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Edição 1 802 - 14 de maio de 2003
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2000|01|02|03


 

Gentil no trato pessoal, José Luís Cutrale recebeu VEJA em três ocasiões, num total de dezesseis horas de conversa. Nas entrevistas, chamou a atenção dos jornalistas a elegância do entrevistado. Usava ternos da grife italiana Ermenegildo Zegna (4.000 reais cada um), camisas francesas Façonnable (600 reais) e sapatos ingleses Church (a partir de 1 500 reais o par). Também não passaram despercebidos alguns comentários estranhos. No segundo e no terceiro encontros, José Luís contou aos jornalistas da revista que mantinha em seu poder gravações das entrevistas feitas pelos repórteres com amigos seus e concorrentes. E que seu diretor jurídico o havia aconselhado a processar VEJA antes da publicação da matéria. Perguntado sobre a razão do processo, não deu esclarecimentos.

O mercado de laranja é dos mais concentrados do mundo, tanto do ponto de vista geográfico quanto do ponto de vista econômico. Cerca de 90% dos laranjais se situam em apenas dois lugares: o Estado da Flórida, nos Estados Unidos, e o Estado de São Paulo, no Brasil. Essas regiões concentram milhares de plantadores que vendem a produção a apenas quinze empresas que fazem o concentrado para distribuição em escala mundial. Delas, nove são companhias nos Estados Unidos e seis no Brasil. Entre as estrangeiras, atuam no setor a Cargill, uma das maiores empresas de alimentos do planeta, e a gigante francesa Dreyfus. Entre os competidores nacionais, destaca-se a Votorantim, um dos maiores grupos empresariais do país. Até a década de 80, as fábricas americanas mantinham-se na liderança do mercado de suco, mas uma geada que arrasou os laranjais da Flórida mudou o cenário e o Brasil assumiu a frente. O grande diferencial entre São Paulo e Flórida se dá no preço. O custo de colheita e do transporte por caixa na Flórida é quase quatro vezes mais alto do que em São Paulo. A diferença se deve principalmente ao peso da mão-de-obra no preço final, que no Brasil é muito mais baixo. Os Estados Unidos compensam a desvantagem comparativa com tarifas alfandegárias elevadas. No fim dos anos 90, Cutrale conseguiu colocar seu pé em solo americano ao comprar da Coca-Cola duas fábricas de suco localizadas na Flórida. Com isso, ocupou uma posição estratégica. Ele produz e lucra no Brasil da mão-de-obra barata e nos Estados Unidos da alíquota alfandegária elevada.

A laranja é a segunda principal fonte de riquezas da Flórida e o sexto produto mais importante da pauta de exportações agrícolas do Brasil. Esse choque de interesses coloca fazendeiros americanos e brasileiros num permanente estado de guerra, que envolve disputas diplomáticas e um pesado jogo de acusações. O deputado republicano pelo Estado da Flórida, Mark Foley, tem como plataforma combater os produtores brasileiros de suco. Ele defende que o governo americano use satélites militares para espionar os laranjais no Brasil. Num artigo recente, Andy LaVigne, diretor da associação dos produtores de suco de laranja da Flórida, escreveu que os brasileiros "só são competitivos porque se beneficiaram de vantagens trazidas de um passado de subsídios e dumping, ausência de proteção ambiental, legislação ineficiente contra trabalho infantil, desvalorizações cambiais freqüentes, oligopólio e manipulação dos preços futuros de concentrado".

A compra da fábrica da Coca-Cola por Cutrale tornou o ambiente ainda mais tenso. Há três anos, um funcionário da Cutrale na Flórida morreu em um acidente elétrico. O sindicato alegou falhas na segurança e organizou uma greve que durou seis semanas. Um ano depois, a demissão de um funcionário com mais de trinta anos de casa gerou nova onda de protestos. No terceiro episódio da disputa entre os empregados e a Cutrale, o sindicato denunciou a dispensa de 140 dos 200 funcionários em represália aos protestos. Há alguns anos, a empresa tentou comprar uma fazenda para plantar laranja na Flórida. O departamento de meio ambiente do Estado barrou o projeto alegando que na área vive um pássaro raro. O negócio foi desfeito e meses depois a fazenda foi vendida a um rancheiro texano. Cutrale conta que para contornar mais dissabores desse tipo ele tenta manter uma boa relação com poderosos locais, como o governador da Flórida, Jeb Bush, irmão do presidente George W. Bush. Jeb Bush já o visitou no Brasil e escreveu uma carta de boas-vindas para José Luís quando a Cutrale comprou suas fábricas na Flórida. No texto, Jeb Bush agradece a Cutrale por criar empregos em seu Estado. A carta acabou emoldurada e, agora, decora seu escritório.

Manter a proximidade do poder é um traço da família Cutrale. Segundo conta José Luís, ele e seu pai foram recebidos por quase todos os presidentes da República nos últimos trinta anos. O único que não lhes deu atenção foi Fernando Henrique Cardoso. José Luís Cutrale recorda-se de uma cena constrangedora que protagonizou em Brasília, quando foi encontrar-se com FHC, então ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco. Depois de tomarem um chá-de-cadeira, Fernando Henrique recebeu ele e seu pai, mas interrompeu a reunião para ir ao Palácio do Planalto e não apareceu mais. "Ele falou que ia voltar, mas sumiu", disse José Luís a VEJA. Os Cutrale foram apresentados ao poder em 1972, quando a empresa foi escolhida a exportadora do ano. José Luís Cutrale acompanhou o pai na solenidade de premiação. Coube ao presidente Emílio Médici entregar o prêmio, em cerimônia realizada no Palácio da Guanabara, no Rio. "Eu e meu pai estávamos tremendo. Foi a primeira vez que entramos num palácio." Médici convidou os Cutrale para conversar depois da solenidade. No meio da conversa, pediu um cigarro a José Luís. Ele lembra que sentiu um calafrio. Tinha um maço de Minister guardado no bolso da calça, já meio amassado. Entregou um cigarro torto ao presidente da República, "igual a cigarro de bêbado". "O presidente fumou aquele cigarro torto, virado para baixo, e depois pediu outro. Era uma moça" (de delicadeza).

 
Fotos Claudio Rossi
O REI DO AÇÚCAR

Nome: Rubens Ometto, o maior exportador individual de açúcar de cana do mundo

Empresa: Grupo Cosan

Faturamento: 2,1 bilhões
de reais por ano

Patrimônio do grupo:
3,3 bilhões de reais

Cutrale soube cultivar um bom relacionamento no Palácio do Planalto. Gostava muito de José Sarney, mas admirava mesmo Fernando Collor, cuja campanha financiou. Ainda hoje o considera o político mais preparado para dirigir o país, "se não fossem aqueles problemas". O encantamento por Collor o ajudou a enfrentar a crise mais difícil que a família já atravessou. Em 1990, um tio de José Luís foi seqüestrado e os bandidos pediam 5 milhões de dólares para libertá-lo. O empresário ligou para o banqueiro Pedro Conde e pediu o dinheiro. Conde explicou que o Banco Central proibira os bancos de manter uma quantia expressiva em dólares no caixa. O governo havia decretado o confisco do dinheiro depositado nos bancos. Cutrale telefonou para o presidente Collor e explicou a situação. No dia seguinte, contou José Luís a VEJA, dois carros-fortes pararam em frente da casa de seu pai, em São Paulo, com o dinheiro do resgate. "Era tanto dinheiro que foram necessárias duas malas de viagem Samsonite para acomodar tudo", conta o empresário. Incumbido de negociar com os seqüestradores, Cutrale acabou libertando o tio em troca de 1,2 milhão de dólares.

No governo Lula, Cutrale conta que mantém boas relações com o presidente. Elas se tornaram amistosas depois que, durante a campanha, Lula o tranqüilizou a respeito do que faria com a economia em caso de vitória. "Ele me disse que não ia mexer com quem estava produzindo e que o que ia fazer era colocar o governo para ajudar os pobres. Acreditei." Num dos encontros com a reportagem de VEJA, José Luís sacou da pasta um punhado de charutos cubanos da marca Cohiba e Montecristo para dizer em seguida: "Esses eu estou levando para o Lula".

A grande preocupação profissional da Cutrale é a Citrosuco, fundada pelo empresário alemão Carl Fischer, já falecido. A Citrosuco é quase do tamanho da Cutrale e foi responsável por alguns dos grandes lances no mercado mundial de laranja. Ela foi pioneira na assinatura de contratos com fábricas de concentrado de laranja nos Estados Unidos e também a primeira companhia a operar terminais portuários e navios especiais para o transporte de suco de laranja. Entrou no mercado seis anos antes da Cutrale, tinha capital e empregava os melhores técnicos do mundo. Por vinte anos a Cutrale sempre esteve atrás da Citrosuco. A virada se deu depois que Carl Fischer morreu, em 1988. Nos últimos anos a Cutrale fez algumas jogadas de grande ousadia. Enquanto o concorrente lutava para abrir mercados no exterior, a Cutrale apostou que poderia ganhar o jogo intensificando a compra de laranjais. Segundo os especialistas, foi uma estratégia correta. O custo da caixa produzida em pomar próprio equivale a um terço do preço de mercado. Cerca de 40% do suco que a Cutrale produz é feito com laranja de seus pomares. A Citrosuco fabrica perto de 25% de suco com fruta dos próprios pomares, o que afeta seu lucro. Há dez anos, a empresa assumiu a liderança do mercado pela primeira vez e teme perdê-la. A diferença é muito pequena.

 
O REI DA SOJA

Nome: Blairo Maggi, o maior produtor individual do grão no mundo

Empresa: Grupo André Maggi

Faturamento: 1,3 bilhão de reais por ano

Patrimônio do grupo: 4,5 bilhões de reais

Em 2000, a Citrosuco fez uma investida pesada para retomar a liderança. Ricardo Ermírio de Moraes casou-se com uma das herdeiras da Citrosuco e passou a dirigir a empresa. Ele já havia trabalhado no negócio de laranja na Votorantim, empresa de sua família. À frente da Citrosuco, Ricardo moveu uma guerra de preços contra a Cutrale. A base de seu plano era conquistar plantadores de laranja que mantinham contrato com a Cutrale pagando a eles preços melhores pelas caixas colhidas. Frederico Oscar Hotz, presidente de uma cooperativa de produtores de laranja, confirma o abalo no mercado com a entrada de Ricardo Ermírio na Citrosuco. "Pela primeira vez existiu disputa de preço entre os fabricantes de suco", diz Hotz. A ação da Citrosuco durou cerca de dois anos, mas não funcionou. Os custos subiram, a lucratividade caiu e a liderança da Cutrale não foi abalada. O ataque parou depois que a Citrosuco perdeu 1,5 bilhão de reais com o confronto. O valor do prejuízo foi passado a VEJA por analistas de mercado que tiveram acesso aos números. Ricardo foi afastado. Seu sucessor, Norberto Farina, recebeu orientação da família Fischer para fazer as pazes com o concorrente.

O Brasil rural possui uma presença significativa no comércio internacional. É o segundo maior exportador mundial de soja, segundo na produção de carne e o primeiro nas culturas de cana-de-açúcar e café. Considerados em bloco, os produtos de origem agropecuária representam 27% das exportações e vão gerar neste ano um superávit comercial superior a 20 bilhões de dólares. Quando observados em separado, o Brasil também se destaca em diversas culturas. Além do rei da laranja, o rei da soja é um brasileiro. Chama-se Blairo Maggi, é paranaense e se elegeu governador pelo Estado de Mato Grosso no ano passado. Colhendo o equivalente a 1,3 bilhão de reais em soja por ano, com produtividade até 30% superior à média americana, detém o posto de maior plantador individual do grão. É também brasileiro o rei do açúcar, Rubens Ometto, de tradicional família usineira paulista, cujo negócio movimenta mais de 2 bilhões de reais por ano. Seu grupo possui o título de maior produtor individual de açúcar do mundo. São dois entre muitos casos de sucesso que o campo tem produzido (e continua a produzir) no processo de retomada de crescimento econômico registrado dos últimos anos. Se a agricultura continuar a progredir, novos reis certamente surgirão.

 

Cutrale e o poder

Roberto Castro/AE
• COLLOR
O caso das malas de dinheiro

Luis Humberto

• MÉDICI
O caso do "cigarro de bêbado"

• JEB BUSH
O caso da carta do governador americano

Antonio Milena

• LULA
O caso dos "charutos do presidente"


Com reportagem de
Camila Antunes

 
 
   
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