
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
"Atravessei
o túnel
do medo"
Condenado à morte por fanáticos
muçulmanos em 1989, o escritor
diz que já não teme seus inimigos,
mas acha que a religião é um
veneno para o mundo
Carlos
Graieb

Acesso rápido |
|
|
|
O
escritor anglo-indiano Salman Rushdie ganhou notoriedade em 1989, quando
o regime muçulmano fundamentalista do Irã decretou contra
ele uma fatwa, ou sentença de morte. Rushdie foi acusado de blasfemar
contra o islamismo no romance Os Versos Satânicos, que acabava
de publicar. A década seguinte foi de horror para o romancista,
que viveu escondido, sob proteção da polícia britânica.
Ao mesmo tempo, ele se tornou uma figura política, assumindo o
papel de porta-voz em todo tipo de campanha pelas liberdades civis. E
também conseguiu publicar obras de ficção que consolidaram
sua reputação como um autor de grande inventividade. Em
1998, depois de muita pressão internacional, o Irã finalmente
retirou a condenação contra ele. Apesar de ainda sofrer
ameaças, Rushdie diz que hoje procura viver normalmente. Nesta
semana, a convite da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro,
ele desembarca em sua primeira visita ao Brasil. Virá em companhia
da namorada, Padma Lakshmi, atriz de ascendência indiana à
qual ele dedicou seu mais recente romance, Fúria. Rushdie,
de 55 anos, vive hoje em Nova York, de onde falou a VEJA.
Veja
Em 14 de fevereiro, a Guarda Revolucionária do Irã
revalidou a sentença de morte contra o senhor, por causa do livro
Os Versos Satânicos. Como isso o afeta?
Rushdie
Muito pouco. O governo iraniano retirou oficialmente a condenação
contra mim em 1998, mas desde então sempre aparece alguém,
uma figura menor do regime, para renovar as ameaças. Esses gestos
não têm nenhuma repercussão séria. Eu consegui
atravessar o túnel do medo e hoje levo uma vida normal. Tenho endereço
certo, tomo o metrô, vou ao mercado, viajo de avião como
qualquer pessoa. Já não ando com guarda-costas e não
vou me intimidar.
Veja
Quais as cicatrizes que o senhor carrega?
Rushdie Os
nove anos de medo formaram um grande buraco em minha vida. Eles me privaram
de uma infinidade de prazeres e alegrias. Eu tinha um filho pequeno, e
não pude ser um bom pai para ele. Não podíamos fazer
coisas simples como brincar num parque. Também perdi muito trabalho.
A sentença de morte me custou um livro, que não foi escrito.
Tive de gastar tempo demais em campanhas políticas contra a intolerância
e não pude me dedicar ao trabalho literário. É muito
bom já não precisar fazer isso.
Veja
Certa vez o senhor disse que o "caso Rushdie" ainda seria visto
como um absurdo mesmo no mundo muçulmano. Esse dia está
próximo?
Rushdie Não
sei se está próximo, mas quero crer que ele virá.
Digo que é possível porque sou de origem muçulmana
e lembro do ambiente em que cresci na Índia. A sociedade muçulmana
de Bombaim era aberta, tolerante e nada tinha de paranóica. O radicalismo
infeccioso, de origem religiosa, é um fato recente. Não
sou especialista em Oriente Médio, mas tenho falado com muitos
amigos que conhecem a região e eles também lamentam a maneira
como a cultura do Islã mudou. Em cidades como Beirute e Damasco
a transformação foi drástica. Eram lugares maravilhosos,
cosmopolitas, cheios de vida artística. Mesmo Bagdá e Teerã
eram grandes cidades. Tudo isso está na memória de pessoas
da minha geração. É triste que essas cidades tenham
regredido tanto em poucas décadas. Mas não há por
que imaginar que essa mudança seja irreversível. Hoje, muitos
muçulmanos lêem meus livros, entendem o que digo, acham absurdo
o que aconteceu comigo e lamentam que essa história tenha posto
sua cultura, desnecessariamente, sob luz desfavorável.
Veja
Por que o senhor afirmou num artigo recente que "a religião
é um veneno em nosso sangue"?
Rushdie O
hábito de invocar a autoridade divina para legitimar preconceitos,
perseguições e atrocidades é muito antigo, mas ressurgiu
com força nos últimos tempos. A meu ver, é o problema
central do mundo contemporâneo e não está de
maneira nenhuma restrito ao universo islâmico. O artigo a que você
se refere, por exemplo, trata da crueldade da maioria hindu contra
os muçulmanos na região indiana do Punjab. Mesmo num país
democrático como os Estados Unidos, a religião voltou a
interferir na vida pública, e esse é um fato que eu, que
pertenço a uma geração de mentalidade extremamente
dessacralizada, só posso lamentar. Nos anos 60, quem usava linguagem
religiosa em público, num contexto político, era olhado
com estranheza. A religião havia se retirado para o campo privado.
Nos últimos tempos, contudo, o pêndulo oscilou para o outro
lado.
Veja Existe algum espaço para a religião na
esfera política?
Rushdie Não
creio que deva existir. Estaremos muito melhor com os princípios
de separação entre Estado e Igreja estabelecidos pela Revolução
Francesa. Se as pessoas querem acreditar em Deus, se derivam prazer, conforto
ou apoio moral dessa crença, não sou eu quem vai criticá-las.
Mas as coisas tendem a se complicar quando a religião se confunde
com o poder e interfere nos processos de decisão política.
Pois a linguagem da religião é uma linguagem de absolutos
que, mais cedo ou mais tarde, levam à estigmatização
de um grupo. Como o grupo dos ateus, por exemplo. Na última eleição
presidencial americana, um grande jornal realizou uma pesquisa perguntando
em quais candidatos das chamadas minorias os eleitores aceitariam votar.
As pessoas, em geral, disseram que não se oporiam a candidatos
negros, a mulheres ou a homossexuais. Quando perguntaram se votariam num
ateu, contudo, a situação mudou: mais de 50% disseram que
não. Você é inelegível se duvidar da existência
de Deus.
Veja
O senhor já escreveu que blasfêmias são
importantes, pois é graças a elas que o mundo avança.
Rushdie
É a mais pura verdade se você considerar que Sócrates,
o próprio Jesus e Galileu foram considerados blasfemos. No Iluminismo,
blasfemar tornou-se uma tática deliberada dos filósofos
e escritores. Voltaire, Rousseau e Diderot acreditavam que o grande inimigo
da liberdade intelectual não era o Estado, mas a Igreja. Blasfemar
com alegria era seu meio de dizer que não aceitavam mais os limites
que a religião impunha ao pensamento. Devemos a eles muito de nosso
conceito de liberdade de expressão. Se Deus existe, creio que ele
não se importa nem um pouco com as pessoas que não acreditam
nele. Bem menos, em todo caso, do que aqueles que se arrogam o direito
de falar em seu nome e que usam palavras como "blasfêmia" e "heresia"
para lutar contra todo tipo de novidade ou desejo de mudança.
Veja
O senhor foi contra ou a favor da guerra no Iraque?
Rushdie
Tive sentimentos ambivalentes. Fui a favor da guerra por acreditar que
a derrubada de um tirano como Saddam Hussein era um objetivo desejável.
Isso me causou problemas com alguns amigos de esquerda. Mas eu acho que
esses amigos se enredaram em posições insustentáveis
nos últimos anos. Em nome do "objetivo maior" de criticar os Estados
Unidos e sua política de poder, eles têm chegado ao ponto
de defender o Talibã ou Saddam. Quando não defendem, fazem
vistas grossas às suas barbaridades. Ora, a denúncia da
tirania sempre foi um tema importante do pensamento de esquerda. É
inadmissível que um homem que brutalizou seu povo por quase três
décadas se transforme em santo apenas porque são os americanos
que guerreiam para depô-lo. O que me deixou insatisfeito foi a pouca
discussão do rumo a ser tomado no pós-guerra. Como reconstruir
a sociedade iraquiana, como ajudá-la a compor um governo, quanto
tempo manter os soldados americanos no país? Nada disso foi discutido
abertamente antes da guerra, e vemos as conseqüências. Há
o perigo do separatismo curdo, o perigo de o fundamentalismo xiita subir
ao poder, toda uma gama de problemas difíceis. Tudo no Iraque é
precário e perigoso.
Veja
O senhor saiu da Inglaterra para morar nos Estados Unidos. Foi
uma boa troca?
Rushdie Qualquer
um que chegue aos Estados Unidos e seja originário de um país
do Terceiro Mundo, como eu, terá uma vivência dupla do país.
É impossível não se maravilhar com a energia dos
americanos, e morar em Nova York é extremamente prazeroso. Por
outro lado, trazemos conosco o conhecimento e às vezes a
memória de que os Estados Unidos são uma superpotência
nem sempre benévola. Ao descrever o país em Fúria,
tentei fazer jus a essas ambigüidades. Concentrei no protagonista
do romance, o professor Solanka, todas as críticas aos Estados
Unidos. Ele é muito rabugento em relação ao país
muito mais que eu, na verdade. Mas, ao redor de Solanka, coloquei
as coisas boas da vida americana.
Veja
Para que servem os romances?
Rushdie
Eu acho que o valor do romance está em sua flexibilidade infinita,
que o torna um instrumento único para espelhar o mundo e registrar
a realidade. Olhe em retrospecto e você perceberá que os
grandes romances o informam mais profundamente sobre um determinado período
histórico do que qualquer outro tipo de documento. Até mesmo
os historiadores reconhecem isso. Outra coisa importante sobre os romances
é que eles manifestam visões únicas e pessoais do
mundo. Poucas formas de arte são tão individuais, tão
pouco dependentes da colaboração externa. Acho essa característica
incrivelmente valiosa. Uma biblioteca de romances é um repositório
de vozes individuais que sobrevivem no tempo quanto mais vozes
desse tipo puderem ser ouvidas, melhor para a sociedade. Finalmente, romances
são importantes porque, se não existissem, eu não
teria um emprego e morreria de fome.
Veja
O Chão que Ela Pisa, seu penúltimo romance, tem
como protagonistas ídolos do rock. Por que a música pop
é um assunto tão importante no romance contemporâneo
inglês e americano?
Rushdie
Em primeiro lugar, porque o romance não é uma forma de arte
elitista. Para um autor de romances, a distinção entre alta
cultura e baixa cultura não é apenas desnecessária,
ela é prejudicial. Você precisa estar aberto a tudo, criar
personagens que pensem como as pessoas pensam, que se interessem por aquilo
que interessa às pessoas. Se só puser referências
da alta cultura num romance, você escreverá para poucos,
a partir de uma torre de marfim. Quanto à música pop em
particular, tenho afinidade natural com esse universo. Ela explodiu enquanto
eu crescia, e acho que foi o primeiro fenômeno global de nossa época,
a primeira coisa que se espalhou pelo mundo tocando igualmente chineses,
europeus ou americanos. E lembre-se de que naquele tempo a mídia
não era o que é hoje. No país de minha infância,
as rádios eram todas estatais e não tocavam música
do Ocidente. Mesmo assim, nós conhecíamos as bandas de rock
mais importantes. Em O Chão que Ela Pisa, queria aproximar
três mundos diferentes: Índia, Inglaterra e Estados Unidos.
Logo descobri que a única coisa que tornaria isso possível
era a música pop.
Veja
Bono Vox, do grupo U2, inspirou-se nesse livro para compor uma
canção de mesmo nome. Há planos para novas colaborações?
Rushdie Não
temos plano nenhum. E a colaboração anterior ocorreu muito
naturalmente. Sou amigo de muitos roqueiros. Eu me encontro com o pessoal
do U2 há pelo menos dez anos. Quando fui condenado pelo regime
iraniano, eles me deram muito apoio. Ao concluir O Chão que
Ela Pisa, mandei uma cópia a Bono. Ele gostou do livro e, lá
no meio, encontrou alguns versos que o inspiraram a compor uma canção.
Foi tudo assim, por acaso, e por isso mais divertido.
Veja
O senhor é um polemista calejado. Qual a importância
da polêmica para a cultura?
Rushdie
Gostaria de fazer uma distinção entre meu trabalho como
romancista e como ensaísta. Nunca fiz um romance para provocar
polêmica muito menos Os Versos Satânicos. Não
acho que esse seja um papel da ficção. Feita essa ressalva,
sempre me interessei em participar das discussões públicas.
O exemplo vem de minha infância na Índia. Naquela época,
o grande poeta urdu Faiz Ahmed Faiz era amigo de minha família.
O artista introspectivo e o homem público conviviam perfeitamente
nele. Ele fez poesia maravilhosa, mas também escreveu com paixão
sobre os problemas políticos do dia-a-dia. Mas é preciso
saber dosar as coisas. No momento estou um pouco enjoado de política.
Escrevi uma coluna para o New York Times por quatro anos e agora
gostaria de ficar recolhido ao meu canto.
Veja
No começo de sua carreira, o senhor foi descrito como
"escritor pós-colonial". Aceita esse rótulo?
Rushdie
O rótulo foi criado na academia para descrever um grupo de autores
que chegaram à Inglaterra vindos de antigas colônias britânicas.
Não é desprovido de sentido. Eu, por exemplo, nasci em um
país que acabava de tornar-se independente e, nos meus primeiros
escritos, esse dado foi importante. Hoje, no entanto, o legado colonial
já está muito diluído. Mesmo nas antigas colônias
o foco da discussão mudou: se você quiser chegar a algum
lugar, não adianta mais discutir a relação da Índia
com sua antiga metrópole. O problema não é lidar
com um passado complicado, mas com um presente complicado. Os problemas
que enfrentamos são de nossa própria conta, não podemos
tratá-los eternamente como heranças. Aliás, se existe
algo de que posso me orgulhar na Índia é o fato de que o
debate político por lá se sofisticou e já não
se ouve muito a antiga cantilena de que tudo é culpa dos americanos,
dos russos ou de um outro povo estrangeiro qualquer. Essa retórica
foi deixada de lado. Eu escrevi várias vezes que a única
maneira de livrar-se de uma mentalidade colonial é assumir a responsabilidade
pela sociedade em que você vive. Enquanto você continuar a
fazer papel de oprimido, continuará preso a essa mentalidade.
|
|
 |