O peixão da rede

Como Jeff Bezos ganhou bilhões de dólares
via internet com a livraria virtual Amazon


Carlos Graieb, de Nova York

No final dos anos 80, o jornalista americano Tom Wolfe inventou um apelido para os executivos da Bolsa de Valores de Nova York. Eles eram os "Mestres do Universo" ou tinham a pretensão de sê-lo. Exatamente nessa época, um jovem chamado Jeff Bezos circulava por Wall Street em busca de emprego. Encontrou vaga num banco, como gerente de aplicações. Passado um tempo, Bezos começou a ter dúvidas sobre seu status de Mestre. E se o universo estivesse evoluindo em outra direção, como o ciberespaço, por exemplo? Em 1990, ele abandonou a carreira de financista e voltou-se para os computadores. Bastaram cinco anos para que fundasse sua própria companhia na internet, destinada a vender livros. Chama-se Amazon e seu site é o Amazon.com. Depois de se tornar a maior empresa do mundo na venda de livros via computador, agora ela avança para áreas não desbravadas do comércio eletrônico. Bezos faz parte hoje em dia de uma restrita "ciberelite", um grupo de pioneiros que apostou no potencial da rede de gerar grandes negócios e começa a colher os louros. Em 1997, ele pôs ações da Amazon à venda. Em um ano, o preço delas subiu 966%. O valor de mercado da empresa supera atualmente os 20 bilhões de dólares. A fortuna pessoal de Bezos, hoje com 35 anos, está acima dos 9 bilhões. Não é difícil imaginar os analistas de Wall Street embasbacados. "Só me arrependo de não ter deixado a bolsa antes", diz ele. Quem era mesmo um Mestre do Universo?

Depois do êxito da Amazon, a idéia de vender livros por computador tornou-se óbvia. Mas o mercado das letras nunca foi muito rentável, e as pessoas se perguntam por que um empreendedor ambicioso como Bezos começou justamente daí. Ele diz que é um leitor voraz. Compra em média nove volumes por mês. Quando decidiu inaugurar sua "estante eletrônica", porém, não foi por idealismo. Bezos tinha uma lista com vinte produtos que pareciam fáceis de negociar na internet. Os livros ganharam a parada por motivos práticos: os dois maiores distribuidores dos Estados Unidos já mantinham os catálogos das editoras americanas organizados digitalmente. Isso facilitava as coisas. Ao entrar no site da Amazon, o cliente selecionava, no catálogo digital, as obras que desejasse. A Amazon, então, comprava os títulos dos distribuidores e os enviava a ele. Hoje, Bezos se esforça para eliminar os intermediários. Negocia diretamente com as editoras. Além disso, construiu três armazéns nos Estados Unidos, um na Inglaterra e outro na Alemanha. Com estoque próprio, faz as entregas mais rápido e dá descontos maiores.

O acesso aos catálogos das editoras continua sendo uma vantagem estratégica importante. Nos últimos meses, aliás, graças ao aumento da concorrência, uma espécie de "guerra dos catálogos" eclodiu na internet. A Barnes & Noble, a maior rede de livrarias "reais" nos Estados Unidos e também a mais séria rival da Amazon na rede, lançou recentemente uma campanha alardeando que oferece 8 milhões de títulos em seu site, contra 4,7 milhões da empresa de Bezos. Mas este faz pose de quem não liga. Em primeiro lugar, porque a Amazon vai aos poucos diversificando a "vitrine". Vende discos e vídeos e também passou a oferecer bugigangas como relógios e bichinhos de pelúcia. Em breve, deve atacar com programas e equipamentos de computação. Mas os alvos seguintes, nem sob tortura Bezos revela quais são.

Ele é um otimista, mas com os pés no chão. Os resultados da Amazon na bolsa, por exemplo, mascaram o fato de que seu volume de negócios (610 milhões de dólares de faturamento em 1998) é pequeno se comparado com o de qualquer empresa importante do "mundo físico". Como observou recentemente a revista The Economist, a Amazon ainda corre o risco de tornar-se "um empreendimento bilionário na bolsa, com os lucros de uma loja de esquina". Para combater o perigo de ter nas mãos uma empresa sustentada somente pelo capital especulativo, Bezos gasta os dias pensando em meios para transformar usuários distraídos da internet em clientes fiéis da Amazon. "O cliente é o verdadeiro Mestre do Universo", diz ele. "Deixe de agradar ao cliente e suas ações vão virar pó", completa. Há muito tempo a horrenda expressão "foco no cliente" aparece no jargão dos consultores de marketing. Mas Bezos acredita que o comércio eletrônico lhe deu um novo e revolucionário sentido. "Cada cliente da Amazon encontra inúmeros recursos no site para organizar a compra de acordo com seus interesses e necessidades", observa. "É como se ele fosse construindo sua loja pessoal, deixando informações armazenadas para as visitas futuras." Bezos se orgulha de que várias invenções da Amazon, como a "compra com um único clique" e a "seção de presentes", venham sendo imitadas pela concorrência. "A Barnes & Noble defende sua praia. Nós inovamos."

Parque de diversões Se as profecias de Bezos se confirmarem, os hábitos de consumo vão mudar bem rápido nos próximos anos. Segundo ele prevê, em uma década 15% do comércio que hoje é feito nas lojas vai migrar para o ciberespaço. Em trinta anos, a maioria dos produtos de uso diário, da comida às roupas, será encomendada pela internet. Sair de casa para ir às compras será, então, um programa tão especial como ir a um parque de diversões. "O comércio eletrônico vai forçar as lojas do mundo físico a mudar, tornando-se mais limpas, amigáveis, divertidas", garante. Bezos aponta precursores desse modelo em grandes redes como a GAP, de roupas, ou até a Barnes & Noble. É verdade que essas mudanças poderiam acentuar uma tendência negativa que já se encontra em andamento: uma a uma, pequenas lojas perfeitamente "amigáveis e limpas" fecham as portas por não conseguir enfrentar a concorrência das grandes redes. Mas Bezos prefere o otimismo. "Vai ser um admirável mundo novo", brinca.

 
Montagem de Ale Setti
 

 




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