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Edição 1 802 - 14 de maio de 2003
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Quem será a nova Evita?

Belas, poderosas e carismáticas, as
mulheres dos candidatos a presidente
esquentam a morna eleição argentina

Raul Juste Lores


Fotos Editorial Perfil
Cecilia Bolocco: ex-miss Universo, loira natural e, dizem, grávida de Carlos Menem


Às voltas com uma escolha desanimada entre dois candidatos presidenciais do mesmo partido peronista, cujos defeitos são mais visíveis que as qualidades, os argentinos estão empolgados com uma disputa muito mais interessante: a escolha da primeira-dama. Em um país com tradição de primeiras-damas loiras e poderosas, a imprensa argentina discute de modo acalorado qual das mulheres de candidatos tem estofo para ser a Evita Perón do século XXI – e, evidentemente, ajudar o marido a ganhar as eleições. As pesquisas de intenção de voto dizem que a próxima primeira-dama será Cristina Fernández de Kirchner, 50 anos, cuja desenvoltura política e cujos cabelos tingidos com hena ofuscam totalmente o marido, Néstor. Senadora, ela é chamada pelos colegas parlamentares de Miss Congresso. Ainda assim, não se deve descartar o poder de sedução eleitoral da beleza e elegância de Cecilia Bolocco, a mulher de Carlos Menem. Trinta e cinco anos mais jovem e 5 centímetros mais alta que o septuagenário ex-presidente, Cecilia foi miss Universo pelo Chile, sua terra natal.

O que Cristina tem – e Cecilia não – é luz própria na política. Até pouco tempo atrás, ela era muito mais conhecida em Buenos Aires que o marido. Enquanto Néstor Kirchner governava a longínqua província de Santa Cruz (população: 200.000 habitantes), Cristina era a voz mais ouvida na comissão parlamentar encarregada de investigar acusações de corrupção e lavagem de dinheiro no governo de Carlos Menem (1989-1999), de quem se transformou na pior inimiga. Ela também fazia aguerrida oposição ao presidente Eduardo Duhalde, outro cacique peronista. É claro que mudou de atitude depois de Duhalde bancar a candidatura do marido. Cristina preside hoje a Comissão de Assuntos Constitucionais do Senado e já avisou que, se o marido for eleito, não se encarregará de um órgão de serviço social do governo, como fazem tantas primeiras-damas, nem aceitará cargo no ministério. Casada há 28 anos e com dois filhos, ela sustenta que "os cuidados com a beleza não são incompatíveis com a atividade política". O corpo esguio é garantido por uma hora diária de ginástica e uma dieta espartana (almoça apenas frutas). A maquiagem carregada, bem ao gosto das argentinas, é completada com muita roupa vermelha e calças jeans ou de couro bem justas. "Já nasci maquiada", brinca a senadora.


Perón teve duas mulheres. Uma virou santa do peronismo.
A outra foi presidente

O que Cecilia Bolocco tem – e Cristina não – é uma carreira diante das câmeras de televisão. Filha de um empresário rico e muito amigo do ditador chileno Augusto Pinochet, ela foi miss Universo em 1987, depois se tornou apresentadora da CNN em espanhol (foi a âncora da cobertura da Guerra do Golfo, em 1991) e comandou durante anos um programa de entrevistas de enorme sucesso na televisão chilena. Seu primeiro marido foi um produtor de TV americano. Ela teve vários namorados passageiros (as línguas afiadas de Santiago dizem que foi mais que amiga do escritor brasileiro Paulo Coelho) até se casar com Menem, em 2001. Cecilia tem um trunfo eleitoral: a gravidez. Bem, não se sabe com certeza se realmente espera um bebê. No reality show em que se transformou a política argentina, menos que de seus planos para a economia, os eleitores querem saber se o ex-presidente é vigoroso o bastante para ter um filho com a idade que tem. Se for, acreditam seus marqueteiros, estará provado que também possui fôlego para mais uma temporada na Casa Rosada.

 
Cristina de Kirchner: senadora, mais popular que o marido. À direita, a ex-modelo Karina Rabollini, mulher do vice de Kirchner

Os argentinos acompanham como se fosse uma telenovela o esforço de Cecilia para engravidar. Em fevereiro, ela internou-se numa clínica de fertilização artificial em Santiago do Chile, mas a gravidez nunca foi confirmada oficialmente. Nos bastidores, os assessores do marido garantem que ela espera gêmeos. Menem está com 72 anos e já se submeteu a sete operações plásticas de rejuvenescimento. Nesta campanha, tem cuidado da aparência com tintura para o cabelo e aplicações de Botox para disfarçar as rugas. Durante seus dez anos na Casa Rosada, a sede da Presidência, Menem separou-se da primeira mulher, Zulema. A filha, Zulemita, assumiu então as funções protocolares de primeira-dama. Ela desaprovou o segundo casamento e deixou de falar com o pai. Zulemita vai se casar no próximo mês, e Menem nem sequer foi convidado.

Kirchner, que na semana passada recebeu em Brasília tratamento de presidente eleito, não tem nada tão dramático a oferecer ao eleitor. Poderia insinuar, talvez, que, se acontecer alguma coisa com ele, a Argentina estará igualmente bem servida de primeira-dama. Isso porque Karina Rabollini, 36 anos, mulher do candidato a vice de Kirchner (Daniel Scioli, ex-campeão de motonáutica), é ainda mais atraente que Cristina e Cecilia. Ex-modelo e dona de uma fábrica de cremes de beleza, Karina é discretíssima para os padrões locais e sempre aparece com pouca maquiagem e vestidos em tons pastel. Nesse quesito, Menem perde feio: a esposa de seu vice é uma senhora totalmente sem graça.

Em quem os argentinos votariam para primeira-dama é uma pergunta hipotética, mas não irrelevante. A figura da primeira-dama tem um peso histórico sem paralelo com o Brasil. No fim dos anos 40, Evita, mulher do presidente Juan Domingo Perón, o fundador do partido de Kirchner e Menem, administrou um formidável programa de distribuição de dinheiro, apartamentos e comida para os pobres. Com isso ganhou popularidade e, depois de sua morte, precoce, em 1952, se tornou uma espécie de santa do peronismo. Novamente presidente, Perón morreu em 1974 e foi sucedido por sua última mulher, Isabelita, que era a vice. Ambas as mulheres de Perón eram loiras e ambas tinham sido artistas do teatro de revista, um gênero ainda muito popular na Argentina. Se conseguiram acumular tanto poder, imagine aonde pode chegar Cristina de Kirchner, que é senadora e boa oradora. Ou Cecilia. A mulher de Menem nunca foi do teatro de revista, mas, é bom que se diga, é uma loira genuína. Sem tintura.

 
 
   
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