Um projeto
no Congresso quer mudar a lei que impede a existência de biografias
não-autorizadas
Lu
Teixeira/CPDOC JB
Paulo
Cesar de Araújo: tolhido pelas "obsessões compulsivas"
de Roberto Carlos
Recolhido das
livrarias por força de um acordo firmado na justiça criminal de
São Paulo no ano passado, Roberto Carlos em Detalhes, do historiador
Paulo Cesar de Araújo, obteve uma pequena vitória em uma vara cível
do Rio de Janeiro, no fim de abril. A censura ao livro não foi suspensa
continua valendo o infeliz acordo de 2007 , mas a juíza Márcia
Cristina Cardoso de Barros atestou a improcedência das queixas de Roberto
Carlos. Em sua sentença, ela observa que a "a obsessão compulsiva
de tudo controlar sobre si mesmo" não pode tolher o "direito
democrático constitucional" à informação. A advogada
de Araújo, Deborah Sztajnberg, seguirá tentando recursos para liberar
a obra, no que promete ser uma longa batalha judicial. Roberto Carlos em Detalhes
é uma biografia cuidadosa, que em nada atinge a honra do biografado.
Sua proibição deve-se, em parte, a uma aberração contida
no artigo 20 do Código Civil de 2002, que protege a honra e a imagem das
pessoas. Uma mudança nesse artigo acaba de ser proposta no Congresso pelo
deputado e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. O projeto de lei, amparado
por entidades do meio livreiro como o Sindicato Nacional dos Editores de Livros
(Snel), libera o trabalho de historiadores e biógrafos (veja o quadro).
Tal como está hoje, o artigo estabelece que a imagem (vale dizer, a reputação
e a biografia) de uma pessoa só pode ser usada para "fins comerciais"
com prévia autorização dela. Como as biografias são
todas vendidas nas boas casas do ramo portanto, têm fins comerciais
, o artigo vem sendo utilizado para proibir aquelas que não contam
com a autorização prévia do biografado ou de seus herdeiros.
"Essa brecha na lei impede o acesso público à história",
diz Araújo. A nova redação mantém a proteção
à imagem para o comum das gentes, mas libera a divulgação
de informações sobre pessoas de "notoriedade pública"
categoria ampla que inclui políticos, artistas, celebridades. "Não
se pode proibir que se escreva a história do Brasil", diz Palocci.
Se o projeto de lei for aprovado no Congresso, talvez no futuro os brasileiros
possam ler a biografia não-autorizada de Roberto Carlos. Ou, igualmente
interessante, a de Antonio Palocci.
História liberada
O
que pode mudar na legislação que regula a publicação
de biografias
Como é hoje
O artigo 20 do Código Civil estabelece que "a utilização
da imagem de uma pessoa" (e "imagem" diz respeito não só
à fotografias, mas também à história pessoal) pode
ser proibida se for destinada a "fins comerciais". Na prática,
a lei pode impedir biografias não-autorizadas, já que esses livros
são publicados comercialmente
A
proposta de alteração Um projeto de lei propõe uma
nova redação para o artigo, com um parágrafo que libera a
divulgação de "informações biográficas
sobre pessoas de notoriedade pública". Biógrafos poderiam,
assim, trabalhar sem a bênção do biografado ou de seus herdeiros
que ainda teriam resguardado o recurso à justiça em casos
de calúnia ou difamação