A nova biografia de
Lawrence da Arábia tem a mesma paixão e energia do filme clássico
de David Lean e é porta de entrada para Os Sete Pilares da Sabedoria
Eurípedes
Alcântara
Reprodução
Lawrence retratado em óleo ainda
fatigado depois da tomada de Aqaba
Nenhum
personagem histórico deve mais sua fama atual a um filme do que Thomas
Edward Lawrence (1888-1935), ou, simplesmente, T.E. Lawrence, universalmente conhecido
como Lawrence da Arábia. Mas nenhum filme também deve tanto à
vida real do retratado quanto a obra épica do diretor David Lean filmada
em 1962, com Peter OToole no papel principal. Se no Velho Oeste, como se
viu no clássico filme O Homem que Matou o Facínora, "quando
as lendas viram fatos, publicam-se as lendas", no deserto os fatos é
que superam as lendas. Isso é o que se aprende lendo a biografia, de 228
páginas, de T.E. Lawrence, escrita por Malcolm Brown para a série
Vidas Históricas, da British Library, editada agora no Brasil pela Nova
Fronteira, com tradução de Sergio Barcellos e Luiz Sérgio
Toledo. É a primeira biografia em português do Brasil desse inglês
visionário, aventureiro, soldado e escritor, mas também arqueólogo,
espião, bravateiro, arrogante e genial. O livraço de Lawrence, Os
Sete Pilares da Sabedoria, ainda pode ser encontrado nas livrarias, com suas
600 páginas e tradução sofrível feita nos anos 50.
A biografia escrita por Brown é leitura de preparação obrigatória
para quem pretende se aventurar nos Sete Pilares. Conhecer os detalhes
da biografia de T.E. Lawrence é fundamental também para entender
o Oriente Médio e seus conflitos.
Uma
das grandes personalidades inglesas da primeira metade do século XX, seu
prestígio e fama o tornaram centro das atenções e do interesse
da imprensa de seu país, do resto da Europa e dos Estados Unidos. Quando
morreu, em um acidente de motocicleta, em 1935, Winston Churchill, de quem se
tornara amigo e colaborador em 1921, resumiu: "Eu o considero um dos maiores
homens de nosso tempo. Não é todo dia que se encontra um igual.
Seu nome viverá para sempre na literatura inglesa; viverá nos anais
da guerra; viverá nas lendas da Arábia". Lawrence foi um daqueles
sujeitos a quem deve sua origem o ditado "Aonde vai um inglês vai a
Inglaterra". Robert Falcon Scott, o explorador que morreu na Antártica
na tentativa frustrada de atingir o Pólo Sul e voltar, foi um deles. O
general Charles George Gordon, o "Gordon, de Cartum", outro. Não
são muitos mais. Lawrence da Arábia, no entanto, tinha evidente
desprezo pelos tradicionais padrões de conduta de seu país. "Você
não é leal à Inglaterra?", pergunta-lhe Feisal (no filme,
vivido pelo insuperável Alec Guinness), o imponente rei dos beduínos,
a quem Lawrence alertava para o fato de que o plano do alto-comando era transformar
os guerreiros do deserto em "apenas mais uma unidade miserável"
do Exército inglês. Responde Lawrence: "Leal à Inglaterra
e a outras coisas".
O
que esse aluno brilhante, formado em história por Oxford, oficial da inteligência
inglesa, foi fazer no Oriente Médio? A pergunta tem muitas respostas. "Eu
vim porque o deserto é limpo", dizia Lawrence. O biógrafo Brown
acha que seu objetivo não foi outro senão buscar elementos narrativos
para escrever um grande livro. Antes de seus extraordinários feitos militares,
seus colegas também não saberiam responder o que pretendia o oficial
indisciplinado, amigo dos praças e de uniforme sempre descomposto. "Você
é um palhaço, Lawrence." A resposta: "Nem todos podem
ser o domador de leões". Ele seria muito mais do que isso. Falando
árabe perfeito, vestindo-se com as indumentárias deles, Lawrence
tornou-se um condutor de homens ensinando-lhes táticas de guerrilha e enchendo
suas bolsas com o ouro de Londres. Ele liderou as ações militares
que se tornariam conhecidas como "Revolta Árabe". Com ela derrotou
os turcos, então aliados dos alemães, colocando um ponto final no
Império Otomano. El Orens, como era chamado pelos árabes, chegou
tenente e saiu coronel do deserto. Leal "a outras coisas", porém,
quando veio a paz, em 1919, viu sua vida, vivida no gume desde a adolescência,
ganhar os contornos da existência dos heróis trágicos. A realpolitik
de então enterrou sem pena seu sonho de garantir independência
política às tribos que liderou na Revolta Árabe.
Lawrence volta então para seu país e para as angústias básicas
com raízes na ilegitimidade de suas origens, algo bem mais pesado na Inglaterra
ainda vitoriana da infância. Na análise dos eventos e das inúmeras
crises de sua vida vamos encontrar as reações que o fizeram diferente
do comum dos mortais. É esta, afinal, a característica que dá
ao personagem central do livro de Malcolm Brown qualidade teatral única.
No deserto, os fatos produzidos por Lawrence superam todas as lendas.