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O preferido das coroas

O cantor Ney Matogrosso não
é bom-moço nem galã. Mas sua
maneira de cantar enlouquece
as senhoras

Sérgio Martins

 
André Penner/Kromo
Matogrosso, entre algumas fãs: nos shows, as mais afoitas chegam a agarrá-lo

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O cantor Ney Matogrosso exerce uma misteriosa atração sobre as senhoras brasileiras. Em todos os seus shows lá estão elas, mulheres que já entraram na terceira idade ou então se aproximam dela, agindo como tietes. Nada mais inesperado, tendo em vista o perfil de outros artistas apreciados por esse público. Primeiro, cantores de música romântica e jeitão galante, como Roberto Carlos e Agnaldo Rayol. Segundo, bons-moços como o sertanejo Daniel – o genro dos sonhos das donas-de-casa. Ney Matogrosso é o oposto disso tudo. Ele é bissexual assumido e, mesmo aos 61 anos, exibe no palco um rebolado de fazer inveja às passistas de escola de samba. E as senhoras adoram. Os pontos mais intensos de suas apresentações costumam ser os de interação com elas. Ney até desce à platéia para se entregar às fãs. "Desde que fique na brincadeira, tudo bem. Deixo elas pegarem na minha perna", afirma ele. Uma loucura.

Para as senhoras mais recatadas, a qualidade do repertório e da interpretação justifica o apreço pelo cantor. "Eu tenho admiração pela voz dele há muito tempo. E o Ney tem cantado umas músicas antigas muito bonitas", diz Eunice Molina Alexandroni, de 70 anos, que se locomove de Bragança Paulista, no interior de São Paulo, cada vez que o ídolo aporta na capital do Estado. De fato, nos últimos anos Ney Matogrosso gravou discos dedicados aos sucessos de Ângela Maria, Villa-Lobos e, mais recentemente, Cartola. Seus lançamentos têm vendido entre 50.000 e 150.000 cópias e garantem ao músico uma agenda de dez shows mensais. Na equipe do artista, contudo, a teoria oficial sobre o sucesso com a terceira idade é outra. "Elas podem até disfarçar, mas no fundo é o rebolado que faz mais sucesso", diz uma produtora.

Autora do livro Sexo e Afeto na Terceira Idade, a psicoterapeuta paulista Ana Fraiman acha que não há como escapar do fato: é mesmo pela libido que Ney Matogrosso cativa as senhoras. Nem os versos cheios de compostura do sambista Cartola ficam imunes à lascívia do cantor. No disco e no DVD Ney Matogrosso Interpreta Cartola ao Vivo, que será lançado nas próximas semanas em apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, ele derrama sensualidade sobre composições como Basta de Clamares Inocência. "Cartola falava muito sobre o desejo", explica o cantor.

Ney Matogrosso despontou nos anos 70 com o grupo Secos & Molhados e depois partiu para carreira-solo. No espetáculo Bandido, de 1977, ele desafiava a censura trocando de roupa na frente da platéia, exibindo visual andrógino e entoando letras de duplo sentido. "Ney foi um marco, porque rompeu tabus e deixou a sexualidade aflorar", teoriza Ana Fraiman. Mesmo naquela época, algumas senhoras de mais idade já se encantavam com ele. Ney ainda se lembra de uma mulher inteiramente grisalha que encontrou na bilheteria de Bandido. "Ela olhou para mim e perguntou: 'Então é você que enlouquece as mulheres?'." O efeito é ainda mais poderoso para aquelas que começaram a ouvi-lo naquele tempo e continuaram fãs enquanto envelheciam. "Quando ele mexe a língua, é como se todas as mulheres da platéia se sentissem beijadas", diz Ana Fraiman – que, por sinal, tem 56 anos e também é fã de Ney.

   
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