Stephen
Kanitz
Sempre
leia o original
"Na
próxima aula em que seu
professor fizer o resumo de um
livro só, ou lhe entregar uma
apostila mal escrita, levante-se
discretamente e vá direto
para
a biblioteca"
Ilustração Ale Setti
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Uma greve geral dos professores alguns anos atrás teve uma conseqüência
interessante. Reintroduziu, para milhares de estudantes, o valor esquecido
das bibliotecas. Os melhores alunos readquiriram uma competência
essencial para o mundo moderno voltaram a aprender sozinhos, como
antigamente. Muitos descobriram que alguns professores nem fazem tanta
falta assim. Descobriram também que nas bibliotecas estão
os livros originais, as obras que seus professores usavam para dar as
aulas, os grandes clássicos, os autores que fizeram suas ciências
famosas.
Muitos professores se limitam a elaborar resumos malfeitos dos grandes
livros. Quantas vezes você já assistiu a uma aula em que
o professor parecia estar lendo o material? Seria bem mais motivador e
eficiente deixar que os próprios alunos lessem os livros. Os professores
serviriam para tirar as dúvidas, que fatalmente surgiriam.
Hoje, muitas bibliotecas vivem vazias. Pergunte a seu filho quantos livros
ele tomou emprestado da biblioteca neste ano. Alguns nem saberão
onde ela fica. Talvez devêssemos pensar em construir mais bibliotecas
antes de contratar mais professores. Um professor universitário,
ganhando 4.000 reais por mês ao longo de trinta anos (mais os cerca
de vinte da aposentadoria), permitiria ao Estado comprar em torno de 130.000
livros, o suficiente para criar 130 bibliotecas. Seiscentos professores
poderiam financiar 5.000 bibliotecas de 10.000 livros cada uma, uma por
município do país.
Universidades são, por definição, elitistas, para
a alegria dos cursinhos. Bibliotecas são democráticas, aceitam
todas as classes sociais e etnias. Aceitam curiosos de todas as idades,
sete dias por semana, doze meses por ano. Bibliotecas permitem ao aluno
depender menos do professor e o ajudam a confiar mais em si.
Nunca esqueço minha primeira visita a uma grande biblioteca, e
a sensação de pegar nas mãos um livro escrito pelo
próprio Einstein, e logo em seguida o de cálculo de Newton.
Na época, eu queria ser físico nuclear.
Infelizmente, livros nunca entram em greve para alertar sobre o total
abandono em que se encontram nem protestam contra a enorme falta de bibliotecas
no Brasil. Visitei no ano passado uma escola secundária de Phillips
Exeter, numa cidade americana de 30.000 habitantes, no desconhecido Estado
de New Hampshire. Os alunos me mostraram com orgulho a biblioteca da escola,
de NOVE andares, com mais de 145.000 obras. A Biblioteca Mário
de Andrade, da cidade de São Paulo, tem 350.000. A bibliotecária
americana ganhava mais do que alguns dos professores, ao contrário
do que ocorre no Brasil, o que demonstra o enorme valor que se dá
às bibliotecas nos Estados Unidos.
Não quero parecer injusto com os milhares de professores que incentivam
os alunos a ler livros e a freqüentar bibliotecas. Nem quero que
sejam substituídos, pois são na realidade facilitadores
do aprendizado, motivam e estimulam os alunos a estudar, como acontece
com a maioria dos professores do primário e do colegial. Mas estes
estão ficando cada vez mais raros, a ponto de se tornarem assunto
de filme, como ocorre em Sociedade dos Poetas Mortos, com Robin
Williams.
Na próxima aula em que seu professor fizer o resumo de um livro
só, ou lhe entregar uma apostila mal escrita, levante-se discretamente
e vá direto para a biblioteca. Pegue um livro original de qualquer
área, sente-se numa cadeira confortável e leia, como se
fazia 500 anos atrás. Você terá um relato apaixonado,
aguçado, com os melhores argumentos possíveis, de um brilhante
pensador. Você vai ler alguém que tinha de convencer toda
a humanidade a mudar uma forma de pensar.
Um autor destemido e corajoso que estava colocando sua reputação,
e muitas vezes seu pescoço, em risco. Alguém que estava
escrevendo apaixonadamente para convencer uma pessoa bastante especial:
você.
Stephen
Kanitz foi professor universitário por trinta anos
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