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Edição 1 802 - 14 de maio de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

Negros, coronéis e
Sócrates

Assuntos em cartaz: preconceito
racial, ACM, Sarney, e o "conhece-te
a ti mesmo" de Lula

Ter um ministro negro no Supremo Tribunal Federal representa um avanço, não há dúvida, num país onde os negros há séculos são passageiros de terceira classe. Igualmente representa muito ter negros no ministério, uma boa bancada negra no Congresso, negros na diretoria de grandes empresas, na universidade, nas profissões chamadas liberais e na imprensa. Tudo o que signifique para os negros possibilidades de ascensão social mais amplas do que as oferecidas pelo antigo e caricato binômio futebol/música popular representará um passo importante na criação de uma sociedade harmônica e civilizada. Ainda assim...

Ainda assim, fica-se cogitando se a ênfase não está sendo posta na ponta errada da contradição social. Temos um negro no Supremo, mas não os temos entre os garçons, nos restaurantes dos Jardins, em São Paulo. Temos negros no ministério e no Congresso, mas faltam negros nas lojas dos shopping centers chiques das várias cidades do país. O desemprego entre os negros é maior do que entre os brancos não só por causa do nível educacional mais baixo, mas também da barreira odiosa representada pelo medo do patrão de, recrutando-os, espantar a freguesia, quando não se espantam eles próprios. É o estigma de outra caricata tradição da vida brasileira, aquela que se esconde sob o rótulo sinistro da "boa aparência".

Ao caminhar pela Quinta Avenida, em Nova York, e constatar que os negros ocupam postos nos mais elegantes estabelecimentos daquela parte elegante da cidade, verifica-se que os Estados Unidos levaram a sério a política de combate à segregação. Os americanos têm negros no Supremo, na assessoria da Casa Branca e na chefia do Departamento de Estado, mas os têm também nas lojas e nos restaurantes da moda. De certa forma, é mais fácil nomear um negro para o Supremo. Basta uma canetada. Coisa mais complexa e difícil, porque mexe com tolices e fantasias há muito incrustadas na sociedade, seria a luta para facilitar-lhes o acesso a funções aqui embaixo, que a maioria deles está apta a exercer, mas que lhes são interditadas por barreiras que não ousam dizer seu nome.

A decisão do Senado de trancar na gaveta o processo contra o senador Antônio Carlos Magalhães, sob a égide do presidente da casa, senador José Sarney, constituiu-se numa operação em que brilhou a dobradinha formada pelos dois mais notórios coronéis do país. Sinal de que o coronelismo, governo vai governo vem, direita ou esquerda no poder, mantém-se vivo e viçoso? Ou será que, ao contrário, significa o coronelismo nas últimas e grotescas apostas de sobrevivência? Não será fácil para Antônio Carlos Magalhães recuperar-se da desmoralização representada pelo episódio. São mínimas as possibilidades de ele voltar a operar, no plano federal, com a desenvoltura de antes. Sarney, de seu lado, manchou logo de início o novo mandato de presidente do Senado. Sai menos ferido do que o companheiro, mas também sai ferido. O caso prenuncia que os coronéis não conseguirão mais coronelar como outrora.

Além dos votos, da popularidade, do jeito bonachão, e de Marisa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a seu favor uma grande vantagem – a presunção de inocência. Ninguém acha que ele esconde esqueletos no armário, que tem rabo preso, esconde um saco de maldades ou possui outro dos atributos semelhantes que é costume associar aos políticos. Por isso, pode falar o que tem falado. Pode dizer que o Judiciário esconde uma caixa-preta e o preço disso lhe sair relativamente baixo. Imagine-se se Fernando Henrique Cardoso tivesse dito a mesma coisa.

Com um desprendimento que só a ele é permitido, Lula lançou-se a uma campanha em favor de o país olhar-se no espelho. "Não podemos jogar a culpa de nossa incompetência histórica em cima dos outros", disse na semana passada, repetindo um tema no qual tem insistido. Lula está decretando, e já estava mais do que na hora de alguém decretá-lo, do alto de um posto como a Presidência, que não vale mais invocar o imperialismo, a colonização e fatores que tais como desculpas para nossos atrasos. Mais audacioso ainda ele foi, também na semana passada, ao fechar o foco desse mesmo raciocínio em cima dos dirigentes do Nordeste. "A gente não pode criticar São Paulo, Minas ou Rio sem lembrar que muitas vezes a elite do Nordeste ganhou tanto dinheiro quanto a elite de São Paulo", disse, numa cerimônia em Aracaju, em resposta à queixa do governador de Sergipe, João Alves, de que o Nordeste teria sido prejudicado no processo de industrialização brasileira.

Bendito presidente Lula, sua pregação é a de um Sócrates redivivo, por estas rústicas ágoras tropicais. "Conhece-te a ti mesmo", ele está ensinando, como ensinava o grego. É uma lição tão valiosa quanto incômoda. Outro que ousasse proferi-la seria vilipendiado. A presunção de inocência o protege. O país ganha com isso.

 
 
   
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