o cinema já cunhou, o filme inglês de roubo dos anos 60 e 70 faz uma reaparição à altura de seus pontos fortes em Efeito Dominó(The Bank Job, Inglaterra, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país. O mais curioso é que, com tudo que a trama tem de intricado e improvável, ela parte de um episódio muito nebuloso, mas real, da crônica policial britânica. A saber: em 1971, um grupo de ladrões pés-de-chinelo efetuou um espetacular roubo a uma filial londrina do Lloyds. Com planejamento muito superior ao que se suporia terem, os marginais alugaram uma loja próxima à agência, cavaram um túnel que passava sob outro imóvel, chegaram direitinho ao compartimento reforçado com concreto e aço dos cofres particulares e levaram quantia ainda hoje ignorada, mas que pode ter alcançado os 4 milhões de libras – em valores de hoje, o equivalente a 135 milhões de reais. Enquanto fazia tudo isso, o bando mantinha comunicação por walkie-talkies com um vigia postado no alto de um prédio. Suas conversas foram captadas, por acaso, por um radioamador, que avisou a polícia e disparou assim uma caçada: qual banco, afinal, estava sendo roubado? A polícia não descobriu a resposta a tempo e, na segunda-feira, quando se achou o Lloyds com as vísceras à mostra, a imprensa fez a festa. Mas só durante quatro dias. No quinto dia, todas as notícias a respeito sumiram misteriosamente dos jornais. Também não se sabe ao certo quais membros do bando foram presos, nem que pena eles cumpriram.

Essa seqüência intrigante de eventos é até hoje fonte de especulação para detetives amadores, entre os quais se podem incluir, com honras, os roteiristas de Efeito Dominó e o diretor Roger Donaldson. O filme começa por mostrar a irmã caçula da rainha Elizabeth, a princesa Margaret (1930-2002), divertindo-se de maneira algo escandalosa com dois rapazes em uma ilha do Caribe (Margaret era famosa por adorar uma balada). O episódio é fotografado por Michael X – esse também uma figura verídica –, que posava de militante da causa negra, mas vivia de operar uma rede de prostituição, chantagem e tráfico de narcóticos na Inglaterra. As fotos seriam o conteúdo explosivo do cofre do Lloyds, e o roubo, contratado pelo Serviço Secreto britânico junto a uma femme fatale (Saffron Burrows) e seus amigos, seria o recurso para recuperar as imagens e, ao mesmo tempo, despistar a imprensa, a polícia e o público.

Que o líder do bando seja interpretado por Jason Statham, o mais merecedor dos aspirantes a astro de ação contemporâneos, é uma das várias demonstrações da esperteza do filme. Statham tem físico de atleta, franqueza proletária e olhar vivo – uma combinação que sugere tanto força como inteligência e capacidade. É perfeitamente crível, assim, que seu personagem, um vendedor de carros usados de luxo que está com a corda no pescoço, seja capaz de executar o plano – e perceber que há algo nessa história que não lhe contaram, e que cheira a encrenca grossa. Acima de tudo, Efeito Dominó é uma homenagem atualizada (leia-se: rápida e ágil) ao espírito dos velhos filmes de roubo – uma celebração da astúcia e da civilidade, e uma repreensão aos maus modos de quem responde a essas qualidades com a violência.



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