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A
arte de Lula
"É
com propaganda que Lula pretende
governar. Tudo virou propaganda. Fome
é propaganda. Reforma da Previdência
é propaganda. Cotação do dólar é
propaganda. Não surpreende que
a cultura também seja recrutada
para difundir a palavra do governo"
Eletrobrás e Furnas anunciaram que só iriam patrocinar projetos
culturais que atuassem "em sintonia com a política governamental".
Ou seja, para faturar um dinheirinho público, os artistas teriam
de divulgar as obras sociais do governo. O cineasta Cacá Diegues
esperneou. Ilustres representantes do meio artístico o apoiaram.
Diante de tantos protestos, o governo achou melhor ganhar tempo.
Em momento algum os artistas ousaram atacar diretamente Lula. Para Cacá
Diegues, o presidente não tinha "conhecimento específico
do que estava acontecendo nesse âmbito". Para Arnaldo Jabor, ele
não estava "inteirado" do assunto. O medo de desafiar Lula é
tão grande que os artistas preferiram tratá-lo como um bobo
que desconhecia as iniciativas de seu próprio governo. Lula não
é bobo. Pode não ter ouvido falar em Homero ou Eisenstein,
mas sabe perfeitamente o que quer do meio cultural. O documento com as
novas regras de patrocínio das estatais seguia, ponto por ponto,
o programa do PT e as declarações do ministro Gilberto Gil,
com todo aquele lero-lero populista de identidade nacional, folclore e
inclusão social. Por anos e anos, o setor da cultura viveu exclusivamente
à custa do Estado, embolsando bilhões em generosos financiamentos
públicos. Era natural que, a certa altura, o poder político
resolvesse cobrar a dívida, estabelecendo que, para continuar a
usufruir dessa relação parasitária, os artistas oferecessem
a chamada "contrapartida social", que nada mais é do que propaganda
camuflada do governo.
Lula acredita em propaganda. Foi graças a ela que ganhou as eleições.
E é com ela que pretende governar. Tudo virou propaganda. Fome
é propaganda. Reforma da Previdência é propaganda.
Cotação do dólar é propaganda. Não
é surpreendente que a cultura também seja recrutada para
difundir a palavra do governo. Empresas estatais, com seus 200 milhões
em patrocínio, podem chantagear atores e cineastas. Quanto aos
escritores, é ainda mais fácil. Basta o ministro Cristovam
Buarque levar adiante uma de suas idéias estapafúrdias,
como a de instituir bibliotecas em canteiros de obras ou a de incluir
livros na cesta básica. Quero ver a reação de um
faminto piauiense ao encontrar um livro de Verissimo no meio dos sacos
de farinha.
Historicamente, esquerdistas não gostam de esquerdistas. Lula não
é exceção. Ele não manda os velhos companheiros
para o paredão, como líderes esquerdistas do passado, mas
se deleita em contrariar todas as suas expectativas. Os funcionários
públicos foram tachados de contra-revolucionários e terão
suas aposentadorias cortadas. Os ecologistas foram obrigados a engolir
a usina nuclear Angra 3. O MST teve de escutar calado o discurso de Lula
aos pecuaristas de Uberaba. A CUT aceitou o aumento salarial de 1%. A
CNBB perdeu o controle do filão da caridade. Os desenvolvimentistas
abaixaram a cabeça para Henrique Meirelles. Por fim, Lula começou
a enquadrar o meio cultural, que sempre o apoiou incondicionalmente. Conhecendo
o caráter de nossos artistas, estou certo de que, depois de um
pouco de gritaria, eles saberão se adaptar aos novos tempos. E
o dinheiro voltará a circular.
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