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Roberto
Pompeu de Toledo
Negros, coronéis
– e
Sócrates
Assuntos
em cartaz:
preconceito
racial, ACM, Sarney, e o "conhece-te
a ti mesmo" de Lula
Ter um ministro
negro no Supremo Tribunal Federal representa um avanço, não
há dúvida, num país onde os negros há séculos
são passageiros de terceira classe. Igualmente representa muito
ter negros no ministério, uma boa bancada negra no Congresso, negros
na diretoria de grandes empresas, na universidade, nas profissões
chamadas liberais e na imprensa. Tudo o que signifique para os negros
possibilidades de ascensão social mais amplas do que as oferecidas
pelo antigo e caricato binômio futebol/música popular representará
um passo importante na criação de uma sociedade harmônica
e civilizada. Ainda assim...
Ainda assim,
fica-se cogitando se a ênfase não está sendo posta
na ponta errada da contradição social. Temos um negro no
Supremo, mas não os temos entre os garçons, nos restaurantes
dos Jardins, em São Paulo. Temos negros no ministério e
no Congresso, mas faltam negros nas lojas dos shopping centers chiques
das várias cidades do país. O desemprego entre os negros
é maior do que entre os brancos não só por causa
do nível educacional mais baixo, mas também da barreira
odiosa representada pelo medo do patrão de, recrutando-os, espantar
a freguesia, quando não se espantam eles próprios. É
o estigma de outra caricata tradição da vida brasileira,
aquela que se esconde sob o rótulo sinistro da "boa aparência".
Ao caminhar
pela Quinta Avenida, em Nova York, e constatar que os negros ocupam postos
nos mais elegantes estabelecimentos daquela parte elegante da cidade,
verifica-se que os Estados Unidos levaram a sério a política
de combate à segregação. Os americanos têm
negros no Supremo, na assessoria da Casa Branca e na chefia do Departamento
de Estado, mas os têm também nas lojas e nos restaurantes
da moda. De certa forma, é mais fácil nomear um negro para
o Supremo. Basta uma canetada. Coisa mais complexa e difícil, porque
mexe com tolices e fantasias há muito incrustadas na sociedade,
seria a luta para facilitar-lhes o acesso a funções aqui
embaixo, que a maioria deles está apta a exercer, mas que lhes
são interditadas por barreiras que não ousam dizer seu nome.
A decisão do Senado de trancar na gaveta o processo contra o senador
Antônio Carlos Magalhães, sob a égide do presidente
da casa, senador José Sarney, constituiu-se numa operação
em que brilhou a dobradinha formada pelos dois mais notórios coronéis
do país. Sinal de que o coronelismo, governo vai governo vem, direita
ou esquerda no poder, mantém-se vivo e viçoso? Ou será
que, ao contrário, significa o coronelismo nas últimas e
grotescas apostas de sobrevivência? Não será fácil
para Antônio Carlos Magalhães recuperar-se da desmoralização
representada pelo episódio. São mínimas as possibilidades
de ele voltar a operar, no plano federal, com a desenvoltura de antes.
Sarney, de seu lado, manchou logo de início o novo mandato de presidente
do Senado. Sai menos ferido do que o companheiro, mas também sai
ferido. O caso prenuncia que os coronéis não conseguirão
mais coronelar como outrora.
Além dos votos, da popularidade, do jeito bonachão, e de
Marisa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a seu favor
uma grande vantagem a presunção de inocência.
Ninguém acha que ele esconde esqueletos no armário, que
tem rabo preso, esconde um saco de maldades ou possui outro dos atributos
semelhantes que é costume associar aos políticos. Por isso,
pode falar o que tem falado. Pode dizer que o Judiciário esconde
uma caixa-preta e o preço disso lhe sair relativamente baixo. Imagine-se
se Fernando Henrique Cardoso tivesse dito a mesma coisa.
Com um desprendimento
que só a ele é permitido, Lula lançou-se a uma campanha
em favor de o país olhar-se no espelho. "Não podemos jogar
a culpa de nossa incompetência histórica em cima dos outros",
disse na semana passada, repetindo um tema no qual tem insistido. Lula
está decretando, e já estava mais do que na hora de alguém
decretá-lo, do alto de um posto como a Presidência, que não
vale mais invocar o imperialismo, a colonização e fatores
que tais como desculpas para nossos atrasos. Mais audacioso ainda ele
foi, também na semana passada, ao fechar o foco desse mesmo raciocínio
em cima dos dirigentes do Nordeste. "A gente não pode criticar
São Paulo, Minas ou Rio sem lembrar que muitas vezes a elite do
Nordeste ganhou tanto dinheiro quanto a elite de São Paulo", disse,
numa cerimônia em Aracaju, em resposta à queixa do governador
de Sergipe, João Alves, de que o Nordeste teria sido prejudicado
no processo de industrialização brasileira.
Bendito
presidente Lula, sua pregação é a de um Sócrates
redivivo, por estas rústicas ágoras tropicais. "Conhece-te
a ti mesmo", ele está ensinando, como ensinava o grego. É
uma lição tão valiosa quanto incômoda. Outro
que ousasse proferi-la seria vilipendiado. A presunção de
inocência o protege. O país ganha com isso.
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