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Edição 1 802 - 14 de maio de 2003
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2000|01|02|03


 

O campeão mundial do
suco de laranja

O brasileiro José Luís Cutrale
e sua família detêm 30% do
mercado global de suco de
laranja, quase a mesma
participação da Opep no
negócio de petróleo

Alexandre Secco e Felipe Patury


Luiz Antonio Ribeiro
O HERDEIRO NO COMANDO
O empresário José Luís Cutrale detesta ser fotografado. Nessa foto ele foi flagrado na cerimônia de posse do Conselho de Desenvolvimento, em Brasília
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Apenas em dois momentos específicos da história, no ciclo do açúcar e no do café, o Brasil controlou amplamente o comércio global de um produto agrícola como acontece agora com o mercado mundial de laranja. De acordo com os números mais recentes, 70% do suco consumido no mundo é plantado ou industrializado por brasileiros. E esse mercado notável tem um rei. É José Luís Cutrale, detentor de uma marca fabulosa. Comandando um negócio que foi fundado por seu avô no começo do século passado e ampliado várias vezes por seu pai, José Luís administra a Sucocítrico Cutrale, empresa responsável pela venda de um de cada três copos de suco de laranja comercializados no exterior. Os dados do setor ignoram o volume da fruta vendida in natura, o chamado suco natural, inexpressivo em termos globais. Analisados os ramos de atividade com alguma expressão na pauta de exportações nacional, em nenhum outro setor da economia se encontram empresários brasileiros operando nesse patamar. Sua marca individual aproxima-se da participação coletiva dos países da Opep no mercado de petróleo, que é de 40%.

Cutrale vende suco concentrado para mais de vinte países, entre os quais os Estados Unidos, todos os da Europa e a China. Seus clientes são grandes companhias do padrão da Parmalat, da Nestlé e da Coca-Cola, dona de uma das marcas de suco de laranja mais populares nos Estados Unidos. O principal segredo do negócio consiste em adquirir fruta a um preço baixo – preço de banana, brincam os fornecedores –, esmagá-la pelo menor custo possível e vender o suco a um valor elevado. Observado por seus números, o mercado global de laranja pode não parecer tão impressionante. Movimenta "apenas" 9 bilhões de reais por ano, contra mais de 90 bilhões de reais da soja. Acontece que o setor gera uma lucratividade elevada, no momento em torno de 15% do faturamento para os melhores produtores. Para efeito de comparação, o Grupo Pão de Açúcar apresentou um lucro líquido equivalente a 2,5% do faturamento. Em anos anteriores, a taxa de retorno da Sucocítrico Cutrale já ultrapassou a casa dos 70%. A informação foi confirmada a VEJA por três pessoas: um ex-executivo do grupo Cutrale com acesso aos balanços e dois diretores de empresas concorrentes que também se beneficiaram dessa boa fase. O auge da lucratividade ocorreu nos anos 80. Naquele tempo, a Cutrale podia lucrar até 800 milhões de dólares, ou 2,4 bilhões de reais – equivalente ao lucro do Banco Itaú no ano passado.

Cutrale recusa-se a falar sobre a lucratividade da companhia. Há dois anos, a Receita Federal se interessou pela questão e teve dificuldade em analisar as contas do grupo. Fiscais de Brasília e São Paulo procuraram entender como a Cutrale ganha tanto dinheiro. Não localizaram nenhuma irregularidade. Uma autoridade da Receita relatou a VEJA que a estratégia para elevar a lucratividade do grupo passa por contabilizar uma parte dos resultados por intermédio de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Com isso, informa a autoridade da Receita, a Cutrale conseguiria pagar menos imposto no Brasil. Trata-se de um mecanismo legal. Foi o que a Receita descobriu ao escarafunchar as contas da organização da família Cutrale.

 
Claudio Rossi

CONDOMÍNIO EM FORMA DE CORAÇÃO
Alguns diretores da Cutrale vivem neste condomínio em forma de coração, em um terreno cercado de laranjais em Araraquara, no interior de São Paulo

Avesso a badalações e ausente das colunas sociais, José Luís Cutrale é um rosto pouco conhecido fora do mundo dos negócios. A fotografia exibida nesta reportagem foi tirada numa rara aparição. Ela ocorreu no Palácio do Planalto durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo presidente Lula e do qual Cutrale faz parte. No meio empresarial, no entanto, o nome de Cutrale é muito comentado. Primeiro pela riqueza que a família amealhou. Alguns empresários o classificam como o homem mais rico do campo brasileiro. Ou talvez o brasileiro mais rico de todos os campos. O banqueiro Pedro Conde, em conversas com empresários amigos, que relataram o que ouviram a VEJA, referiu-se várias vezes a Cutrale como o homem mais rico do Brasil. Disse a um interlocutor certa vez que sua fortuna acumulada equivalia a 5 bilhões de dólares – ou 15 bilhões de reais pelo câmbio do momento.

A credibilidade da estimativa feita por Pedro Conde advém do fato de o banqueiro ser amigo do rei da laranja, além de ter sido dono do BCN, comprado há alguns anos pelo Bradesco, no qual Cutrale concentrava o grosso de suas operações financeiras. Era o maior cliente do banco. Procurado por VEJA para falar sobre suas estimativas, Pedro Conde não deu retorno à reportagem. Outro grande empresário, dono de uma fortuna de 3 bilhões de reais, diz o seguinte a respeito de Cutrale: "Eu sei o que é ser rico e não me ocorre nenhum brasileiro que seja mais rico que ele". Perguntado por VEJA a respeito de sua fortuna e apresentado ao debate que se dá em torno do tema, José Luís Cutrale diz apenas: "Sobre esse assunto eu não falo".

Outra razão pela qual o nome de Cutrale freqüenta rodinhas de empresários é a atuação agressiva da empresa, principalmente em relação aos fornecedores. Os plantadores de laranja no Brasil têm poucas opções para escoar a produção. Há apenas cinco grandes compradores da fruta e Cutrale é o maior deles. Por essa razão, acabam mantendo com o rei da laranja uma relação que mistura temor e dependência. Por um lado, precisam que ele compre a produção. Por outro, assustam-se com alguns métodos adotados por Cutrale para convencê-los a negociar as laranjas por um preço mais baixo. Produtores ouvidos por VEJA afirmam que a família Cutrale costuma fazer enorme pressão para conseguir preços melhores na fruta ou mesmo adquirir fazendas. "Empregados deles nos visitavam e queriam que a gente vendesse nossa propriedade. Do contrário diziam que seríamos prejudicados na safra seguinte", afirmou um produtor que passou pela experiência de negociar com os Cutrale. Outro fazendeiro relata história semelhante, pois também foi procurado para vender sua fazenda de laranja. "Antes de eu ser abordado, minha fazenda foi sobrevoada algumas vezes por um helicóptero da companhia", diz.

Outra reclamação comum feita a VEJA por produtores diz respeito aos termos de alguns contratos de compra de laranja. Há três anos, 200 produtores acionaram em bloco a Cutrale. Acusavam-na na Justiça de descumprir um contrato pelo qual a empresa se comprometia a receber 5 milhões de caixas de laranjas. Segundo os produtores, nos dias em que eles tentaram fazer a entrega, os portões estavam fechados e a laranja começou a estragar. Os produtores quiseram ser ressarcidos pelo prejuízo, mas a Cutrale alegava que não lhes devia nada, já que não havia recebido a fruta. Os produtores receberam uma liminar para entregar o produto. Só depois disso a Cutrale aceitou a encomenda. "É difícil conseguir bons preços tratando com alguém que pode dizer não até sua laranja apodrecer", conta um produtor que por razões óbvias prefere não se identificar.

 
Divulgação

O JATO INTERCONTINENTAL
Uma vez por mês, o empresário José Luís Cutrale dá um giro por Estados Unidos, Europa e Ásia para monitorar seus negócios. Ele viaja em seu próprio jato, um Falcon avaliado em quase 100 milhões de reais (à esq.). Apenas para efeito ilustrativo, a foto mostra uma opção de decoração sugerida pelo fabricante

Essa linha dura já rendeu à Cutrale discussões legais por formação de cartel. De 1994 para cá, Cutrale já foi alvo de cinco processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, a autarquia encarregada de preservar a concorrência. Ele não estava sozinho no caso. Foi investigado juntamente com outras grandes indústrias do setor. Jamais sofreu uma punição. Num desses processos, duas associações de produtores de laranja denunciaram ao Cade que Cutrale e outras indústrias estavam se reunindo para combinar preços, o que prejudicava os plantadores. O desfecho do caso foi amigável. As empresas assinaram um "termo de compromisso de cessação das irregularidades" com os fazendeiros, comprometendo-se a não se reunir para organizar preços. O Cade decidiu que as empresas de suco de laranja não poderiam se organizar dessa forma.

Em vários aspectos, a indústria de suco de laranja lembra as empreiteiras. Além de ser um mercado concentrado nas mãos de poucos gigantes, os dois setores mantêm uma longa história de dependência em relação ao governo. Nos anos 70, Brasília criou uma linha de crédito especial para incentivar a exportação de produtos semi-industrializados. A idéia era usar dinheiro público para estimular a venda de manteiga de cacau, café solúvel e suco de laranja em vez de cacau, café e laranja, que são muito mais baratos e dão menos lucro. Acreditava-se que o comércio exterior brasileiro poderia dar um salto se o plano desse certo. O governo financiava a produção e as vendas para o exterior, estabelecia cotas para os exportadores e definia os preços de exportação. A operação era comandada pela Cacex, a carteira de comércio exterior do Banco do Brasil. O projeto fracassou para o cacau e para o café, mas deu certo para a laranja. Um ex-diretor do Banco do Brasil lembra que José Cutrale chegava a visitar a Cacex pelo menos uma vez por mês nos anos 70. Um dos mais poderosos diretores da Cacex, Carlos Viacava, manteve um relacionamento tão bom com a empresa que acabou contratado pela Cutrale como diretor quando saiu do governo.

Um ex-diretor do Banco do Brasil conta a VEJA que José Cutrale costumava levar a mulher, Amélia, para as reuniões de negócios em Brasília. Com Amélia ao lado, Cutrale conversava com os diretores do bancão oficial como se falasse com gerentes de agência do interior. Choramingava tanto enquanto pedia ajuda oficial que, freqüentemente, ficava com os olhos marejados, segundo relato do ex-diretor. Os pedidos mais comuns: uma cota maior na Cacex e um preço menor para exportar suco de laranja.

Há ainda uma terceira razão pela qual Cutrale desperta curiosidade no meio empresarial. Trata-se de uma certa pitada de excentricidade que a família demonstra na vida particular. Nas outras empresas, os altos executivos moram cada qual em sua casa e se reúnem no horário comercial. Na Cutrale é diferente. A companhia mandou construir um condomínio fechado em forma de coração ao lado de sua sede, no interior de São Paulo. Ali vivem alguns executivos da organização. São dez casas, no total, cercadas por um imenso laranjal. A maior é de José Cutrale, pai de José Luís, atualmente com 77 anos. O imóvel tem 844 metros quadrados e uma piscina coberta de 250 metros quadrados. As outras nove casas são de 500 metros quadrados cada uma. São ocupadas pelos empregados mais estimados por José Cutrale. Quem vive no condomínio não precisa sequer atravessar o portão para ir ao trabalho. De uns anos para cá, José Cutrale passou a morar mais tempo num apartamento na Park Avenue, endereço chique de Nova York.

O primeiro Cutrale a negociar laranja no Brasil foi Giuseppe Cutrale, que deixou os laranjais da família na Sicília no início do século passado para tentar a sorte em São Paulo. Começou comprando frutas no subúrbio do Rio de Janeiro – então a mais importante região produtora de laranja do país – e as revendia no Mercado Municipal de São Paulo. Valendo-se de contatos que mantinha com a comunidade italiana em outros países, passou a exportar fruta para o Canadá, a Alemanha e a Holanda. Foi a fase meramente comercial do grupo, na qual a família alcançou um padrão de vida de classe média e comprou uma casa num bairro operário de São Paulo. O começo da II Guerra Mundial obrigou Giuseppe a suspender as exportações, e os Cutrale pareciam ter chegado ao fim. Em 1955, o caçula dos onze filhos de Giuseppe, José Cutrale, recomeçou do zero o negócio do pai e conduziu a família para o clube dos bilionários. Na década de 60, com o lucro obtido no negócio, adquiriu laranjais e uma primeira fábrica de suco concentrado em parceria com Pedro Conde, do BCN. Fez trinta anos atrás aquilo que os especialistas pregam nas palestras sobre o futuro da agroindústria: agregou valor.


O PATRIARCA DO IMPÉRIO
A família Cutrale negocia laranjas há mais de 100 anos. José Cutrale (acima), hoje com 77 anos, herdou do pai um empreendimento quebrado e em quarenta anos transformou a empresa em um império bilionário

José Cutrale ainda tem poder para interferir nos negócios, mas as operações do dia-a-dia estão a cargo de seu único filho, José Luís. Aos 56 anos, José Luís Cutrale atua no ramo há 42, desde que deixou o colégio, aos 14 anos de idade. "Foi uma das decisões mais acertadas de minha vida", diz. "Na escola, só tinha meninas de nariz empinado", conta. Sua primeira missão empresarial foi, sob a supervisão do pai, tomar conta do caixa da banca de laranja que a família mantinha no Mercado Municipal, em São Paulo. E suas tarefas foram se tornando mais complexas, conforme o grupo crescia. José Luís aprendeu inglês, francês e italiano e, buscando aprimorar-se nos contatos com a clientela, decidiu matricular-se em cursos de oratória. Atualmente, para acompanhar os negócios de perto, ele cumpre um périplo mensal que passa por São Paulo, Flórida, Nova York e Amsterdã. Freqüentemente, viaja para a Ásia. Para se locomover, ele usa o próprio jato, um Falcon 900, avaliado em 100 milhões de reais. Os dois filhos, José Luís Júnior e José Henrique, já trabalham com o pai. Nenhum deles terminou a faculdade.


 

 
 
   
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