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Gentil no trato pessoal, José Luís Cutrale recebeu VEJA
em três ocasiões, num total de dezesseis horas de conversa.
Nas entrevistas, chamou a atenção dos jornalistas a elegância
do entrevistado. Usava ternos da grife italiana Ermenegildo Zegna (4.000
reais cada um), camisas francesas Façonnable (600 reais) e sapatos
ingleses Church (a partir de 1 500 reais o par). Também não
passaram despercebidos alguns comentários estranhos. No segundo
e no terceiro encontros, José Luís contou aos jornalistas
da revista que mantinha em seu poder gravações das entrevistas
feitas pelos repórteres com amigos seus e concorrentes. E que seu
diretor jurídico o havia aconselhado a processar VEJA antes da
publicação da matéria. Perguntado sobre a razão
do processo, não deu esclarecimentos.
O mercado de laranja é dos mais concentrados do mundo, tanto do
ponto de vista geográfico quanto do ponto de vista econômico.
Cerca de 90% dos laranjais se situam em apenas dois lugares: o Estado
da Flórida, nos Estados Unidos, e o Estado de São Paulo,
no Brasil. Essas regiões concentram milhares de plantadores que
vendem a produção a apenas quinze empresas que fazem o concentrado
para distribuição em escala mundial. Delas, nove são
companhias nos Estados Unidos e seis no Brasil. Entre as estrangeiras,
atuam no setor a Cargill, uma das maiores empresas de alimentos do planeta,
e a gigante francesa Dreyfus. Entre os competidores nacionais, destaca-se
a Votorantim, um dos maiores grupos empresariais do país. Até
a década de 80, as fábricas americanas mantinham-se na liderança
do mercado de suco, mas uma geada que arrasou os laranjais da Flórida
mudou o cenário e o Brasil assumiu a frente. O grande diferencial
entre São Paulo e Flórida se dá no preço.
O custo de colheita e do transporte por caixa na Flórida é
quase quatro vezes mais alto do que em São Paulo. A diferença
se deve principalmente ao peso da mão-de-obra no preço final,
que no Brasil é muito mais baixo. Os Estados Unidos compensam a
desvantagem comparativa com tarifas alfandegárias elevadas. No
fim dos anos 90, Cutrale conseguiu colocar seu pé em solo americano
ao comprar da Coca-Cola duas fábricas de suco localizadas na Flórida.
Com isso, ocupou uma posição estratégica. Ele produz
e lucra no Brasil da mão-de-obra barata e nos Estados Unidos da
alíquota alfandegária elevada.
A laranja é a segunda principal fonte de riquezas da Flórida
e o sexto produto mais importante da pauta de exportações
agrícolas do Brasil. Esse choque de interesses coloca fazendeiros
americanos e brasileiros num permanente estado de guerra, que envolve
disputas diplomáticas e um pesado jogo de acusações.
O deputado republicano pelo Estado da Flórida, Mark Foley, tem
como plataforma combater os produtores brasileiros de suco. Ele defende
que o governo americano use satélites militares para espionar os
laranjais no Brasil. Num artigo recente, Andy LaVigne, diretor da associação
dos produtores de suco de laranja da Flórida, escreveu que os brasileiros
"só são competitivos porque se beneficiaram de vantagens
trazidas de um passado de subsídios e dumping, ausência de
proteção ambiental, legislação ineficiente
contra trabalho infantil, desvalorizações cambiais freqüentes,
oligopólio e manipulação dos preços futuros
de concentrado".
A compra da fábrica da Coca-Cola por Cutrale tornou o ambiente
ainda mais tenso. Há três anos, um funcionário da
Cutrale na Flórida morreu em um acidente elétrico. O sindicato
alegou falhas na segurança e organizou uma greve que durou seis
semanas. Um ano depois, a demissão de um funcionário com
mais de trinta anos de casa gerou nova onda de protestos. No terceiro
episódio da disputa entre os empregados e a Cutrale, o sindicato
denunciou a dispensa de 140 dos 200 funcionários em represália
aos protestos. Há alguns anos, a empresa tentou comprar uma fazenda
para plantar laranja na Flórida. O departamento de meio ambiente
do Estado barrou o projeto alegando que na área vive um pássaro
raro. O negócio foi desfeito e meses depois a fazenda foi vendida
a um rancheiro texano. Cutrale conta que para contornar mais dissabores
desse tipo ele tenta manter uma boa relação com poderosos
locais, como o governador da Flórida, Jeb Bush, irmão do
presidente George W. Bush. Jeb Bush já o visitou no Brasil e escreveu
uma carta de boas-vindas para José Luís quando a Cutrale
comprou suas fábricas na Flórida. No texto, Jeb Bush agradece
a Cutrale por criar empregos em seu Estado. A carta acabou emoldurada
e, agora, decora seu escritório.
Manter a proximidade do poder é um traço da família
Cutrale. Segundo conta José Luís, ele e seu pai foram recebidos
por quase todos os presidentes da República nos últimos
trinta anos. O único que não lhes deu atenção
foi Fernando Henrique Cardoso. José Luís Cutrale recorda-se
de uma cena constrangedora que protagonizou em Brasília, quando
foi encontrar-se com FHC, então ministro das Relações
Exteriores de Itamar Franco. Depois de tomarem um chá-de-cadeira,
Fernando Henrique recebeu ele e seu pai, mas interrompeu a reunião
para ir ao Palácio do Planalto e não apareceu mais. "Ele
falou que ia voltar, mas sumiu", disse José Luís a VEJA.
Os Cutrale foram apresentados ao poder em 1972, quando a empresa foi escolhida
a exportadora do ano. José Luís Cutrale acompanhou o pai
na solenidade de premiação. Coube ao presidente Emílio
Médici entregar o prêmio, em cerimônia realizada no
Palácio da Guanabara, no Rio. "Eu e meu pai estávamos tremendo.
Foi a primeira vez que entramos num palácio." Médici convidou
os Cutrale para conversar depois da solenidade. No meio da conversa, pediu
um cigarro a José Luís. Ele lembra que sentiu um calafrio.
Tinha um maço de Minister guardado no bolso da calça, já
meio amassado. Entregou um cigarro torto ao presidente da República,
"igual a cigarro de bêbado". "O presidente fumou aquele cigarro
torto, virado para baixo, e depois pediu outro. Era uma moça" (de
delicadeza).
Fotos Claudio Rossi
 |
O
REI DO AÇÚCAR
Nome: Rubens Ometto, o maior exportador individual de
açúcar de cana do mundo
Empresa:
Grupo Cosan
Faturamento:
2,1 bilhões
de reais por ano
Patrimônio
do grupo:
3,3 bilhões de reais |
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Cutrale
soube cultivar um bom relacionamento no Palácio do Planalto. Gostava
muito de José Sarney, mas admirava mesmo Fernando Collor, cuja
campanha financiou. Ainda hoje o considera o político mais preparado
para dirigir o país, "se não fossem aqueles problemas".
O encantamento por Collor o ajudou a enfrentar a crise mais difícil
que a família já atravessou. Em 1990, um tio de José
Luís foi seqüestrado e os bandidos pediam 5 milhões
de dólares para libertá-lo. O empresário ligou para
o banqueiro Pedro Conde e pediu o dinheiro. Conde explicou que o Banco
Central proibira os bancos de manter uma quantia expressiva em dólares
no caixa. O governo havia decretado o confisco do dinheiro depositado
nos bancos. Cutrale telefonou para o presidente Collor e explicou a situação.
No dia seguinte, contou José Luís a VEJA, dois carros-fortes
pararam em frente da casa de seu pai, em São Paulo, com o dinheiro
do resgate. "Era tanto dinheiro que foram necessárias duas malas
de viagem Samsonite para acomodar tudo", conta o empresário. Incumbido
de negociar com os seqüestradores, Cutrale acabou libertando o tio
em troca de 1,2 milhão de dólares.
No governo Lula, Cutrale conta que mantém boas relações
com o presidente. Elas se tornaram amistosas depois que, durante a campanha,
Lula o tranqüilizou a respeito do que faria com a economia em caso
de vitória. "Ele me disse que não ia mexer com quem estava
produzindo e que o que ia fazer era colocar o governo para ajudar os pobres.
Acreditei." Num dos encontros com a reportagem de VEJA, José Luís
sacou da pasta um punhado de charutos cubanos da marca Cohiba e Montecristo
para dizer em seguida: "Esses eu estou levando para o Lula".
A grande preocupação profissional da Cutrale é a
Citrosuco, fundada pelo empresário alemão Carl Fischer,
já falecido. A Citrosuco é quase do tamanho da Cutrale e
foi responsável por alguns dos grandes lances no mercado mundial
de laranja. Ela foi pioneira na assinatura de contratos com fábricas
de concentrado de laranja nos Estados Unidos e também a primeira
companhia a operar terminais portuários e navios especiais para
o transporte de suco de laranja. Entrou no mercado seis anos antes da
Cutrale, tinha capital e empregava os melhores técnicos do mundo.
Por vinte anos a Cutrale sempre esteve atrás da Citrosuco. A virada
se deu depois que Carl Fischer morreu, em 1988. Nos últimos anos
a Cutrale fez algumas jogadas de grande ousadia. Enquanto o concorrente
lutava para abrir mercados no exterior, a Cutrale apostou que poderia
ganhar o jogo intensificando a compra de laranjais. Segundo os especialistas,
foi uma estratégia correta. O custo da caixa produzida em pomar
próprio equivale a um terço do preço de mercado.
Cerca de 40% do suco que a Cutrale produz é feito com laranja de
seus pomares. A Citrosuco fabrica perto de 25% de suco com fruta dos próprios
pomares, o que afeta seu lucro. Há dez anos, a empresa assumiu
a liderança do mercado pela primeira vez e teme perdê-la.
A diferença é muito pequena.
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O
REI DA SOJA
Nome:
Blairo Maggi, o maior produtor individual do grão
no mundo
Empresa:
Grupo André Maggi
Faturamento:
1,3 bilhão de reais por ano
Patrimônio
do grupo: 4,5 bilhões de reais |
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Em
2000, a Citrosuco fez uma investida pesada para retomar a liderança.
Ricardo Ermírio de Moraes casou-se com uma das herdeiras da Citrosuco
e passou a dirigir a empresa. Ele já havia trabalhado no negócio
de laranja na Votorantim, empresa de sua família. À frente
da Citrosuco, Ricardo moveu uma guerra de preços contra a Cutrale.
A base de seu plano era conquistar plantadores de laranja que mantinham
contrato com a Cutrale pagando a eles preços melhores pelas caixas
colhidas. Frederico Oscar Hotz, presidente de uma cooperativa de produtores
de laranja, confirma o abalo no mercado com a entrada de Ricardo Ermírio
na Citrosuco. "Pela primeira vez existiu disputa de preço entre
os fabricantes de suco", diz Hotz. A ação da Citrosuco durou
cerca de dois anos, mas não funcionou. Os custos subiram, a lucratividade
caiu e a liderança da Cutrale não foi abalada. O ataque
parou depois que a Citrosuco perdeu 1,5 bilhão de reais com o confronto.
O valor do prejuízo foi passado a VEJA por analistas de mercado
que tiveram acesso aos números. Ricardo foi afastado. Seu sucessor,
Norberto Farina, recebeu orientação da família Fischer
para fazer as pazes com o concorrente.
O Brasil rural possui uma presença significativa no comércio
internacional. É o segundo maior exportador mundial de soja, segundo
na produção de carne e o primeiro nas culturas de cana-de-açúcar
e café. Considerados em bloco, os produtos de origem agropecuária
representam 27% das exportações e vão gerar neste
ano um superávit comercial superior a 20 bilhões de dólares.
Quando observados em separado, o Brasil também se destaca em diversas
culturas. Além do rei da laranja, o rei da soja é um brasileiro.
Chama-se Blairo Maggi, é paranaense e se elegeu governador pelo
Estado de Mato Grosso no ano passado. Colhendo o equivalente a 1,3 bilhão
de reais em soja por ano, com produtividade até 30% superior à
média americana, detém o posto de maior plantador individual
do grão. É também brasileiro o rei do açúcar,
Rubens Ometto, de tradicional família usineira paulista, cujo negócio
movimenta mais de 2 bilhões de reais por ano. Seu grupo possui
o título de maior produtor individual de açúcar do
mundo. São dois entre muitos casos de sucesso que o campo tem produzido
(e continua a produzir) no processo de retomada de crescimento econômico
registrado dos últimos anos. Se a agricultura continuar a progredir,
novos reis certamente surgirão.
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Cutrale
e o poder
Roberto Castro/AE
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COLLOR
O
caso das malas
de dinheiro
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Luis Humberto
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MÉDICI
O
caso do "cigarro
de bêbado" |
JEB BUSH
O caso da carta
do governador americano |
Antonio Milena
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LULA
O caso dos "charutos
do presidente"
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Com reportagem de Camila Antunes
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