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Edição 1 802 - 14 de maio de 2003
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A virtude do silêncio


Joedson Alves/AE
Palocci e Meirelles: à margem das discussões sobre o dólar

O governo do PT está brincando com fogo ao permitir que diversas autoridades dêem livremente sua opinião sobre taxa de câmbio. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contribuiu para o erro ao dizer, dias atrás, que o real não deveria valorizar-se muito para não atrapalhar as exportações. Nas últimas semanas, Luiz Fernando Furlan, ministro do Desenvolvimento, o senador Aloizio Mercadante e economistas ligados ao PT vêm arbitrando o que consideram ser o valor ideal do dólar para o bom funcionamento da economia brasileira. Na quinta-feira, Mercadante chegou a defender que o governo utilize ferramentas de controle do capital estrangeiro que entra no país, um mecanismo com impacto direto sobre o equilíbrio cambial.

O resultado dessas declarações é alimentar a especulação do mercado. Sobre câmbio não se fala, a não ser para garantir que nada vai mudar, mesmo que isso seja mentira. Essa é uma lei da qual nenhum governo responsável se afasta. Felizmente, no caso brasileiro, as autoridades monetárias, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, estão muito bem informadas sobre as virtudes do silêncio nesse campo.

Existem, basicamente, três sistemas de câmbio passíveis de adoção por um país. No mais rígido, o governo fixa o valor da moeda local em relação ao dólar e o mantém nesse patamar através de um controle draconiano das transações. A Argentina o utilizou no governo Menem até o recente colapso que explodiu sua economia. Num segundo esquema, o governo permite variações pequenas e controladas. O Brasil utilizou-o no governo FHC, até o estouro de janeiro de 1999. Por fim, há o câmbio flutuante, no qual o valor da moeda local varia na sua relação com o dólar ao sabor das realidades macroeconômicas e das expectativas do mercado. Esse é o sistema atualmente em uso no Brasil. É o mais adequado, mas, por definição, nele o câmbio flutua. Quando autoridades de Brasília sugerem que esse sistema pode sofrer a pressão do forte dedo governamental, espalha-se desconfiança no mercado e a flutuação começa a fibrilar. E tudo que o Brasil não precisa agora é de uma crise de confiança cambial como a que acompanhou a eleição de Lula.

 
 
   
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