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Quem
será a nova Evita?
Belas, poderosas e carismáticas, as
mulheres dos candidatos a presidente
esquentam a morna eleição argentina
Raul
Juste Lores
| Fotos Editorial Perfil |
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| Cecilia
Bolocco: ex-miss Universo, loira natural e, dizem, grávida
de Carlos Menem |
Às voltas com uma escolha desanimada entre dois candidatos presidenciais
do mesmo partido peronista, cujos defeitos são mais visíveis
que as qualidades, os argentinos estão empolgados com uma disputa
muito mais interessante: a escolha da primeira-dama. Em um país
com tradição de primeiras-damas loiras e poderosas, a imprensa
argentina discute de modo acalorado qual das mulheres de candidatos tem
estofo para ser a Evita Perón do século XXI e, evidentemente,
ajudar o marido a ganhar as eleições. As pesquisas de intenção
de voto dizem que a próxima primeira-dama será Cristina
Fernández de Kirchner, 50 anos, cuja desenvoltura política
e cujos cabelos tingidos com hena ofuscam totalmente o marido, Néstor.
Senadora, ela é chamada pelos colegas parlamentares de Miss Congresso.
Ainda assim, não se deve descartar o poder de sedução
eleitoral da beleza e elegância de Cecilia Bolocco, a mulher de
Carlos Menem. Trinta e cinco anos mais jovem e 5 centímetros mais
alta que o septuagenário ex-presidente, Cecilia foi miss Universo
pelo Chile, sua terra natal.
O que Cristina tem e Cecilia não é luz própria
na política. Até pouco tempo atrás, ela era muito
mais conhecida em Buenos Aires que o marido. Enquanto Néstor Kirchner
governava a longínqua província de Santa Cruz (população:
200.000 habitantes), Cristina era a voz mais ouvida na comissão
parlamentar encarregada de investigar acusações de corrupção
e lavagem de dinheiro no governo de Carlos Menem (1989-1999), de quem
se transformou na pior inimiga. Ela também fazia aguerrida oposição
ao presidente Eduardo Duhalde, outro cacique peronista. É claro
que mudou de atitude depois de Duhalde bancar a candidatura do marido.
Cristina preside hoje a Comissão de Assuntos Constitucionais do
Senado e já avisou que, se o marido for eleito, não se encarregará
de um órgão de serviço social do governo, como fazem
tantas primeiras-damas, nem aceitará cargo no ministério.
Casada há 28 anos e com dois filhos, ela sustenta que "os cuidados
com a beleza não são incompatíveis com a atividade
política". O corpo esguio é garantido por uma hora diária
de ginástica e uma dieta espartana (almoça apenas frutas).
A maquiagem carregada, bem ao gosto das argentinas, é completada
com muita roupa vermelha e calças jeans ou de couro bem justas.
"Já nasci maquiada", brinca a senadora.
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Perón
teve duas mulheres. Uma virou santa do peronismo.
A outra foi presidente
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O
que Cecilia Bolocco tem e Cristina não é uma
carreira diante das câmeras de televisão. Filha de um empresário
rico e muito amigo do ditador chileno Augusto Pinochet, ela foi miss Universo
em 1987, depois se tornou apresentadora da CNN em espanhol (foi a âncora
da cobertura da Guerra do Golfo, em 1991) e comandou durante anos um programa
de entrevistas de enorme sucesso na televisão chilena. Seu primeiro
marido foi um produtor de TV americano. Ela teve vários namorados
passageiros (as línguas afiadas de Santiago dizem que foi mais
que amiga do escritor brasileiro Paulo Coelho) até se casar com
Menem, em 2001. Cecilia tem um trunfo eleitoral: a gravidez. Bem, não
se sabe com certeza se realmente espera um bebê. No reality show
em que se transformou a política argentina, menos que de seus
planos para a economia, os eleitores querem saber se o ex-presidente é
vigoroso o bastante para ter um filho com a idade que tem. Se for, acreditam
seus marqueteiros, estará provado que também possui fôlego
para mais uma temporada na Casa Rosada.
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| Cristina
de Kirchner: senadora, mais popular que o marido. À direita,
a ex-modelo Karina Rabollini, mulher do vice de Kirchner |
Os
argentinos acompanham como se fosse uma telenovela o esforço de
Cecilia para engravidar. Em fevereiro, ela internou-se numa clínica
de fertilização artificial em Santiago do Chile, mas a gravidez
nunca foi confirmada oficialmente. Nos bastidores, os assessores do marido
garantem que ela espera gêmeos. Menem está com 72 anos e
já se submeteu a sete operações plásticas
de rejuvenescimento. Nesta campanha, tem cuidado da aparência com
tintura para o cabelo e aplicações de Botox para disfarçar
as rugas. Durante seus dez anos na Casa Rosada, a sede da Presidência,
Menem separou-se da primeira mulher, Zulema. A filha, Zulemita, assumiu
então as funções protocolares de primeira-dama. Ela
desaprovou o segundo casamento e deixou de falar com o pai. Zulemita vai
se casar no próximo mês, e Menem nem sequer foi convidado.
Kirchner, que na semana passada recebeu em Brasília tratamento
de presidente eleito, não tem nada tão dramático
a oferecer ao eleitor. Poderia insinuar, talvez, que, se acontecer alguma
coisa com ele, a Argentina estará igualmente bem servida de primeira-dama.
Isso porque Karina Rabollini, 36 anos, mulher do candidato a vice de Kirchner
(Daniel Scioli, ex-campeão de motonáutica), é ainda
mais atraente que Cristina e Cecilia. Ex-modelo e dona de uma fábrica
de cremes de beleza, Karina é discretíssima para os padrões
locais e sempre aparece com pouca maquiagem e vestidos em tons pastel.
Nesse quesito, Menem perde feio: a esposa de seu vice é uma senhora
totalmente sem graça.
Em quem os argentinos votariam para primeira-dama é uma pergunta
hipotética, mas não irrelevante. A figura da primeira-dama
tem um peso histórico sem paralelo com o Brasil. No fim dos anos
40, Evita, mulher do presidente Juan Domingo Perón, o fundador
do partido de Kirchner e Menem, administrou um formidável programa
de distribuição de dinheiro, apartamentos e comida para
os pobres. Com isso ganhou popularidade e, depois de sua morte, precoce,
em 1952, se tornou uma espécie de santa do peronismo. Novamente
presidente, Perón morreu em 1974 e foi sucedido por sua última
mulher, Isabelita, que era a vice. Ambas as mulheres de Perón eram
loiras e ambas tinham sido artistas do teatro de revista, um gênero
ainda muito popular na Argentina. Se conseguiram acumular tanto poder,
imagine aonde pode chegar Cristina de Kirchner, que é senadora
e boa oradora. Ou Cecilia. A mulher de Menem nunca foi do teatro de revista,
mas, é bom que se diga, é uma loira genuína. Sem
tintura.
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