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Edição 1 802 - 14 de maio de 2003
Diogo Mainardi

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A arte de Lula

"É com propaganda que Lula pretende
governar. Tudo virou propaganda. Fome
é propaganda. Reforma da Previdência
é propaganda. Cotação do dólar é
propaganda. Não surpreende que
a cultura também seja recrutada
para difundir a palavra do governo"

Eletrobrás e Furnas anunciaram que só iriam patrocinar projetos culturais que atuassem "em sintonia com a política governamental". Ou seja, para faturar um dinheirinho público, os artistas teriam de divulgar as obras sociais do governo. O cineasta Cacá Diegues esperneou. Ilustres representantes do meio artístico o apoiaram. Diante de tantos protestos, o governo achou melhor ganhar tempo.

Em momento algum os artistas ousaram atacar diretamente Lula. Para Cacá Diegues, o presidente não tinha "conhecimento específico do que estava acontecendo nesse âmbito". Para Arnaldo Jabor, ele não estava "inteirado" do assunto. O medo de desafiar Lula é tão grande que os artistas preferiram tratá-lo como um bobo que desconhecia as iniciativas de seu próprio governo. Lula não é bobo. Pode não ter ouvido falar em Homero ou Eisenstein, mas sabe perfeitamente o que quer do meio cultural. O documento com as novas regras de patrocínio das estatais seguia, ponto por ponto, o programa do PT e as declarações do ministro Gilberto Gil, com todo aquele lero-lero populista de identidade nacional, folclore e inclusão social. Por anos e anos, o setor da cultura viveu exclusivamente à custa do Estado, embolsando bilhões em generosos financiamentos públicos. Era natural que, a certa altura, o poder político resolvesse cobrar a dívida, estabelecendo que, para continuar a usufruir dessa relação parasitária, os artistas oferecessem a chamada "contrapartida social", que nada mais é do que propaganda camuflada do governo.

Lula acredita em propaganda. Foi graças a ela que ganhou as eleições. E é com ela que pretende governar. Tudo virou propaganda. Fome é propaganda. Reforma da Previdência é propaganda. Cotação do dólar é propaganda. Não é surpreendente que a cultura também seja recrutada para difundir a palavra do governo. Empresas estatais, com seus 200 milhões em patrocínio, podem chantagear atores e cineastas. Quanto aos escritores, é ainda mais fácil. Basta o ministro Cristovam Buarque levar adiante uma de suas idéias estapafúrdias, como a de instituir bibliotecas em canteiros de obras ou a de incluir livros na cesta básica. Quero ver a reação de um faminto piauiense ao encontrar um livro de Verissimo no meio dos sacos de farinha.

Historicamente, esquerdistas não gostam de esquerdistas. Lula não é exceção. Ele não manda os velhos companheiros para o paredão, como líderes esquerdistas do passado, mas se deleita em contrariar todas as suas expectativas. Os funcionários públicos foram tachados de contra-revolucionários e terão suas aposentadorias cortadas. Os ecologistas foram obrigados a engolir a usina nuclear Angra 3. O MST teve de escutar calado o discurso de Lula aos pecuaristas de Uberaba. A CUT aceitou o aumento salarial de 1%. A CNBB perdeu o controle do filão da caridade. Os desenvolvimentistas abaixaram a cabeça para Henrique Meirelles. Por fim, Lula começou a enquadrar o meio cultural, que sempre o apoiou incondicionalmente. Conhecendo o caráter de nossos artistas, estou certo de que, depois de um pouco de gritaria, eles saberão se adaptar aos novos tempos. E o dinheiro voltará a circular.

 
 
   
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