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Gustavo
Franco
O câmbio das
estações
"Não
posso deixar de me divertir ao
assistir a uma
metade do PT feliz de ver o câmbio valorizar-se
para murchar a inflação e à outra propugnando o
que parece ser um 'piso' para o câmbio"
A julgar
pelas manifestações das autoridades, todos, ou quase todos,
estão fechadíssimos com o regime de flutuação
cambial. Mas quase todos, ou todos, mostram desconforto quando o câmbio
flutua significativamente para baixo. Facilmente se confunde uma discussão
conceitual sobre o regime cambial métodos e critérios
de formação da taxa de câmbio com outra, mais
futebolística, sobre qual o nível de câmbio que cada
um considera apropriado.
Ilustração Ale Setti
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As tensões começam quando o mercado o comandante
da formação do câmbio num regime de flutuação
começa a levar o câmbio para longe do nível
que as autoridades entendem como adequado. É nesse momento que
começam as dúvidas sobre o regime e são discutidas
e introduzidas "impurezas" sob a forma de intervenções,
primeiro discretas e indiretas, depois explícitas e partes integrantes
do novo regime.
A história
demonstra abundantemente que os regimes têm muito a ver com circunstâncias
e que a política cambial, como a monetária, é feita
de ciência mas também de arte, especialmente quando se trata
de trabalhar em situações difíceis e singulares,
fora daquelas previstas nos livros-texto. Assim como há ciclos
na conta de capitais e no balanço de pagamentos, há também
modismos nas teorias sobre taxas de câmbio.
Do ponto
de vista estritamente técnico, e levando em conta minha própria
experiência, o que se pode dizer é que, a despeito da lealdade
cívica das autoridades a seus compromissos anteriores, não
se deve ficar amarrado a compromissos que podem revelar-se impossíveis
de ser mantidos quando mudam as estações do ano. Com efeito,
a defesa da flutuação se faz em boa medida com o argumento
de que intervenções sistemáticas, ainda que bem-intencionadas
e positivas durante certo tempo, notadamente em tempos de bonança,
são insustentáveis a médio prazo, quando chega o
inverno. Afinal, este é um país dado a ondas de otimismo
e pessimismo, sem lugar para meio-termo.
Perfeito
o raciocínio, só que vale para as duas direções.
Em julho de 1994, em pleno verão no mercado internacional de capitais,
adotamos a flutuação cambial, e lá se foi o câmbio
para baixo, assim fornecendo inestimável ajuda no processo de combate
à hiperinflação. Seis meses depois, todavia, com
amplo apoio da opinião pública informada, o BC introduziu
um "piso" para a flutuação, iniciando o sistema das "bandas",
cujo propósito durante os anos que se seguiram foi principalmente
o de evitar mais valorização. A flutuação,
portanto, não se mostrou um regime próprio para o verão,
especialmente o dos trópicos.
No início
de 1999, em contraste, ficando claro que o inverno havia começado
(e que no Brasil o inverno é escandinavo), tivemos de retornar
à flutuação e nos acomodar em taxas de câmbio
muito maiores e muito mais voláteis. Se durante o verão
a intervenção do BC era mais que bem-vinda, já que
se tratava mormente de acumulação de reservas, no inverno,
sob flutuação, a intervenção é arriscada
e malvista.
Todo o problema
é com as situações intermediárias e as transições.
Estamos com roupas leves e começa a fazer frio, ou estamos encasacados
num estranho sol escaldante. No presente momento, no domínio cambial,
quem é capaz de dizer se o inverno acabou mesmo e se estamos numa
primavera ou já no outono?
Infelizmente,
o doutor Henrique Meirelles não sabe responder a essa pergunta,
tampouco os analistas, e menos ainda o senador Aloizio Mercadante e o
ministro Luiz Furlan, que, pelo que entendi, diante das dificuldades proverbiais
de nossas exportações, não quer abrir mão
do viagra fornecido pelo câmbio sobredesvalorizado.
O fato é
que, no contexto dessa epidemia de arrependimentos, por parte do PT, quando
se trata de políticas macroeconômicas da era FHC ditas
neoliberais e malignas, e agora praticadas com desenvoltura ainda maior
, não posso deixar de me divertir ao assistir a uma metade
do PT feliz de ver o câmbio valorizar-se para murchar a inflação
e à outra, com o senador Mercadante à frente, propugnando
o que parece ser um "piso" para o câmbio.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (gfranco@palavra.com,
www.gfranco.com.br)
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