O estilista que reergueu
a Gucci e agora volta
com uma grife masculina acha que nunca faltarão
clientes para marcas ultra-exclusivas
Bel Moherdaui
Nigel Parry/Divulgação
"Eu me aposentei,
comprei tacos de golfe e passei a jogar tênis todos
os dias, mas me entediava em três segundos"
Gucci era uma marca
decadente, com muito passado e nenhum futuro, quando o americano
Tom Ford, 46 anos, assumiu o departamento de criação,
em 1990. Em catorze anos, Ford comandou um dos maiores fenômenos
de, como se diz no jargão do ramo, reposicionamento no
mercado. De produtos de couro, finos mas superados, a marca
evoluiu para uma moda feminina exuberante e vendedora. Quando
a empresa foi comprada por um grande conglomerado, o bonitão
e exigente Ford brigou, saiu e se trancou em suas várias
casas, deprimido, como confessa nessa entrevista. A partir daí,
o mundo da moda ficou alerta, esperando a próxima tacada
de Tom Ford. Contrariando as expectativas, ele ressurgiu com
uma grife masculina, vendida em uma loja de cair o queixo em
Nova York, além de outros dois pontos-de-venda mundo
afora. No fim deste mês, Ford vem ao Brasil inaugurar
o quarto, dentro da butique Daslu, em São Paulo. Da fazenda
em Santa Fé, no estado do Novo México, uma das
três casas que divide com Richard Buckley, companheiro
de 22 anos, Ford falou a VEJA sobre seus negócios e suas
camisas eternamente desabotoadas.
Veja Qual
a diferença entre fazer roupas para homens e para mulheres? Ford Para um criador,
fazer uma mesa ou uma cadeira é igual. O processo de
criação é o mesmo. Começo pensando
naquilo que não quero mais ver e no que eu quero, mas
ainda não existe. Sou um criador nato. Se me deixarem
sozinho cinco minutos numa sala, mudo a mobília toda
de lugar. Resolvi voltar e fazer moda masculina justamente porque
não conseguia achar o que eu queria. Faço um misto
de roupa sob medida e produto industrializado, uma coisa totalmente
nova para homens. São roupas clássicas, dirigidas
somente para a camada mais alta do público. Por outro
lado, a roupa masculina não muda tanto quanto a feminina,
o que de certa forma restringe a capacidade de fazer coisas
interessantes. As mulheres estão acostumadas à
rapidez com que a moda muda e aceitam as mudanças muito
facilmente. A roupa masculina é mais uma questão
de detalhes, de corte, de tecido, de qualidade.
Veja O Brasil é exatamente um dos lugares onde os homens
não se inclinam a adotar certas tendências do momento,
como ternos bem justos e camisas de outras cores que não
branco e azul. Qual sua estratégia de venda aqui? Ford Eu
crio para o mercado internacional e há um tipo de consumidor
na ponta mais alta que é muito sofisticado. Minhas coleções
se encaixam num novo estilo internacional, para homens e mulheres
muito chiques, pessoas sofisticadas que viajam para Londres,
Nova York, Paris, Tóquio. A vida dessas pessoas é
muito parecida, onde quer que estejam. Acho que vai ser a solução
perfeita para o homem brasileiro adaptado a esse estilo.
Veja Sua loja em Nova York é tão luxuosa que pode
intimidar o consumidor comum. A intenção foi essa
mesmo? Ford Não
acho que intimide, embora algumas pessoas achem. A loja é
linda. As ambientações são luxuosas, mas
o serviço é muito amistoso. Qualquer um que entra
na loja é muito bem tratado, como se visitasse a casa
de alguém. Até quis que fosse parecida com a minha
casa. Muitas coisas foram copiadas de lá, como o sofá.
Meu nome está na porta e coloquei muito de mim ali.
Veja Será que um homem heterossexual de Indiana, por exemplo,
se sente à vontade para entrar na loja? Ford Acho
que um heterossexual sofisticado de Indiana se sente totalmente
à vontade. E nós só queremos o consumidor
mais sofisticado. O fato é que nosso negócio está
crescendo. Nos Estados Unidos, as pessoas falam em recessão
econômica, mas o consumidor do topo da pirâmide
está um tanto distante dos tropeços da economia.
Talvez ele não compre uma casa nova, mas ainda compra
um belo sapato de crocodilo e um belo terno.
Veja O mercado de luxo então é imune à recessão? Ford Não
posso falar das outras marcas, mas acho que as que são
realmente de luxo não foram afetadas. Além disso,
os Estados Unidos não afetam mais o resto do mundo como
antigamente. Antes, uma recessão aqui levaria o mundo
inteiro ao desaquecimento. Hoje em dia, não é
mais assim. As outras economias estão mais fortes, na
China, na Índia, no Brasil, nos mercados emergentes.
Veja Quanto tempo duraram as negociações com a Daslu
para abrir dentro dela sua loja no Brasil? Ford Dois
segundos. Tenho uma ótima relação com as
meninas da Daslu desde minha época na Gucci e na Yves
Saint Laurent. Faço pelos homens, na minha loja em Nova
York, um pouco do que a Daslu faz no Brasil: temos um mordomo,
empregada, pessoas que podem providenciar alguma coisa para
comer. É tudo baseado no serviço, e acho que o
serviço que a Daslu oferece é incrível.
Veja Mas no Brasil as diferenças de classe são mais
gritantes do que nos Estados Unidos. Será que é
uma estratégia acertada para uma marca nova no mercado? Ford Nós
só trabalhamos com o topo do topo, nada mais. Então
é o melhor lugar onde eu poderia estar.
Veja Sua marca é vendida em boa parte do mundo. Quem são
os novos consumidores de luxo? As russas são as novas
árabes? Ford Não
gosto desse tipo de comparação, soa racista. Temos
consumidores sofisticados de todos os países comprando
nossas roupas. É claro que houve um incrível aumento
de renda na Rússia, mas também houve um grande
crescimento no Brasil, na China. Estamos indo muito bem nesses
países, mas também vendemos muito a consumidores
americanos e europeus, que já tinham maior disponibilidade
de renda.
Veja O senhor inverteu a ordem natural do negócio da moda:
lançou primeiro perfume e acessórios e só
depois sua linha de roupas. Por quê? Ford Consegui
fazer isso por ser quem sou. Uma empresa de perfumes ou de óculos
só se interessa por alguém que tenha uma marca
consolidada. Mas eu, por causa do trabalho na Gucci e na Yves
Saint Laurent, tinha um nome forte e pude fazer as coisas ao
contrário. Com o dinheiro que ganhei com perfume e óculos,
financiei o lançamento da linha de roupas masculinas.
Sabia desde o começo que as coisas seriam assim, mas
não anunciei, e muita gente achou estranho que eu pusesse
meu nome em acessórios antes de fazer roupas. Perfumes
e óculos são produtos que eu amo, e dediquei muito
tempo à sua criação. Mas também
pensava desde o início em estruturar minha empresa, em
já começar tendo lucro. Acho que ninguém
conseguiu fazer isso antes. Não estou me vangloriando.
Penso que tive sorte. Já tinha um nome consolidado e
pude trabalhar de uma forma diferente.
Veja Quando saiu da Gucci, o senhor tinha recursos suficientes
para não precisar trabalhar nunca mais. Por que voltou,
e justamente para a moda? Ford Nem
eu mesmo achava que voltaria. Fui embora e pensei: tudo bem,
já fiz, já vi, já estive lá, agora
chega. Passados uns quatro meses, notei que sentia muita falta
de criar, de fazer coisas, de produzir. Percebi que criar me
dava 90% da alegria de viver. Eu me aposentei, comprei tacos
de golfe, passei a jogar tênis todos os dias, mas me entediava
em três segundos. Sou um designer nato, amo criar, amo
fazer coisas e nunca mais vou pensar em me aposentar. Vou trabalhar
até o dia em que cair morto.
Veja Nessa fase de aposentadoria precoce, quanto tempo conseguiu
ficar realmente afastado da moda, sem ir a um desfile, sem ler
uma revista? Ford Uns
seis meses. Quando saí, estava exausto. Fui para a minha
casa em Londres e me recolhi às 4 da tarde, muito deprimido.
Não queria mais olhar, pensar nem falar de moda. Naquele
momento, eu acreditava que a Gucci tinha sido o ápice.
Agora acho que aprendi lá o que preciso para fazer a
verdadeira obra da minha vida, que é construir minha
própria empresa.
Veja A transição para uma posição
de menor destaque, em comparação com a exposição
intensa anterior, foi difícil? Ford Acreditem
ou não, estar no centro das atenções nunca
me empolgou. Odeio dar entrevistas, odeio posar para fotos.
Aparecia muito porque fazia parte do negócio, porque
as pessoas precisavam saber que eu estava cuidando dos meus
produtos, que eu estava presente. Não foi por isso que
fiquei deprimido, e sim porque, de repente, não estava
fazendo mais nada. E também porque me dediquei tanto
à Gucci que sair de lá foi como um divórcio.
Foi como voltar para casa e sua mulher ter trocado a fechadura.
E ver pela janela o novo marido dela com os seus filhos na sua
casa.
Veja O senhor continuou acompanhando os desfiles? Ford Eu
assisto a tudo on-line.
Veja Como transformar uma bolsa ou um sapato em objeto de desejo? Ford Eu
me esforço para fazer aquilo que as pessoas querem ter.
Esse é meu talento como estilista. Faço, simplesmente.
Se existisse uma fórmula, todo mundo estaria fazendo
bolsas e sapatos de sucesso.
Veja As grifes de alto luxo, como a sua, precisam vender e ao
mesmo tempo ser para poucos, para manter a imagem de exclusividade.
Como conciliar as duas coisas? Ford O
mundo está mudando, e está surgindo um novo modelo
de negócio. Existe mais prosperidade do que nunca. Assim,
é possível atender a uma pequena parcela da população,
vesti-la da cabeça aos pés e ganhar muito dinheiro
com isso.
Veja Moda ainda é uma coisa que o emociona? Ou está
tudo mais ou menos igual, previsível? Ford Eu
amo moda. Mas o que eu faço hoje é um tipo de
moda diferente do que eu fazia na Gucci. É menos ligado
a tendências e mais voltado para a qualidade. Fico muito
empolgado com um paletó bem cortado, com um modelo em
que a cor é linda e o caimento, perfeito.
Veja E nas outras marcas? Qual a última coisa que o senhor
viu e o deixou arrepiado? Ford Espero
que não pareça egocêntrico, mas me empolgo
mais com o que eu faço do que com o que os outros fazem.
Isso está na natureza do estilista. Tenho imenso respeito
pelo Karl Lagerfeld, por Miuccia Prada. Em moda feminina, acho
Nicolas Ghesquière (da grife Balenciaga) o que
há de mais interessante.
Veja Poucos homens conseguem, como o senhor, usar um terno sem
gravata e manter a classe, principalmente com a camisa desabotoada
a ponto de mostrar o peito. Qual é seu segredo? Ford Confiança.
Você pode usar qualquer coisa e ficar glamouroso, se for
seguro de si. Vejo pessoas andando na rua sem estilo algum,
mas ficam bem porque se sentem bem. Minha mensagem de moda para
todos os homens e todas as mulheres é: leiam revistas
de moda, se quiserem, mas depois joguem no lixo e vistam o que
faz com que se sintam bem. Não sigam tendências
para se sentir seguros. Podem seguir, se quiserem, se gostarem,
se lhes servirem. Mas desenvolvam seu estilo próprio.
Nunca vistam nada em que não se sintam à vontade.
Vestir-se é uma forma de expressar a personalidade.
Veja E o que deixa Tom Ford à vontade? Ford Agora,
por exemplo, estou de jeans, camisa de caubói, botas
de caubói, chapéu de caubói e óculos
escuros. Estou coberto de poeira e não tive tempo de
tomar banho, portanto estou muito sujo. Acho que o que faz eu
me sentir à vontade é usar a roupa certa no lugar
certo. Se estivesse em Nova York, teria tomado banho, colocado
um belo terno e sapatos brilhando. Estar vestido de acordo com
a ocasião, o lugar, o momento, a companhia, o ambiente
isso é que funciona em matéria de roupas.
Veja Por que é tão difícil vê-lo de
gravata? Ford Eu
até uso, em geral à noite, quando saio para jantar
num restaurante que exige. Mas qualquer coisa em volta do meu
pescoço me irrita. Minha preferência por camisas
abertas vem da necessidade de ficar com o pescoço livre.
E também, claro, porque tenho um belo tórax.
Veja Muita musculação? Ford Não.
Mas jogo tênis umas três vezes por semana, nado,
ando a cavalo, jogo golfe, faço escalada e, no inverno,
esquio muito. Recentemente comecei a fazer pilates para não
perder a agilidade.
Veja Mulheres em todo o planeta esperam sua volta à moda
feminina. Quando vai ser? Ford Talvez
nunca. Com certeza, não nos próximos dois ou três
anos. Estou muito ocupado construindo uma empresa e amo o que
estou fazendo. E se atenção: se
eu voltar para a moda feminina tem de ser de uma forma diferente,
para criar algo inovador. Acho que a moda feminina está
meio chata, mas não sei qual é a solução.
Se nunca descobrir, não vou voltar. Não quero
simplesmente voltar por voltar.